A arte e a vontade de viver – artigo de Arnaldo Jabor

By | April 23, 2013

Como alguns devem ter notado, tirei férias recentemente e fui correndo para Paris. Essa vida de articulista e comentarista pode envenenar a alma. Além dos processos que tenho enfrentado, minha profissão é prestar atenção nos ‘malfeitos’ políticos, eufemismo do governo para roubalheiras e cinismo. É como trabalhar no Instituto Butantã – um dia a cobra te morde. Por isso, de repente começa a pintar a depressão não apenas pelas coisas que acontecem no País, mas, pior, pelas coisas que ‘não’ acontecem. Vejam nos jornais como as notícias são sobre fracassos: a meta não atingida, a obra inacabada, a lei que não pegou, o assassino que foi solto; em suma, nosso problema principal é a paralisia secular, descrita uma vez por Mario Henrique Simonsen brilhantemente: “O Brasil é um país sob anestesia, mas sem cirurgia”. E a ideologia do partido no Poder é manter essa paralisia em nome do Estado e seus comedores. É deprimente o que o Brasil ‘não’ faz.

Por isso, saí de férias, em busca de beleza e civilização. E fui direto para o Museu Picasso. Na saída, minha mulher Ananda Rubinstein disse, iluminada: “Picasso me dá vontade de viver!” É isso mesmo. Ele não nos faz sonhar com algo que não esteja presente, palpável, vivo. Ele não tinha uma “mensagem” para passar ao mundo ou besteiras assim. Ele pintava a própria mudança, seu viver, seu envelhecer, suas comidas e amores, até os maravilhosos e eróticos quadros de velhos apalhaçados, de mosqueteiros loucos nos últimos meses de seus 92 anos. Picasso pintava a forma das coisas desconhecidas. Peguem um acrobata seu, um beijo na praia, um Minotauro estuprando uma virgem, peguem suas amantes viradas ao avesso e ali só existirão o corpo e suas peripécias. A arte deve ensinar a viver.

Picasso mudou o olho humano. Cézanne já tinha pintado a geometria da natureza, declarando: “Eu sou a consciência da paisagem que se pensa em mim”. Cézanne recortou o espaço e Van Gogh captou o tempo. Olhem um Van Gogh e vejam o tempo passando sobre as coisas. Nada para em Van Gogh: a igreja se move, os lilases ventam, a matéria fervilha em cada pincelada, as cadeiras, as camas, as coisas passam, parece que vemos os átomos girando, os girassóis rodando, vemos a morte passando no rosto do doutor Gachet.

Depois, Picasso chega e pinta os dois: o espaço-tempo. Uma de suas viúvas disse que Picasso não podia ficar com a mão parada. Mexia em tudo: de um peixe comido ele tirava a espinha e fazia uma cerâmica, de um selim de bicicleta ele esculpia uma cara de boi, o regador em um homem, um automóvel em macaco, um beijo na praia em uma fome voraz entre corpos, virava mulher em flor e flor em mulher.

Fez cerca de 36 mil quadros, além de esculturas, tudo. No museu, vemos que ele se recusava a ser “importante”, a ser “metafísico”, de ser um pintor “acima” da vida. Em sua arte, há uma permanente luz até de caricatura. Picasso é um pintor popular. Por isso, as filas se formam para ver seus quadros. Picasso era um rude espanhol, um torcedor de futebol, um comedor de mulheres, um sacana aficionado por touradas e que não queria humilhar ninguém. Picasso era um espantoso retratista da realidade, só que a “realidade” para ele não era essa série de arestas e volumes verossímeis a que estamos acostumados, pousados no horizonte da perspectiva – era transiente e louca. Por outro lado, Picasso nunca acreditou na babaquice do abstracionismo metafísico, que almeja uma “essência” de algo finalmente flagrado, “para longe”, “mais além” da aparência suja do mundo. Os grandes artistas buscam a realidade pois, como disse Woody Allen, “ninguém sabe o que é a realidade, mas ainda é o único lugar onde se come um bom bife”.

Picasso sempre amou justamente essa face “suja” do mundo; sempre viveu em busca da figura, sim, da figura, mas que, para ele, era muito mais complexa que as chatas realidades que o burguês chama de “naturais”. Para ele, nada existia além do olho que, esse sim, pode ser ampliado como um telescópio ou caleidoscópio, se não estiver domesticado por ideologias ou narcisismo de ‘gênios’. Picasso nunca precisou do dada ou do surrealismo para sair “fora” da aparência. Picasso não deformava nada, como costumam dizer – seu olho negro profundo que nos fita sem parar parece dizer: “Eu vejo todos os lados das caras, dos corpos, eu vejo as figuras dentro das outras, eu vejo o espaço entre as pessoas, as linhas invisíveis que as ligam, os vazios dentro delas, eu vejo também o ridículo da beleza como algo “sublime” a se chegar. Não há nada a se atingir, por isso a minha frase “Não procuro; acho” é tão mal interpretada. Ela não quer dizer que eu tenho talento milagreiro ou algo assim. Não. Essa frase quer dizer que eu não sei, antes, para onde estou indo; eu só chego ao quadro ao final. Raramente sei o que farei, a priori; por isso (cá entre nós), não gosto muito de Guernica, feito para criticar a guerra… É legal, mas meio alegórico….

Picasso era um grafiteiro. Não buscava “auras”. Seus quadros são até mal-acabados, nas coxas, como o cotidiano. Não foi por acaso que Jean-Michel Basquiat, o gênio pichador, comprou um Picasso com o primeiro milhão que ganhou. Basquiat também, do fundo do desespero que viveu quando era um mendigo desconhecido, nunca desprezou a vida, com seus quadros espantosos e sofridos. Picasso nunca teve a romântica amarelidão do sofrimento em busca do “sentido” ou do “belo”. Pintava a própria experiência, felicíssimo, de bermudas, comendo, trepando e fumando, nunca acreditou que o “artista só é grande se sofrer”.

Nós não vemos Picasso; ele é que nos vê. Por isso, faz tanto sucesso. Ele nos explica. Picasso sabia que a morte acontece, mas não existe. Só existe a vida. Ele é uma lição de sabedoria para a arte contemporânea, tão caída nas agruras de uma distopia ‘bodeada’ que faz do futuro um cemitério deprimente. Como Picasso mostrou, a “obra de arte deve ser exaltante”, frase de Stravinski que ele provou em sua obra. Saí do museu pensando no PMDB e PT, mas com mais vontade de viver.

 



 

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