Bagatela – conto de Machado de Assis

By | March 18, 2013

I

Um dia do mês de maio de 1842, numa das últimas janelas de uma casa, que forma a esquina da rua Hautefeuille e da rua Serpente, estava encostado um moço pensativo e melancólico.

Era — para usar da expressão da Torre de Nesle — uma bela cabeça que mais de uma rapariga teria visto passar em seus sonhos. Não uma bela cabeça, à maneira dos keepsakes mas a pálida e inteligente fisionomia que se encontra muitas vezes nas obras de Lemud e em seu mestre Volfrand, além de outras; bem o sabeis, leitor, este ouvinte atraente e grave do primeiro plano.

Percebia-se a vida da alma através do invólucro do corpo; e depois de contemplar aquele rosto que revelava o trabalho interior, não podia haver engano, e era força exclamar: — É um artista ou um poeta.

Henrique d’Auberseint era com efeito uma e outra coisa. Poeta, ele o era, como todas as criaturas felizmente dotadas e maravilhosamente organizadas para o sofrimento. Porquanto a alma do homem inteligente, o coração do poeta, do artista ou do filósofo, é um alaúde que vibra harmonioso e sonoro ao sopro de todas as paixões humanas, grandes, fortes e belas.

Henrique era, pois, poeta. Mas sobretudo era artista. Há nos cais, nas exposições de amostras de certos comerciantes, essas fitas que não estão seladas com um nome, mas que são obras-primas. Uma obra-prima, assinada com um nome obscuro, será acaso uma obra-prima? Obscuro — quanto nos temos votado a este rude trabalho, orvalhado de suor do sangue, que se chama vida de artista — obscuro quer dizer pobre. Henrique era pobre. Ah! Implacável e madrasta natureza, bem faz aquele que te morde no seio para forçar-te a alimentá-la! É andar — há de ser sempre feliz…

Henrique foi perturbado em seu cismar por um rumor de passos precipitados que se fez ouvir na escada. A porta da mansarda abriu-se bruscamente e entrou uma mulher.

— Bagatela! — exclamou o artista levantando-se e indo ao seu encontro.

— Onde está ele? — pronunciou ela com uma voz entrecortada pela fadiga, tomando a mão do mancebo e voltando para ele seus olhos obscurecidos pelas lágrimas.

Henrique não compreendeu ao princípio esta pergunta proferida de envolta com um soluço aos seus ouvidos inquietos, e durante alguns minutos ele contemplou Bagatela com admiração.

O semblante da moça radiava neste momento com uma beleza sobrenatural que não lhe era comum talvez. As grandes dores desfiguram, assim como as grandes alegrias.

Ela era bela, como uma bela virgem — com a elegância de maneiras e fineza de trato de uma parisiense. Era bela, muito bela!

— Mas o que acontece? pergunta Henrique com uma ansiedade, que crescia de minuto em minuto.

— Mas desapareceu! Há dois dias que não se tem notícias dele! — respondeu Bagatela com um ar sombrio. E se meus pressentimentos não se enganam, — ajuntou ela com um novo soluço e novas lágrimas — morreu!

Henrique soltou um grito.

— Tomai, — continuou a moça apresentando-lhe uma carta — lede depressa… eu vo-lo conjuro… Lede depressa… Acabam de ma entregar e é para vós… Reconheci a letra do nosso amigo… Estive a ponto de abri-la… Vede… Lede, Henrique, lede em nome do céu!

Henrique, trêmulo, com os olhos perturbados, abriu convulsivamente a carta que a moça lhe apresentara, e leu o que segue:

É um morto que te escreve, meu caro Henrique, um verdadeiro morto, com a tinta negra do Estígio lago, e com uma pena arrancada à asa de uma qualquer ave noturna ou maligna, vampiro ou o que quiseres.

