A Tartaruga – Crônica de Rubem Braga

By | April 15, 2014

Moradores de Copacabana, comprai vossos peixes na Peixaria Bolívar, Rua Bolívar, 70, de propriedade do Sr. Francisco Mandarino. Porque eis que ele é um homem de bem.

O caso foi que lhe mandaram uma tartaruga de cerca de cento e cinqüenta quilos, dois metros e (dizem) duzentos anos, a qual ele expôs em sua peixaria durante três dias e não quis vender; e levou até a praia, e a soltou no mar.

Havia um poeta dormindo dentro do comerciante, e ele reverenciou a vida e a liberdade na imagem de uma tartaruga.

Nunca mateis a tartaruga.

Uma vez, na casa de meu pai, nós matamos uma tartaruga. Era uma grande, velha tartaruga-do-mar que um compadre pescador nos mandara para Cachoeiro.

Juntam-se homens para matar uma tartaruga, e ela resiste horas. Cortam-lhe a cabeça, ela continua a bater as nadadeiras. Arrancam-lhe o coração, ele continua a pulsar. A vida entranhada nos seus tecidos com uma teimosia que inspira respeito e medo. Um pedaço de carne cortado, jogado ao chão, treme sozinho, de súbito. Sua agonia é horrível e insistente como um pesadelo.

De repente os homens para e se entreolham, com o vago sentimento de estar cometendo um crime.

Moradores de Copacabana, comprai vossos peixes na Peixaria Bolívar, de Francisco Mandarino, porque nele, em um momento belo de sua vida vulgar, o poeta venceu o comerciante. Porque ele não matou a tartaruga.

3 thoughts on “A Tartaruga – Crônica de Rubem Braga

  1. Emerson Ribeiro

    Gostaria de informações sobre os direitos autorais referente ao texto “A Tartaruga” de Rubem Braga.
    Segue esta referencia:
    BRAGA, R. 1960. A Tartaruga. In: Braga, R. Ai de Ti, Copacabana! Editora do Autor, Rio de Janeiro, Brazil. pp. 175-176.

    Porém, a Editora do Autor não existe mais e caiu para a EBC.

    Vcs poderiam me ajudar?

    Grato.

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