A mãe de todas as bombas – artigo de Arnaldo Jabor

By | August 6, 2013

Você está andando pela rua e de repente uma imensa tempestade de luz cai sobre sua cabeça, como o sol despencando do céu. Você não sabe o que é, nem vai saber nunca porque você derreteu como um sorvete em 2 segundos. Fica um lago de seu corpo em volta de seus sapatos, enquanto a cidade inteira vira um deserto fervente, povoado por cadáveres que vagam como zumbis pelas ruas em fogo.

Falo assim para ver se sentimos no corpo o intenso horror do segundo holocausto: as bombas atômicas no Japão.

Há 68 anos, em 6 de agosto de 1945 (hoje), os americanos destruíram Hiroshima.

Enola Gay foi o nome dado ao bombardeiro B-29, que lançou a bomba atômica sobre a cidade japonesa de Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945. Foi pilotado pelo coronel Paul Tibbets Jr., então com 30 anos, comandante do 509.º Grupamento Aéreo dos Estados Unidos, que, desde fevereiro de 1945, se preparava para a missão. A fim de realizá-la, Tibbets escolheu pessoalmente um quadrimotor B-29, batizando-o com o nome Enola Gay em homenagem à sua mãe. “Enola Gay” – esse gesto de carinho filial derreteu no fogo 150 mil pessoas. Essa foi a mãe de todas as bombas, parindo um feto do demônio. Daqui a dois dias, será a vez de Nagasaki.

Todo ano escrevo sobre a bomba nessa data. Escrevo não para condenar um dos maiores crimes da humanidade, mas para lembrar que o impensável pode acontecer a qualquer momento, hoje em dia. A situação no Oriente Médio tende a um conflito entre Irã e Israel, com o corrupto Paquistão atômico ao lado da Índia, também atômica. Sem falar no chiqueiro da Coreia do Norte.

Em Hiroshima e Nagasaki, inaugurou-se a “guerra preventiva” como chamamos hoje.

Enquanto o holocausto dos judeus na Segunda Guerra fecha o século 20, o espetáculo luminoso de Hiroshima prefigura o início da guerra do século 21. O horror se moderniza, mas não acaba. Auschwitz e Treblinka ainda eram “fornos” da Revolução Industrial, eram massacres “fordistas”, mas Hiroshima inventou a guerra tecnológica, virtual, asséptica. O que impressiona na destruição de Hiroshima é a morte “on delivery”, “de pronta entrega”, sem trens de gado humano, morte “clean”, “americana”. A extinção em massa dos japoneses no furacão de fogo fez em 1 minuto o trabalho de meses e meses do nazismo.

Os nazistas matavam em nome do ideal psicótico e “estético” de “reformar” a humanidade para o milênio ariano. As bombas americanas foram lançadas em nome da “Razão”. Na luta pela democracia, rasparam da face da Terra os “japorongas”, seres oblíquos que, como dizia Truman em seu diário:

“São animais cruéis, obstinados, traidores”. Seres inferiores de olhinho puxado podiam ser fritos como “shitakes”…

A bomba A agiu como um detergente, um mata-baratas. A guerra como “limpeza”, o típico viés americano de tudo resolver, rápida e implacavelmente… A bomba americana foi considerada uma “vitória da ciência”.

A destruição de Hiroshima foi “desnecessária” militarmente. O Japão estava de joelhos. Diziam que Hitler estava perto de conseguir a bomba – o que é mentira. Uma das razões reais era que o presidente e os falcões da época queriam testar o brinquedo novo. Truman fala dele como um garoto: “Uau! É o mais fantástico aparelho de destruição jamais inventado! Uau! No teste, fez uma torre de aço de 60 metros virar um sorvete quente!…”.

Os americanos queriam vingar Pearl Harbour, pela surpresa de fogo, exatamente como o ataque japonês três anos antes. Queriam também intimidar a União Soviética, pois começava a Guerra Fria; além, claro, de exibir para o mundo um show “maravilhoso”, a superprodução em cores de um novo poder.

Na época, a bomba explodiu como um alívio e a opinião pública celebrou tontamente. Nesses dias, longe da Ásia e Europa, só havia os papéis brancos caindo na Quinta Avenida, sobre os beijos de amor da vitória. Naquele contexto, não havia conceitos disponíveis para condenar esse crime hediondo. A época estava morta para palavras, na vala comum dos detritos humanistas.

Hoje, já há uma máquina de guerra se programando sozinha e nos preparando para um confronto inevitável no Oriente Médio. Estamos num momento histórico em que já se ouvem os trovões de uma tempestade que virá. Os mecanismos de controle pela “razão”, sensatez, pelas “soft powers” da diplomacia perdem a eficácia. Instala-se um progressivo irracionalismo num “choque de civilizações”; sim, sei do simplismo da análise do Huntington em 93, mas estamos diante do simplismo da realidade, formando uma equação com mil incógnitas impossíveis de solucionar. Como dar conta da alucinação islâmica religiosa com amor à morte, do Paquistão, Índia, Israel, do Irã dominado por ratos nucleares em breve, da invencibilidade dos talebans do Afeganistão, com a hiperdireita de Israel com Bibi, com o Hamas ou o Hezbollah que querem impedir o “perigo da paz”?

Agora, não temos mais a guerra fria; ficamos com a guerra quente do deserto – a mais perigosa combinação: fanatismo religioso e poder atômico. Vivemos dois campos de batalha sem chão; de um lado, a cruzada errada do Ocidente; do outro lado, temos os homens-bomba multiplicados por mil. E eles amam a morte.

“There is a shit-storm coming” – disse Norman Mailer uma vez.

A crença na razão ocidental foi ferida por dois desastres: o 11 de Setembro e a era Bush-Cheney. A caixa de Pandora que Bush abriu nunca mais se fechará.

Sente-se no ar o desejo inconsciente por tragédias que pareçam uma “revelação”. Historicamente, sempre que uma situação fica insolúvel, prosperam as ideias mais irracionais, mais boçais para “resolver” o problema. Mesmo uma catástrofe sangrenta parecerá uma “verdade” nova. Como escreveu Yeats, na Segunda Vinda: “Tudo se desmancha no ar. O centro não segura a imensa anarquia solta sobre o mundo. Os homens melhores não têm convicção; e os piores estão tomados pela intensa paixão do mal”.

 



 

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