A menopausa masculina – conto de Ivan Lessa

By | March 24, 2013

Agora que já se sabe o nome do novo presidente da Rússia e o nome da moça que ganhou o Oscar de coadjuvante feminina, o mundo já pode ir dormir um pouco mais descansado.

Parece também que ninguém tinha dúvida que a cobiçada estatueta iria para o — aliás excelente — ator Kevin Spacey, e seu desempenho em Beleza Americana, filme que, este ano, arrebanhou os prêmios principais.

Não há mais ninguém civilizado que não tenha visto o filme ou, ao menos, saiba do que se trata.

Um americano classe média típico entra em parafuso psicológico bem no meio de sua vida.

Ora, uma notícia nos jornais de ontem — uma das poucas notícias que não era ou sobre Oscar ou sobre eleições na Rússia —, uma notícia, dizia eu, informava a quem quisesse saber que dois médicos do Instituto WellMan, em Londres, depois de exaustivas pesquisas chegaram a conclusão de que — atenção! — a menopausa masculina, existe, sim, senhor, e é bom não botarem banca com ela.

Aí está a ilação “registro científico, desempenho artístico”: a menopausa masculina explica, e eloqüentemente, as ações algo perturbadas do personagem vivido por Spacey em “Beleza Americana”.

Segundo o estudo, a menopausa masculina não é tão súbita quanto a menopausa feminina.

Parece que é mais sinistra. Chega assim como quem não quer nada, de mansinho, e, de repente, cataplum!, acerta o camarada — um quarentão, claro — bem no meio da testa.

Num dia ele está lá dando boa noite para os filhos, lavando o carro aos sábados, no outro, de repente, não mais que de repente, começa a sofrer de calores súbitos no rosto, ter depressão, ficar inquieto, começa a — perdoem-me — não funcionar lá muito direito no departamento sexual.

A notícia é péssima para os homens, claro. E não pode ser mais irritante para as mulheres.

Não só têm elas lá os seus problemas de menopausa quando ainda por cima têm de lidar com o comportamento bizarro dos maridos, que — some-se à lista — começam a querer freqüentar cassino ou boate, comprar carro esporte e, pela primeira vez, examinam seriamente a possibilidade de deixar, de uma vez por todas e para sempre, a mulher e filhos e começar vida nova.

Fazendo arte. No sentido elevado da palavra. Escrevendo um romance, poesia, pintando quadro, por aí.

De qualquer forma, o estudo, a uma certa altura, deixa bem claro: as mulheres que se cuidem, tudo isso pode não passar de simples pretexto do homenzinho supostamente tomado de menopausa — confiem desconfiando, recomendam.

E aí é outra história, outro filme, outro Oscar.













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