Não grites, não lamentes, não chores. As lamentações ensurdecem, e as lágrimas, vês-tu, são uma parvoíce… O fato está já consumado, e não é mais possível uma volta:

— Quem volta de tão longe?…

Faço-te a minha derradeira confissão, com certos conselhos e certas recomendações, que te peço tenhas sempre em vista.

Tive uma mãe, como qualquer porteiro, mas, conquanto saibamos sempre que procedemos de alguém — segundo a opinião de Brid’oison, estou, todavia, embaraçadíssimo quanto a afirmar de quem sou filho. É imoral, mas é verdade. Quanto ao meu nome — nada sei de legal — pela ausência de qualquer declaração de meus autores nos registros da municipalidade. Mas eu tenho um, fantasiado, todo ao acaso, entre os nomes calendários: é — Máximo — nem mais, nem menos.

Máximo — fui criado; Máximo — cresci; Máximo — vou desta para a outra vida. Tu sabes, além disso, que entre a rapaziada chamava-me Max, por enquanto a vida é tão curta… e inútil é alongá-la com três letras realmente inúteis.

Isto, quanto ao meu nascimento e quanto ao meu passado — um pouco semelhante às origens do Nilo. Não sabendo donde vinha, compreendes bem que eu nunca saberia onde ia. Um bastão tem sempre duas pontas; — um começo e um fim. Por muito tempo embalei-me na esperança de ter um fim e assemelhar-me, ao menos por aqui a um bastão. Eu acreditaria de boa vontade na eternidade das rosas, mas sempre me repugnou acreditar na eternidade da eternidade…

Se eu não conheci os meus autores — em desforra conheci a vida — triste conhecimento, entre parênteses. Tiveste muita vez um espécimen de meu caráter fantástico e razoável. Eu era ao mesmo tempo o mais jovial rapaz, e o mais aborrecido indivíduo que se possa imaginar. Pamérgio forrado de Trenmor. Muitas vezes me levantava com projetos fantásticos que, postos em execução teriam feito arrebentar de riso a venerável estátua do Hospital. Muitas vezes entrava para casa com o semblante pálido, enrugado — e envelhecido horrivelmente. Lançava-me à cama, enchia de fumo o cachimbo, fumava-o e atirava-o pela janela com uma raiva surda — sem respeito à sua cor poética de bistre. Nesses dias eu seria capaz de devorar um policial — com as bandeirolas, mas sem as botas, entretanto.

Não repares nos arabescos do meu estilo; estes gracejos são um vestido de arlequim — o coração palpita embaixo. Hoje, ao escrever-te, sinto-me disposto a rir e rio-me. Vale isso mais, acredita-me, do que atirar poeira ao céu, como os Gracos. É meia-noite, acabo de encontrar alguns frangos éticos, fugindo de mim nas ruelas sombrias da Cité. Deu-me isso uma alegria! Por quê? Ah! sim, porque! sempre este ponto de interrogação!

Abro-te a porta da alcova dos meus sentimentos; não é a primeira vez, mas a última. Passava uma vida de tédio neste planeta, e além disso tenho um instinto viajor que me impelia sempre para as estepes infinitas do incógnito. Corro para lá, em teus braços, grande X., corro para lá, abre-os bastante!…

Estou, pois, a esta hora em marcha para a famosa viagem ao campo de que falam alguns. O abade de Saint-Pierre. Eu mesmo me forneci um passaporte inglês de Wester; não encontro, embora, alfândegas nas fronteiras da vida!… Meti audaciosamente a mão na urna do destino — e antes da minha hora — subtraí — o meu número… Eis tudo!

Agora falemos um pouco de ti — e dela, dela! dela!… Prometi-te um conselho, vou dar-to. Tu tens talento, Henrique, um grande talento: confirma-o perante a multidão, ela não achará dificuldades em acreditá-lo. Foste talhado por um Deus de Homero; em três passos atingirás ao termo, mas é preciso dar o primeiro; mãos à obra, os outros dois é apenas uma pernada.

