Quisera ser um gato – Texto de Ferreira Gullar

Fora os fantasmas que me acompanham e me fazem refletir sobre o sentido da vida, vivo eu, neste apartamento, com uma gatinha siamesa. Que é linda, não preciso dizer, mas, além disso, é especial: quase nunca mia e, quando soa a campainha da porta, se arranca. Nem eu sei onde ela se esconde. Ela é,… Read More »

Edmundo, o Céptico – Texto de Cecília Meireles

Naquele tempo, nós não sabíamos o que fosse cepticismo. Mas Edmundo era céptico. As pessoas aborreciam-se e chamavam-no de teimoso. Era uma grande injustiça e uma definição errada. Ele queria quebrar com os dentes os caroços de ameixa, para chupar um melzinho que há lá dentro. As pessoas diziam-lhe que os caroços eram mais duros… Read More »

História de uma letra – Texto de Cecília Meireles

Muita gente me pergunta se deixei de escrever o meu sobrenome com letra dobrada devido à reforma ortográfica; e quando estou com preguiça de explicar, digo que sim. Mas hoje tomo coragem, abalanço-me a confessar a verdade, que talvez não interesse senão aos meus possíveis herdeiros. A verdade nunca é simples, como se imagina. E… Read More »

Maria Pintada de Prata – Conto de Dalton Trevisan

GRANDALHÃO, voz retumbante, é adorado pelos filhos. João não vive bem com Maria ambiciosa, quer enfeitar a casa de brincos e tetéias. Ele ganha pouco, mal pode com os gastos mínimos. Economiza um dinheirinho, lá se foi com a asma do guri, um dente de ouro da mulher. Ela não menos trabalhadeira: faz todo o… Read More »

Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim – Crônica de Rubem Braga

Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo? O leitor que responder “não sei” a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Alias, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá… Read More »

Viúva na praia – Crônica de Rubem Braga

Ivo viu a uva; eu vi a viúva. Ia passando na praia, vi a viúva, a viúva na praia me fascinou. Deitei-me na areia, fiquei a contemplar a viúva. 0 enterro passara sob a minha janela; o morto eu o conhecera vagamente; no café da esquina. a gente se cumprimentava às vezes, murmurando “bom dia”;… Read More »

O Filho de Gabriela – Conto de Lima Barreto

A Antônio Noronha Santos “Chaque progrès, au fond, est un avortement Mais l’échec même sert”. Guyau ABSOLUTAMENTE não pode continuar assim… Já passa… É todo o dia! Arre! – Mas é meu filho, minh’ama. E que tem isso? Os filhos de vocês agora têm tanto luxo. Antigamente, criavam-se à toa; hoje, é um deus-nos-acuda; exigem… Read More »

Quem não quer ser lobo… – Conto de Machado de Assis

I A CARTEIRA PERDIDA Na última noite de carnaval do ano de 1863, houve em um dos hotéis desta boa cidade do Rio de Janeiro uma lauta ceia que durou até ao raiar do dia. Os convivas saíram a pouco e pouco, e foram uns a pé, outros de carro, a caminho do respectivo domicílio.… Read More »