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Jan 03

Ser Gagá – Crônica de Millôr Fernandes

Ser Gagá não é viver apenas nos idos do passado: é muito mais! É saber que todos os amigos já morreram e os que teimam em viver, são entrevados. É sorrir, interminavelmente, não por necessidade interior, mas porque a boca não fecha ou a dentadura é maior do que a arcada. Ser Gagá é ficar …

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Nov 27

Três amigos – Conto de Machado de Assis

Eram duas horas da tarde de um dia de junho, dia de magnífico inverno, nem frio, nem chuva, nem sol. Nem sol, é maneira de dizer; o astro-rei dominava o céu com todo o esplendor dos seus raios; mas os raios eram temperados e brandos. Não era certamente um sol para aquecer lagartixas, mas não …

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Nov 27

O califa de platina – Conto de Machado de Assis

O califa Schacabac era muito estimado de seus súditos, não só pelas virtudes que o adornavam, como pelos talentos que faziam dele um dos varões mais capazes de Platina. Os benefícios de seu califado, aliás curto, eram já grandes. Ele iniciara e fundara a política de conciliação entre as facções do Estado, animava as artes …

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Nov 08

Certificado de velhice – Conto de Ivan Lessa

Se no Reino Unido você disser CV, todo mundo sabe que está se referindo ao seu “curriculum vitae”, ou seja, sua folha corrida em matéria de trabalho. Mas há outro CV, com mais folha e mais corrido. É o CV de Certificado de Velhice. CV que também podem ser as iniciais de Carteira de Velhinho. …

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Oct 21

Arroba pontinho com – Conto de Ivan Lessa

Neste domingo, como era primavera em Londres, choveu, ventou e fez frio. Por isso, fiquei em casa. Vendo jogo de futebol na televisão, vendo documentário sobre arte na televisão, vendo Arquivos Secretos na televisão. Como puderam notar, eu tenho televisão em casa. Televisão a cabo, vídeo, controle remoto, tudo que a tecnologia pertinente me dá …

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Oct 13

Família é uma merda – Conto de Rubem Fonseca

Tenho uma saúde de ferro, mas andava sentindo umas dores de cabeça e fui à farmácia comprar aspirina. Foi assim que conheci Genoveva. Ela me perguntou para que eu queria aspirina. “Para dor de cabeça”. “Aspirina ataca o estômago”. Se ela trabalhava numa farmácia devia saber o que estava dizendo. “Então eu tomo o quê?” …

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Oct 13

Livro de Ocorrências – Conto de Rubem Fonseca

1. Investigador Miro trouxe a mulher à minha presença. Foi o marido, disse Miro, desinteressado. Naquela delegacia de subúrbio era comum briga de marido e mulher. Ela estava com dois dentes partidos na frente, os lábios feridos, o rosto inchado. Marcas nos braços e no pescoço. Foi o seu marido que fez isso?, perguntei. Não …

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Oct 13

O Vendedor de Seguros – Conto de Rubem Fonseca

Renata, de vestido novo, ficou de lado na frente do espelho, virou o pescoço para ver o traseiro, era um espelho grande que dava para ela ver o corpo por inteiro. Quando coloquei meu paletó, nem sei como me notou, quando olhava para o espelho ela não via mais nada, perguntou você vai sair a …

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Oct 02

Onde estão os Natais de antanho? – Conto de Dalton Trevisan

Insinua-se pela cortina de veludo vermelho — úmida e pegajosa —, afasta a mão com nojo: filho bastardo do rei Midas, tudo o que toca se desfaz em podridão. No rosto o bafo quente da sala; entre casal suspeito e velho pervertido e o seu abrigo. Senta-se na última fila, os pés sobre cascas de …

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Oct 02

Dois velhinhos – Dalton Trevisan

Dois pobres inválidos, bem velhinhos, esquecidos numa cela de asilo. Ao lado da janela, retorcendo os aleijões e esticando a cabeça, apenas um podia olhar lá fora. Junto à porta, no fundo da cama, o outro espiava a parede úmida, o crucifixo negro, as moscas no fio de luz. Com inveja, perguntava o que acontecia. …

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