Isto quanto ao conselho. Agora aos legados. Faço-te meu herdeiro universal. Tudo o que existe em minha oficina é teu. Sabes o que valem as telas de um artista morto? As minhas te ajudarão a viver. Vende-as!

Leva à Bagatela aquela pintura que eu fiz ligeiramente um dia em sua casa… Mostra-lhe esta carta, consola-a, ama-a, protege-a; responder-me-ás por ela.

Bagatela é a escolhida de meu coração… Um dia, em que ela estava triste e eu alegre, dei-lhe este nome de Bagatela que prevaleceu sobre o seu de — Gabriela. Peço-lhe que o conserve, é minha vontade; fui eu que lho deu! Tu e ela foram para mim o mundo. Ela era o amor — tu, eras a amizade. Por que me não bastavam estas duas felicidades? Por quê? ainda este maldito ponto de interrogação…

Assim, chego à recomendação que te queria fazer: — é grave, é um morto que ta faz, Henrique. Cumpre obedecer religiosamente. Que Bagatela seja tua irmã, Henrique; sê o seu protetor, seu amigo, seu pai — mas, nada mais. Pensai em mim algumas vezes e entretanto sede ambos fiéis à minha memória

Dixi — Adeus, Henrique, adeus, Bagatela, adeus …

Máximo — vulgo o Velho!

“Todo como o velho Palma !…”

II

— Morto! — murmurou Auberseint com uma voz sombria. — Morto sem me ter apertado a mão!

— Morto! repetiu por sua vez a moça — meus pressentimentos não me enganaram… Meu Deus! Meu Deus!…

Pronunciando estas palavras, vacilaram-lhe os joelhos; a trepidação compulsiva de seu corpo tornou-se mesmo tão violenta que se Henrique não a tivesse retido nos braços ela rolaria pelo chão.

— Gabriela! Gabriela! — gritou Henrique com um desespero cheio de solicitude.

— Ah! Max! querido Max! — soluçou Bagatela — Max por que nos deixas assim?

— Como ela o ama! — murmurou Henrique — Feliz morto!

— Ah! Henrique — tornou Bagatela — não sabeis o que perco eu na morte dele! aquele nobre espírito, com o nobre coração… Eu lhe devia tanto, que nem todos os amores, e adorações bastariam para pagar-lhe!… Não o sabíeis, Henrique, pois que a sua delicadeza com semelhante confissão teria sofrido. — Ele levantou-me da calçada em que eu estava na rua, uma noite de inverno, eu tiritava de frio, tinha fome, e minha mãe acabava de morrer… Nossa história, a minha e de minha mãe — não vo-la contarei… é banal como a miséria, simples como a dor!… Eu estava pois na rua — exposta ao vento e à neve, desfalecida, semimorta e quase louca!… Máximo passou. Quando ele viu as lágrimas que corriam pelas minhas faces azuladas pelo frio, quando ele viu a minha miséria e o meu desespero, levou-me para a sua casa de artista, deu-me a chave dela, e pelo espaço de três meses, foi para comigo respeitoso, benfeitor e dedicado. Procurou-me trabalho… Enfim, uma manhã bateu à minha porta — “Minha menina — me disse ele com tristeza — é preciso que nos separemos… Tenho uma má reputação, ao que parece, e é mister que a vossa não sofra. Não deveis desmerecer aos olhos das pessoas de bem… Aluguei para vós, em vosso nome, na rua do Oeste, uma pequena habitação — donde se descortinam os jardins de Luxemburgo e onde eu vos pedirei como um favor — a permissão de ir algumas vezes, como amigo…”

— “Oh! sempre, senhor Máximo! sempre quando quiser… Eu não sou senão o que me fizeste: uma costureira modesta e feliz por viver do produto de seu trabalho… Esta ventura.., eu vo-la devo… Deus vos abençoe por isso!”

