A Revolução de 30 – crônica de Rubem Braga

By | May 25, 2013

On n’est pás sérieux, quand on a dix-sept ans – disse o Sr. Arthur Rimbaud, que foi um adolescente desvairado. Eu era. Aos dezessete anos eu era um magro e sério estudante de direito que morava junto ao campo de São Bento, atrás de Icaraí, e estudava direito no Catete.

1929 – 30 foi uma das fases mais dolorosas de minha vida; perdi duas pessoas muito queridas e minha saúde foi abalada a um ponto que saí de uma conferência de três ilustres médicos friamente resolvido a dar um tiro na cabeça, no lugar de fazer a operação que eles tinham resolvido. (Procurei um outro médico ao acaso, um profissional sem nenhum cartaz, ele resolveu o caso e vendi com pequeno prejuízo o revolver que já comprara de segunda mão).

Em outubro de 1930 eu devia estar em Cachoeiro, pois as aulas da faculdade estavam suspensas; fiquei no Rio para me tratar. No dia 24 de outubro vim ao médico, na Rua São José. Quando saí do consultório, notei um movimento na Galeria Cruzeiro. Fui para lá: todo o mundo dizia que a Revolução tinha vencido. Custei a acreditar, inclusive porque eu era contra a Aliança Liberal. Um conhecido me convidou para ir até o Palácio Guanabara, onde diziam que o presidente já estava cercado. Preferi ficar vagando pela avenida, que logo se encheu de povo; passavam automóveis abertos com gente de lenço vermelho a dar gritos de viva e morra; não me esquecerei de uma mulher meio gorda, de pernas abertas, sentada no radiador.

Depois de muito vagar, encontrei Leonardo Mota, que passara uma temporada em Cachoeiro. Ele também, se não era contra, não dava mostras de simpatizar com aquela revolução; ficamos a vagar pelo meio da avenida, calados e sérios, no meio da multidão exaltada. Assistimos juntos ao incêndio de O País. Vimos a chegada dos bombeiros, e agente do povo subindo em seus carros para impedir que eles trabalhassem. Cada sujeito que saía da redação já em chamas trazia alguma coisa de lá; vi muitos que traziam um exemplar de um dicionário português ilustrado de capa vermelha, creio que Séguier.

Fomos depois até o Monroe; um colega meu de faculdade, que era “liberal” exaltado, fazia discurso trepado em um daqueles leões; todo o mundo parecia ter prazer em pisar na grama, como se isso fosse o símbolo de todas as liberdades de que o povo iria gozar. Havia uma alegria mais forte do que os gritos de ódio que alguns davam – “matar Romeiro Zander!”, me propunha insistentemente, não sei por quê, um sujeito – uma alegria de que eu não participava, mas que olhava com calma, com uma certa melancolia, como achando que o meu povo tinha ficado doido.

Lembro-me de que era um dia nublado, às vezes caía uma chuvinha fraca, mas fazia calor e eu trouxera uma capa que comprara dias antes – fora a maior temeridade financeira que já praticara – na Casa Inglesa, Rua do Ouvidor. Esqueci-me dessa capa por um instante em um banco da barca da Cantareira, e logo alguém a roubou; quando tomei o ônibus para ir para casa comecei a sentir uma forte dor de dentes.

Na redação do Correio do Sul, em Cachoeiro – eu soube depois – alguns revolucionários mais exaltados foram me procurar aquele dia ara que eu prestasse contas por alguns artigos violentos que escrevera contra a Aliança Liberal…

Depois o Sr. Getúlio Vargas tomou conta do país, todos começaram a ser muito felizes, mas até hoje não devolveram minha capa.

 



 

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