A Primavera podre – artigo de Arnaldo Jabor

By | August 20, 2013

Estou no Egito em 1995 – como contei aqui uma vez. Arrasto-me por dentro de um túnel estreito, em direção ao remoto fundo da pirâmide, o túmulo do faraó Quefrem. São 50 metros a percorrer nesse buraco de tatu milenar. Um mendigo rasteja atrás de mim gemendo “batkisk, batkish!” – que quer dizer “esmola”. Sou tomado pelo pânico da morte, mas não tenho volta. Há que se rojar na pedra suja até a cripta do faraó, com o coração disparado, o terror de não ter escape a não ser cair no túmulo do rei, onde a morte se abrigou há 4 mil anos. O mendigo me implorava ajuda até quando chegamos à cripta vazia: “Batkish! Eu e o mendigo me olhando no buraco do fim. Ele rosnava uns lamentos melódicos e eu pensei que fosse enlouquecer, mas fui salvo por uns americanos que saíram bufando do buraco também.

A sensação de insignificância era letal, debaixo de milhões de toneladas de pedras – não havia luz no fim do túnel.

Voltei de quatro para o deserto e minha angústia aumentou quando saí ao sol e vi (juro que é verdade) um pobre cameleiro de camisola suja, usando um boné do Banco do Brasil, que me sorriu: “Brasil? Bebeto e Romário”.

O irreal me tomou de vez; ali, entre camelos, na vertigem de fatos simultâneos, sem continuidade: Bebeto, Romário, Quefrem e a Esfinge me olhando. Senti-me um mendigo, pedindo a esmola de algum Sentido.

Em torno das pirâmides, vi o Egito bem antes do 11 de setembro, antes da internet e redes sociais. Eu vi o Egito como o grande museu de uma paralítica sociedade, as casas do Cairo com o lixo no teto, os gritos dos “muezzins” nas mesquitas, os rostos da miséria, a zona geral do país sem rumo sob a ditadura; eu vi a espantosa civilização de milênios no Vale dos Reis, seis meses antes de um grupo terrorista degolar 60 turistas alemães em frente à casa da faraó-mulher Hatshepsut, onde estive. Poderia ter sido degolado (‘não faria falta’, rosnam meus inimigos).

Eu fui ao templo de Ramsés II em Abu Simbel e vi sua mulher Nefertari num baixo-relevo rendado, que era a própria Naomi Campbell, uma núbia negra deslumbrante e tudo começou a pesar na minha cabeça: a manequim de 4.000 anos, o milênio junto com a modernidade e tudo pesou como uma pedra que cresce e me lembrei do conto de Camus com esse nome, A Pedra Que Cresce, no Brasil, Iguape, onde se passa o relato de um absurdo mistério brasileiro.

Aí, quando eu escrevia esse artigo que lês, caro leitor, me chegou a notícia de que o Mubarak tinha renunciado. E dos milênios a.C. pulei para 2011. Na TV, milhões de pessoas celebravam o feito extraordinário: um povo sem líderes fizera uma revolução sozinho e, sem Lenines ou Guevaras, mudou a história de 6 mil anos – pensei, entusiasmado.

Há muito tempo esperávamos uma boa notícia, alguma imagem de vitória, neste mundo empacado em impasses, na crise financeira na América e Europa, na falta de solução para o terror. E, de repente, essa notícia gloriosa diante de mim. Parecia que a revolta e a luta vieram de dentro dos corpos, insuflados por um grande Ser que vive e respira nas redes sociais. A sociedade não estava mais sozinha; havia para mim e para os otimistas do mundo, um novo link entre os cidadãos.

Mas, como dizem: “Um otimista não passa de um pessimista mal informado”. Eu era um deles. Um amigo francês, vivido e culto, arrefeceu meu entusiasmo com aquele típico muxoxo francês para baixo, aquele rugido triste de descrença: “Pourvu que ça dure…”.

O eterno retorno. O resto vimos nos últimos dias. Depois da previsível tentativa da Irmandade e Mursi de criarem um país islamita, com “sharia” e burka, o Exército interveio com uma brutalidade espantosa. Mata-se sem pena ali; não há indivíduos – só uma massa a ser punida, no interesse do poder. E aí, acabou a ilusão de um final feliz. Não há mais happy end.

Antes, quando o Exército interveio e depôs o Mursi, houve a esperança de que fosse um “golpe militar liberal”.

Mas isso é uma contradição em termos. Isso não existe. Não existe na mente dos muçulmanos a ideia de democracia nem de individuo. Não adianta – vejam o Iraque e o Afeganistão. Eles sempre retornarão à submissão, a Alá e Maomé. No Egito, os militares sempre foram uma elite privilegiada. Os bilhões de dólares que os USA enviavam, eram sua cama de luxo. Por outro lado, a Irmandade Muçulmana metralhou o presidente Sadat diante das câmeras do mundo todo e pariu a Al-Qaeda. A irmandade foi a maternidade dos homens-bomba.

E agora? Somos a favor de milicos massacradores ou de islamitas de uma irmandade pré-medieval, terrorista e maluca?

Duas barbáries se defrontam. O Egito virou a Síria. Como atacá-la se os generais viraram o Assad? Acaba de ser lançada uma nova onda de suicidas jihadistas que, agora, além do ódio aos cães infiéis, terão uma injustiça terrível a vingar. Nada mais estimulante para eles do que o martírio. E não haverá mais eleições, porque o Exército não tolerará a Irmandade concorrendo.

E aí? Os ocidentais estão divididos entre princípios e interesses. Haverá a condenação ao massacre do Exército que assassina o povo ou vão apoiar sutilmente os golpistas para não prejudicar seus interesses estratégicos? O irracionalismo sempre surge nos impasses sem solução. Pois é… já começou.

E vai contaminar todo o “equilíbrio desequilibrado” do Oriente Médio. A Síria deve adorar isso e já expande sua mortalha para o Líbano.

Ninguém sabe o que vai acontecer. Todas as análises são adivinhações.

Ao menos, já sabemos que “democracia” empurrada pela garganta dos países árabes ou a aliança de paz espúria com ditadores vão agonizar e morrer. Mas, mesmo que haja catástrofes políticas, creio que a verdade da tragédia é melhor que a continuação dessa ópera-bufa. Qualquer verdade será bem-vinda, porque é melhor a roda da História girando do que esta época encalacrada em que vivemos.

 



 

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