— Eis aqui o que eu respondi a Max com as lágrimas nos olhos, ajuntou Bagatela.

— Bem sabeis, Henrique, como foi nobre e desinteressada a conduta do nosso amigo… Eu o amava — nunca lho disse… mas dir-lho-ia um dia se ele esperasse um pouco… Acreditou talvez na minha frieza, na minha indiferença, e contudo Deus sabe com que gratidão eu aceitaria a oferta de seu coração e de seu nome!

Bagatela calou-se. Era grande a sua emoção na evocação destas recordações.

Com efeito, ela amara tão ingenuamente Max! como Gretchen ela fizera tanto por ele — que ele já nada lhe tinha a fazer… Porém Max tinha cousas singulares no cérebro… amava profundamente Bagatela… cercara-a sempre de cuidados delicados de atenções ternas, mas sempre de mistura com uma espécie de respeito. Ela era para ele mais que uma irmã e menos que uma amante. Quando trabalhava, entre ela e Henrique, ele lhe lançava de vez em quando um olhar paternal e amoroso ao mesmo tempo, e murmurava depois: “Há de ser minha mulher!”

— Oh! Max! Max! murmurou de novo Bagatela.

— Ah! feliz morto! — murmurou de novo Henrique.

Na tarde desse dia, o jornal — O Mensageiro — publicou estas linhas: — “Acabamos de saber da desaparição de Mr. Máximo — vulgo o Velho — Mr. Máximo tinha há algum tempo acessos de febre ardente e tudo faz crer que em um desses momentos pôs fim aos seus dias… É uma perda imensa para a arte de que Mr. Máximo era um digno representante… Cumpre registrar a sua morte no martirológio dos grandes pintores — que o desespero, uma paixão continuada ou qualquer outra cousa levaram ao suicídio… Depois de David, morto longe da Pátria, depois de Gros — agonizando no Sena, depois de Leopoldo Roberto, que se degolou em Veneza — depois de Gericault Sigalon, citamos o fim doloroso de Mr. Máximo!

É assim que se escreve a História!”

Alguns meses se passaram e — é mister confessá-lo para vergonha eterna deste pedaço de caoutchouc (borracha) que se chama coração humano — e cada dia levava consigo uma porção do amor e da amizade que Henrique e Bagatela votavam a esse pobre Max, morte sem dúvida, para os fazer felizes.

Toda a dor desaparece com o tempo por mais profunda que seja… cedo os pesares deixam de manchar o estofo cambiante da existência… Nem custa a desembaraçar a alma das recordações, que ligam ainda os vivos aos mortos… Assim, vai o mundo! Ontem, dor que parecia ser eterna, — sim, eterna como a aurora; hoje, esquecimento total das criaturas extintas, e cuja presença, além disso, seria importuna! E, realmente, os mortos são bem maçantes personagens em exigir uma memória sua sobre a terra. Para quê?

Todavia, não nos devemos apressar em deitar a primeira pedra da exprobração a essas duas pobres crianças. Max não estava totalmente morto na memória e no coração de Bagatela e de Henrique. Este último, sobretudo, quase às portas da miséria, apesar da herança que lhe deixara seu amigo, parecia acabrunhado por um remorso secreto de resto, bem fraco pela idéia de que Bagatela não partilhava seu criminoso amor. Primeiro que tudo, por uma dessas delicadezas do coração, que os amantes hão de compreender — tinha perdido o hábito de pronunciar esse nome de Bagatela sob o qual Max amara a mulher que ele amava também, posto que sem esperança. Em segundo lugar perdera ele também o hábito de se dirigir para o lado da casa de Bagatela.

