Além da linha vermelha – Artigo de Arnaldo Jabor

By | October 8, 2013

Cresce a paranoia. A Al-Qaeda já domina rebeldes sírios. No Quênia, explodiu o shopping. Surgem ataques espontâneos, individuais, no Ocidente. Nigéria, Somália, Sudão, a polícia da Casa Branca mata uma mulher ao volante. O terror cresce sob os olhos impotentes dos “cães infiéis” – nós.

Os atentados, desde o 11 de setembro, foram parte de um processo que começa com o fim da Segunda Guerra. Foram uma novidade imensa na história: os Estados Unidos nunca tinham sido atacados em casa. Em todas as guerras, eles atuaram de fora. O atentado de Oklahoma foi cometido por um americano. O ataque a Pearl Harbour foi no Havaí. Essa vulnerabilidade foi uma perda de virgindade. Mudou o conceito de poder, o conceito de segurança.

Nem em filme do James Bond alguém pensou nisso. Todo mundo viu a população de Nova York correndo pela rua. Aquilo era o “Godzilla”. De certo modo, a realização de um secreto desejo deles, porque os americanos têm esse “bode” de fazer filme-catástrofe, numa relação de amor-ódio com o próprio país. Nos atentados de hoje, o cinema perde. A realidade é muito mais ficcional. A guerra de nações está acabando. É a guerra da teocracia contra a tecnologia.

Na religião islâmica, a morte é um prêmio. Quando havia degola na Argélia, eles chegavam ao detalhe de decapitar os inimigos com uma faca rombuda, porque quanto mais o cara gritava, mais se enobrecia o degolador perante Alá. O terrorista também quer ascensão social: um fugaz poder com bombas no corpo, sucesso “post-mortem” e subida aos céus, para comer as mil virgens, as “huris”, dançando de odaliscas. É um “hype” no Oriente. A maior ferida americana é que os miseráveis “mendigos”, ignorantes, barbados e imundos chegaram a um nível de competência e imaginação “midiática” com que nunca Hollywood sonhou. O grande orgulho americano da eficiência foi perdido para “macacos suicidas”.

A partir daí, todo mundo virou cientista político. Surgiram multidões de analistas de bom senso tentando fazer a tragédia absurda caber num discurso coerente, racional (inclusive eu…). Mas o terror não cabe na razão. Os conceitos operacionais para entender o que está havendo são insuficientes. Osama quebrou o discurso racional. Todos os nossos gestos, palavras, bravatas vêm de um arquivo morto, de um repertório que ficou subitamente antigo. Foram atingidos: o ateísmo, o iluminismo, a arquitetura, a paz burguesa, o turismo, a sensação de invulnerabilidade, o consumo. Os comentários buscam uma restauração do senso comum e são a nostalgia pela volta do bem-estar, do sossego. Enquanto estamos nervosos, o que apavora é que todos os terroristas afegãos, talibãs, fanáticos em geral têm um rosto calmo, o olhar iluminado de certezas, a tranquilidade da loucura. Os jihadistas xiitas ou sunitas não têm as angústias da liberdade nem do progresso. Não querem ser modernos; querem ser eternos. Os talibãs vivem na eternidade. Finalmente, a globalização criou uma democratização da desgraça. De uma forma repugnante, a verdade do mundo apareceu. Quem ganha? Ninguém. Esta guerra sem rosto nunca terá derrota ou vitória. Nietzsche escreveu: “Ao combater uma monstruosidade, temos de ter cuidado para não virarmos monstros”. Ou já viramos ou vamos virar. A beleza do “homem revoltado” morreu e pode estar pintando um grande tempo de conformismo deprimido. Ficaremos mais minimalistas, afirmando singularidades. Como disse Baudrillard: “O universal acabou; só resta o singular contra o mundial”.

Mudou a ideia de “finalidade”, de “projeto”, o doce aroma do sucesso a qualquer preço, o “happy end”, o princípio, o meio e o fim, a vontade de esquecer a morte, que não mais estará num leito burguês com extrema-unção e família chorando, a morte será um cachorro pelas ruas, atacando de repente. Mudou a busca de plenitude, a realização de todos os desejos, sobe a fé, caem a esperança e a caridade, muda o sonho de “solução”. Mudou a ideia de “futuro redentor” – será o fim do “Fim da História”. Mudou o ideal detergente de um mundo branco, asséptico, sem fraturas, higiênico, a harmonia doce do lar, a decoração de interiores, a alvura dos lençóis, os pecados veniais, as deliciosas perversões irresponsáveis e indolores, pois as coisas vão doer mais. As coisas estão mais graves, as crises mais profundas, mas a superficialidade vai aumentar. Acabou a oportunista e enobrecedora contemplação caridosa da miséria, que chegou violenta, nas asas da estupidez religiosa. Cada vez mais, aumentam o charme arrogante dos ricos e famosos, a tecnologia sem Deus, as lágrimas mentirosas, a busca da perfeição física, do corpo sem órgãos, do orgasmo total. Acabou o mito de James Bond, que criou o ideal de eu dos “baby boomers”, seus ternos impecáveis, o sexo sem envolvimento, as mil mulheres comidas, a licença para matar, o amor sem risco. Ninguém sabe o que fazer da arte, da beleza, até mesmo da elegantíssima vivência do desespero crítico, acabam o mal-estar abstrato, a náusea romântica, a infelicidade vaga, a delícia das grandes dores de amor, o difuso sentimento ocidental de superioridade, a aparente tolerância e a falsa generosidade, acaba a fleuma, a displicência chique ou mesmo a deliciosa sensação da canalhice.

Acaba o drama e volta a tragédia; perdeu sentido até o “absurdo” como literatura, o surrealismo virou piada naturalista e apareceu o novo indivíduo esfacelado por bombas, coberto de pizzas sangrentas. Acaba o “outro” como figura existencial-virtual, pois surgiu o horrendo “outro”, sujo e mortífero, suicidando-se às gargalhadas; volta a marcha a ré para o ano 1000, acaba a esperança de achar Deus entre as galáxias, pois Deus já está entre nós armado até os dentes. O Islã está nos expondo ao ridículo. A maior potência do mundo lutando contra os Flintstones.

Fonte: Estadão

 



 

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