Delicatessen – Hilda Hilst

Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, “tá quentinho, comprei agora”. Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço,… Read More »

Ária amaríssima de um instante – Hilda Hilst

Ária Amaríssima de um instante SOBRE mim o sudário das coisas. Brandura extensa Camada-transparência sobre as gentes. Vê só: Eu não te olho com o teu olho que sabe Que quase tudo em ti é transitório. Meu olho-liquidez Descobre uma tarde esvaída, tarde-madrugada Tempo alongado onde te fizeste em viuvez. Não perdeste a mulher ou… Read More »

Poema V – Hilda Hilst

A Federico García Lorca Companheiro, morto desassombrado, rosácea ensolarada quem senão eu, te cantará primeiro. Quem senão eu pontilhada de chagas, eu que tanto te amei, eu que bebi na tua boca a fúria de umas águas eu, que mastiguei tuas conquistas e que depois chorei porque dizias: “amor de mis entrañas, viva muerte”. Ah!… Read More »

Grávida porém Virgem – Conto de Dalton Trevisan

Na volta da lua-de-mel, Maria em lágrimas confessou à mãe que ainda era virgem. Lembrava dona Sinhara como o noivo se apresentou pálido na igreja, por demais nervoso? Justificou que, filho amoroso, muito se afligia com a mãe doente. No ônibus, a mão suada, e esquecido da noiva, olhava a paisagem. Primeira noite o varão… Read More »

Uma Galinha – Conto de Clarice Lispector

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã. Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.… Read More »

A estrutura da bolha de sabão – Conto de Lygia Fagundes Telles

Era o que ele estudava. “A estrutura, quer dizer a estrutura” – ele repetia e abria a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso, porque uma bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. “A estrutura da bolha de sabão,… Read More »