Esta, por seu turno, não ousara queixar-se deste apartamento, mas lastimava-o porque o viu sofrer, e as mulheres que têm uma missão sobre a terra de mansidão, de comiseração, de afetuosidade, nunca faltam a ela. Bagatela sabia que Henrique era pobre e orgulhoso, e atribuía à sua miséria, que ele quisera suavizar, a dureza e grosseria que mostrava. Somente de vez em quando afligia-se a pobre moça com seu silêncio tenebroso, quando o interrogava delicada e amigavelmente sobre as causas dessa dor que o minava surdamente… Henrique não podia confessar-lhe que era o seu amor por ela a causa única de seus tormentos e de seus combates de cada dia. Não ousava confessar-lho receando chamar sobre si sua cólera e desprezo… Belas, completas, e ingênuas eram aquelas naturezas! Como Henrique se assemelhava a esses D. Juans que inundam os salões e os bastidores, e que imaginam como Hans Svederlick, que não há honra nem favor que não possam colher, querendo para eles, “toda a galante flor!” Pobre namorado! pobre poeta! pobre artista!

Compreendendo, enfim, que aquele amor o mataria, Henrique resolveu um dia matar-se e acabar com um golpe suas irresoluções e sofrimentos. Mas, ele não queria morrer na rua para ser transportado e exposto figura hedionda — sobre as hediondas tábuas da Morgue! Não!… a morte na sua pequena mansarda, ao pé de seus quadros, de suas obras: — na sua mansarda ainda perfumada com a presença de Bagatela: na sua mansarda, onde ele vivia com a imagem adorada, onde ela chorara; e onde lhe apertara a mão ao despedir-se! Essa morte, sim, valia a pena!

Além disso, ele morria descansado sobre a sorte dessa mulher por quem ia morrer; porquanto no primeiro dia de cada mês, à noitinha, um velho, cujo semblante austero e melancólico causava respeito, apresentava-se em casa de Bagatela, dava-lhe um rolo de 150 francos, rendimento mensal que lhe deixara Max; depois retirava-se cumprimentando, mas sem proferir uma palavra.

Uma noite, pois, Henrique entrou em casa resolvido a pôr termo à existência que o acabrunhava. Acendeu a lâmpada, correu os ferrolhos da porta, que não se fechava de todo, e depois de algumas disposições testamentárias, tomou uma pistola que pusera ao entrar em uma mesa e carregou-a…

— Amo-a muito, murmurou ele penivelmente, para não persistir em minha resolução… Sede fiel à minha memória! — disse Max.., serei fiel à sua memória… vamos… Daqui a poucos minutos estarei de jornada para a eternidade!… Ele gracejava nos seus últimos momentos… Max! Tinha essa coragem… Ah! É que era amado! Por que matou-se? Eu nunca ousara conceber esta esperança que faz minha alegria e suplício… Adeus, pois, vós todos objetos queridos que vou abandonar, adeus!

Henrique inclinou orgulhosamente a cabeça. No momento em que colocava na fronte o cano da pistola, bateram na porta. Abaixou a arma e esperou. Bateram de novo, mas com uma violência inaudita. E a porta rodou sobre os gonzos…

— Henrique! que íeis fazer? — exclamou Bagatela, precipitando-se ao mancebo e arrancando-lhe a pistola.

— Bem o vedes! — respondeu ele com uma voz surda — ia morrer!

— Morrer! tu, Henrique! oh! não deves morrer… eu to proíbo!

Dois olhos e dois lábios que dizem eloqüentemente: — vivei! têm o direito de serem ouvidos. Henrique sentiu desvanecerem-se as suas veleidades de suicídio… sobretudo quando Bagatela ajuntou:

— Há muito tempo que eu adivinhei o teu amor — porque eu também te amava; sofrias, dizes tu? E eu? Eu! acreditas então que eu não houvesse mister de coragem, ou antes de crueldade, para deixar-te assim esperar-me, sofrer e chorar? Combatias contra o vão fantasma de um passado que lá vai… lutavas com um remorso que não deve mais pesar em teu coração, agora que eu venho a ti, e te absolvo! Se é um crime esse nosso amor, meu doce amigo, tomo sobre mim a responsabilidade e a vergonha… Podemos ser felizes de hora avante, Henrique, pois que eu sou rica… um parente de minha mãe deixou-me uma herança… É uma bênção do céu! não teremos mais necessidade dos benefícios póstumos de Máximo.

