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Aug 14

Na mira – Conto de Emerson Silva

Sei que virarei foto. Não tenho nenhuma dúvida disso. No máximo alguma dedicatória, de um filho ou sobrinho, bordando sintaticamente a imagem de alguém que não existe mais. A escrita ao vazio confere-se de uma natureza bastante decorosa, “em memória”, “saudades eternas”, epítetos sofisticados como reza as homenagens. Irrevogavelmente, esse peito que versou quase todas …

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Aug 05

A Moça que Mostrava a Coxa – Poema de Carlos Drummond de Andrade

A moça mostrava a coxa, a moça mostrava a nádega, só não mostrava aquilo – concha, berilo, esmeralda – que se entreabre, quatrifólio, e encerrra o gozo mais lauto, aquela zona hiperbórea, misto de mel e de asfalto, porta hermética nos gonzos de zonzos sentidos presos, ara sem sangue de ofícios, a moça não me …

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Aug 04

Furto de flor – Crônica de Carlos Drummond de Andrade

Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor. Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida. Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor …

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Jul 30

Vênus! Divina Vênus! – Conto de Machado de Assis

— Vênus! Vênus! divina Vênus! E despegando os olhos da parede, onde estava uma cópia pequenina da Vênus de Milo, Ricardo arremeteu contra o papel e arrancou de si dois versos para completar uma quadra começada às sete horas da manhã. Eram sete e meia; a xícara de café, que a mãe lhe trouxera antes …

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Jul 28

Porto Solidão – Conto de Emerson Silva

Era dentro da tigela de biscoitos de Tia Nina que eu experenciava um êxtase desmedido. O que os meus sete anos de idade diziam sobre mim, parecia estar submerso naquelas rosquinhas amanteigadas, entremeadas em queijo do Reino. Era tempo em pausa, riso em pauta, adições de natureza. Menino oriundo dos interiores do mundo vivia sob …

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Jul 26

De olhos fechados – Conto de Emerson Silva

De fronte a enfermaria meus olhos permanecem fitos no seu Robervaldo Pereira Magalhães. Agora na cadeira de rodas, ele faz questão de me comover com lembranças, responsáveis por estruturar aquilo que pode ser reservado dentro de mim como “humano”. De seus lábios não sai uma palavra se quer. Não por causa de seu bigode crescido …

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Jul 10

A Barganha – Conto de Lima Barreto

E o “turco”, desde muito cedo, andava pelos subúrbios a mercar aqueles coloridos registros de santos. Havia um são João Batista, com a sua tanga, o seu bordão de pastor e o seu inocente carneiro que olhava doce tudo o que via fora da estampa; havia um Cristo com o coração muito rubro à mostra, …

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May 31

A raposa e o corvo – Fábula de Monteiro Lobato

Um corvo que passeava pelo campo, apanhou um pedaço de queijo que estava no chão e fugiu, acabando por pousar sobre uma árvore. A raposa observando-o de longe sentiu uma enorme inveja e desejou de todo, comer-lhe o queijo. Assim pós-se ao pé da árvore e disse: Por certo que és formoso, e gentil-homem, e …

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May 11

Alandelão de La Patrie – Crônica de João Ubaldo Ribeiro

Não entendo aquele que aprecia o boi. Aqui se criava antigamente muito guzerá, que para mim tem a cara de ordinário, mentiroso, criminoso e cínico. Inclusive, a maioria possui olheiras, mostrando que são perversos devassos de pouca confiança. O sujeito que já se viu no pasto, ou mesmo no cercado, na companhia de um guzerá, …

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May 11

Lépida e leve – Poema de Gilka Machado

Lépida e leve em teu labor que, de expressões à míngua, O verso não descreve… Lépida e leve, guardas, ó língua, em seu labor, gostos de afagos de sabor. És tão mansa e macia, que teu nome a ti mesmo acaricia, que teu nome por ti roça, flexuosamente, como rítmica serpente, e se faz menos …

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