As Barbas de Romualdo – conto que não é conto de Artur Azevedo

By | March 19, 2013

O Romualdo tinha nascido, talvez, para os mais altos destinos; mas como os pais se esqueceram de mandar educá-lo, e ele mal sabia ler e escrever, o mais que arranjou foi ser soldado do exército, e, depois de obtida a sua baixa, contínuo de secretaria.

Releva dizer que o Romualdo só deixou crescer as barbas depois de contínuo; se as usasse quando era soldado e guerreava no Paraguai, chegaria a capitão pelo menos.

Mas que contínuo! Alto, gordo, ereto, com aquelas opulentas suíças brancas a emoldurar-lhe a cara, sem bigodes, mais parecia um magistrado, cuja figura estava ao pintar para presidir a um júri sensacional, e essa ilusão só se desfazia quando ele falava, porque o Romualdo, benza-o Deus! por mais que compusesse a sua fisionomia austera e veneranda, tinha o estilo e a prosápia do “povo da lira”. Calado era um juiz; falando, um capadócio.

Os praticantes amanuenses e mais funcionários do chefe de secção para baixo envergonhavam-se de o chamar a toque de campainha, que naquele tempo as campainhas burocráticas ainda não eram elétricas. As de hoje são menos humilhantes, não sei se devido à. eletricidade, se à ausência do badalo. O badalo foi sempre impertinente e autoritário.

Era, em verdade, pelo menos desagradável para um funcionário rapazola ver diante da sua mesa de trabalho aquele homem solene, a dizer-lhe, por exemplo: — Leve este ofício à portaria.

O Romualdo não ignorava o respeito que infundia ao pessoal da repartição, e abusava da respeitabilidade das suas barbas. Muitas vezes estava sentado no saguão da secretaria, de óculos, entretido a ler o seu jornal, quando o retintim de uma campainha tímida lhe entrava pelos ouvidos, chamando-o à realidade da sua situação de subalterno.

Era o mesmo que se não tivesse ouvido. Quando o som argentino retinia pela terceira vez, ele murmurava sem interromper a leitura e não tão baixo que o não ouvissem: — Pois sim!…toca p’r’aí!…súcia de vadios!…não têm mais que fazer senão dar ao badalo!…

— Tlin! tlin! tlin!…

— Toca, toca, meu menino!…estou bem aqui!…

Afinal, abria-se um reposteiro, para deixar passar a cabeça do funcionário incipiente…e impaciente:

— Então, seu Romualdo? Há uma hora que estou a tocar!

O contínuo erguia a cabeça, tirava os óculos, guardava-os na algibeira, dobrava com lentidão o jornal, erguia-se majestosamente, e perguntava do alto das suas barbas:

— Que temos?

Nem uma palavra de desculpa, nem a sombra de uma explicação!

O amanuense não se atrevia a protestar: intimidava-o aquele aspecto de pessoa grada ou cidadão conspícuo.

Em casa, depois que deixara crescer as suíças, o Romualdo poderia dizer-se oráculo. A mulher e os filhos admiravam-no; os parentes diziam todos à uma que era clamoroso estar ali um simples contínuo, quando tinha capacidade para dirigir uma repartição de primeira ordem.

Nos penates ele falava pelas tripas do Judas, discorrendo sobre todos os assuntos sociais ou políticos, e dando sobre cada um a sua opinião individual. Nessas ocasiões só dizia parvoices, mas a família ouvia-o embevecida e assombrada diante de tanto saber. Era um efeito das barbas.

Nas ruas, o Romualdo era cumprimentado por muita gente que o não conhecia, porque a sua figura solicitava a consideração e o respeito dos estranhos. Alguns, depois de passar por ele, olhavam para traz e perguntavam a si mesmos: Quem será aquele figurão?

Quando o deputado foi nomeado ministro e pela primeira vez entrou na secretaria, impressionaram-no aquelas barbas, e indagou a quem pertenciam. Quando lhe responderam que o Romualdo era um simples contínuo, imediatamente ordenou que ele fosse servir no gabinete. Achou-o decorativo.

Ao lado do ministro, o Romualdo, sem que para isso concorresse outra coisa mais que não fosse a exibição das suas barbas, captou a confiança e até certo ponto, a familiaridade de s. ex., e isso o tornou ainda mais solene e majestático.

Quando ficava trabalhando em casa, sem aparecer na repartição, o ministro queria o contínuo perto de si, pronto para receber, introduzir ou mandar embora os visitantes, ou levar à secretaria, rapidamente, qualquer ordem de s. ex. Naquele tempo ainda não havia telefone.

No anunciar visitas e dar recados, o nosso homem, que era positivamente um mau contínuo, revelou qualidades excepcionais, e de uma vez até pôs as suas gloriosas suíças ao serviço da boa harmonia administrativa.

O caso conto como o caso foi.

O ministro andava, não sei porque, às turras com o diretor da Estrada de Ferro, e já o teria demitido, ou por outra apresentado em conselho o respectivo decreto, se não soubesse que o homem era protegido pelo imperador, e ele, ministro, não fosse tão agarrado à pasta.

Um dia o alto funcionário precisou falar ao ministro sobre matéria urgente de serviço, e, não o achando na secretaria, foi ter à sua casa.

Encontrou na ante-sala as barbas do Romualdo, que cochilava sentado numa cadeira.

— O ministro está?

— Está, sim, senhor.

— Vá dizer a esse idiota que o diretor da Estrada de Ferro precisa falar-lhe com urgência.

O Romualdo, que já se havia erguido, inclinou-se, penetrou no gabinete do ministro, e disse-lhe:

— Está aí o sr. diretor da Estrada de Ferro que pede a v. ex. o obséquio de lhe conceder alguns minutos de atenção para assunto urgente.

O ministro, sem levantar os olhos do seu trabalho, respondeu:

— Diga a essa besta que não estou para o aturar, e que não me amole!

O Romualdo inclinou-se, saiu, e veio dizer ao funcionário:

— O sr. conselheiro manda pedir a v. ex. o obséquio de procurá-lo noutra ocasião, porque neste momento está muito ocupado, e sente não poder prestar a v. ex. toda a atenção que v. ex. merece.

O diretor da Estrada de Ferro saiu arrebatadamente, gritando:

— Pois diga—lhe que vá para o diabo que o carregue!

O Romualdo voltou ao gabinete, e assim falou :

— O sr. diretor da Estrada de Ferro manda agradecer a bondade com que v. ex. o tratou, e diz que mais tarde procurará v. ex. na secretaria.

Com aquelas suíças, quem poderia supor que o Romualdo mentisse?

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