Mr. Heine tem razão: “Todos sabem o que são cacetadas; mas o que é amor, todos ainda ignoram!”

— Gabriela! — respondeu Henrique com um desespero misturado de tristeza. — Fugi, deixai-me só… Há entre nós uma barreira que não podemos transpor… a lembrança de Máximo?

— Mas tu não me amas, Henrique?

— Não te amo! Mas não é por ti que eu quero morrer? Deixa-me… não quero ser perjuro!… vai-te!

— Ficarei aqui! — disse Bagatela com uma voz resoluta. — Há oito dias que te espero… oito séculos! pois que eu os contei… Tu não me procuraste… procurei-te eu… Venho dizer-te: separados, éramos infelizes; reunidos…

— Oh! não acabes, Gabriela.

— Então morramos ambos morramos…

— Ainda não, meus filhos — disse uma voz.

Bagatela e Henrique voltaram-se e viram, a primeira com medo, o segundo com espanto, aproximar-se um velho, cujo casacão pardo e cabelos brancos tinham um ar respeitável.

— O desconhecido! — murmurou a moça.

— Senhora, eu vos saúdo — disse o velho com uma voz trêmula e um pouco desfalecida. — Bom dia, Senhor! estão ambos espantados… que tínheis! Queríeis morrer, meu jovem amigo? Ah! fora com isso! é bom para os maníacos, e vós tendes juízo.

— Ah! esta voz! esta voz!… — exclamaram Bagatela e Henrique.

— É a de um homem que vos ama e quer a vossa felicidade, meus filhos… — retrucou o velho; — eu soube apreciar-vos ambos, há bastante tempo, posto que pouco me conheceis. Mr. Máximo, de quem fui amigo outrora, deixou-me o cuidado de velar sobre vós… Obedeci-lhe religiosamente… Vós que sois tão dignos um do outro, — (aqui a voz do velho fez-se um pouco irônica, o que não notaram os nossos amantes; tão ocupados estavam em recordar-se onde tinham ouvido essa voz tão fresca e suave ainda, apesar de seu abalo tremor de ancião)! Vós que sois tão dignos um do outro… ide tocar a meta da ventura! eis aqui o vosso dote… não é considerável… porém Max ficará satisfeito — lá em cima, se o aceitardes…. É a última recordação que ele vos dá… Minha missão está terminada… O que vos peço ainda, em nome de Max, é de vos lembrardes algumas vezes, de vez em quando, quando não tiverdes outra coisa a fazer… nas vossas horas de tédio, ou de prazer, que um homem existiu, que vos criou, e levou consigo a consolação de ter ao menos as vossas saudades… é bem pouco uma recordação… e bem pouco uma lágrima… Fazei algumas vezes essa melancólica esmola dos vivos a um morto, que só tem aqui na terra uma preocupação: — a vossa ventura. Adeus, só me vereis ainda uma vez, no dia do vosso casamento; até mais ver, meus filhos e… até mais ver!….

E sem esperar uma resposta de Bagatela ou de Henrique, o velho desapareceu.

— Henrique, murmurou Bagatela com uma doce melancolia. Henrique… bem o vedes… Nada mais se opõe à vossa ventura… Mas não vos quis legar um remorso…

Coisa estranha! — justamente em razão daquela absolvição que Max dera, de além-túmulo aos seus criminosos pensamentos, Bagatela e Henrique sentiam a consciência agitar-se, e apenas o artista morto levantava os seus escrúpulos eles renasciam mais vivos em suas almas…

— Oh! Max valia mais do que eu! — respondeu Henrique, voltando a cabeça, para ocultar à Bagatela a vista de uma lágrima que lhe resvalara furtivamente na face.

III

Um mês se tinha passado e em uma capela da Igreja de S. Sulpício, um padre abençoava dois jovens que tomavam diante de Deus o cargo de se amarem até a morte.

A um canto da capela estava um velho imóvel, com o pescoço estendido, que seguia com o olhar febril e quebrado cada movimento dos novos esposos que eram Bagatela e Henrique… apenas a moça pronunciou corando de ventura o sim fatal, o velho estremeceu e a sua fisionomia exprimiu uma angústia dolorosa…

Terminada a cerimônia dispersou-se a multidão. Bagatela estava radiante com o vestido azul do céu que parecia abençoar esta união e sorrir a esta festa. Henrique tinha por momentos, um ar pensativo e triste e quando subiu para o carro, procurou e fez procurar por toda parte o velho; mas ele tinha desaparecido.

Enquanto os noivos se iam de seu lado contentes e brilhantes, ele apressava o passo com um ar sombrio, para chegar mais depressa.

Subiu uma escada de uma casa da rua dos Mártires, abriu uma porta e achou-se em uma oficina povoada de quadros, de estátuas, e objetos de arte. Parou então, pôs a mão sobre o coração e contou as pancadas. — Tudo está acabado! murmurou ele com uma voz quebrada. — Ela e ele são felizes… Está bem…

E ficou entregue a uma meditação profunda que tinha por fim incessante uma determinação terrível.

— Nada de saudades estéreis! Nada de desejos quiméricos! — disse ele contemplando com olhar quebrado e resignado as nuvens que purpureavam o horizonte — lá vai o tempo das saudades e desejos… agora é a agonia… é a morte… a morte! Oh! ela já está em mim… em mim todo!

E pôs a mão sobre a fronte!

— A inteligência, esse archote soberbo que irradia isoladamente ao lado do próprio sol?… Está apagada em mim…

Pôs a mão no coração:

— O coração, esse diamante precioso que nada altera… Meu coração! quebrou-se em mil pedaços, como vidro…

Sorriu amargamente e continuou:

— Ah! os cantos de meu coração, e as marcas da minha vida são como cipós da Via Apiena: não há mais que cinzas e aqui jaz! Sobre os destroços dos meus amores e de minhas esperanças, só tinha de dormitar agora… Ah! a vida é feita de abrolhos e espinhos… Pobres ovelhas que o invisível pastor leva ao matadouro da morte, deixam lã a cada espinheiro, sangue a cada fonte de pedra… Pus o dedo sobre a ventura e a ventura fugiu-me para não voltar mais…

As divinas promessas do amor esvaneceram-se ao sopro gelado da indiferença… como eu era insensato! crer na coragem de Henrique e na virtude de Bagatela! Oh! queridos ídolos derrocados! Mas para que inventar Galatéas impossíveis? por que quis eu apoiar a ventura de toda a minha vida na areia movediça das paixões? — Quis, fatal pensamento! — submeter o amor de um e a amizade de outro à pedra de toque da ausência, e essa experiência provou-me o egoísmo dessas duas afeições sem as quais eu não podia viver… No fundo da ânfora onde as lancei ambas, resta um pouco de ouro puro e muita terra…

Não me amam mais, não me podem mais amar… E é tal o desencanto horrível de minha alma que nesta hora solene chega a duvidar que eles me amassem!… Mas que importa? Eu os amava, eu os amo ainda, ingratas crianças que me esqueceram tão depressa!… E a sua virtude me é cara, apesar de haver quebrado a minha… Ah! a ventura! a ventura! — repetiu ele com violento furor — a ventura! … por ventura nós a conhecemos — nós os eleitos, os predestinados, os gloriosos, cuja vida é um calvário de estações dolorosas… A ventura nunca vem cedo; chega mesmo tarde demais. É um viajante descuidado e fantástico, que não sabe onde vai, onde deve comer, onde deve dormir, e que uma noite vem por fantasia bater à nossa porta. Mas já a velhice cá estava: a cabeça está calva, os olhos sombrios, a boca fechada; nós nos habituamos à imobilidade da sepultura, pela imobilidade da idéia. Todavia abre-se a porta a esse viajante estouvado e falador que para vir à nossa casa solitária toma um caminho mais longe… que retardou-se na viagem a cercar com as mãos as cinturas das jovens aldeãs encontradas, e a contar-lhes loucas histórias que as fizeram corar — de prazer! Abrimos a porta mas, rosnando; por que temos reumatismos: abrimos rosnando e tossindo, escandalizados das risadas intempestivas e da alegria extravagante desse hóspede, cuja vinda, que nos importuna tantas vezes, há bom tempo saudamos com efusão e gratidão… Não lhe compreendemos o falar… Já nos é um estrangeiro; mais que um estrangeiro mesmo, um inimigo; por que sua presença agora em nossa casa é uma ironia amarga, é um insulto. Mas não somos maus; não sabemos sê-lo; a dor habitua à bondade; e em vez de dizer a esse estranho que nos perturba o sono de ancião, batendo precipitadamente na porta fechada de nosso coração: “Já não vem a tempo!” — dizemos-lhe melancolicamente: — “É bastante tarde!”

— Ah! coisa terrível.., coisa terrível… a ventura!

Durante um instante ficou ele com a cabeça entre as mãos crispadas; depois continuou com os olhos mais úmidos de lágrimas, porém mais enternecidos:

— Ouço soar em meu coração sinfonias inebriantes da mocidade, como um alegre concerto de vozes amadas… Ouço minhas alegres e frescas recordações de mancebo bater carga e rolar louca e impetuosamente por meu pobre cérebro… Ah! toque insensato, amante risonho dessas recordações, dessas sinfonias me fazem mal!… Quero dormir o meu último sono, embalado pelo pensamento de que meu fantasma doce e triste atravessará talvez a vida de Henrique e Bagatela, e deixará um vestígio perfumado em seus corações… Ah! ainda vem ver, por que tentei essa prova maldita?… Antes de morrer experimentei a morte… Magoadora experiência! não sei se devo alegrar-me com ela, pois eles são felizes, ou entristecer-me uma vez que morro! Oh! meus ídolos! ídolos amados, caístes do pedestal em que vos elevei!… Eu devera morrer logo… teria lançado a campo, crença, fé, ilusão!… não assistira à tua fraqueza Henrique! não assistira à tua queda, Gabriela!…

Depois, desembaraçando-se do vestuário do velho que o incomodava, Max dirigiu-se pálido, grave, com a fronte carregada de idéias sinistras, para o fundo da sua oficina e para diante de uma tela branca que parecia esperar dele o movimento e a vida…

O rosto viril do artista refletiu, nesse instante, as torturas sem nome, as angústias horríveis, as dores inauditas que lhe rasgavam a alma desde o dia em que voluntariamente deixara Henrique e Bagatela… Estava acostumado ao uso das decepções como Mitrídates ao uso dos venenos; mas desta vez a dose era forte demais: matava-o!…

Nesse instante, ele odiava a vida com todas as forças que lhe restavam… desenganado deste mundo, chegava quase aos lábios a taça fatal quando o vento lhe trouxe o eco fraco de um canto lançado no espaço: Pôs-se a escutar. A voz dizia:

Debalde semeei formosas crenças.
Nem um raio de sol desceu-me aos prados!
Veio a dor às campinas da esperança
Como vai joio ao trigo.

— É a voz de um poeta! — murmurou Max com um melancólico sorriso. — Não sou só eu a sofrer!

Chegou-se depois ao seu cavalete, tomou os pincéis e na tela colocada em frente dela construiu em uma hora, que passou como um relâmpago — o poema melancólico e pungente de sua vida despedaçada ainda no começo… Evocou por um momento os dois entes adorados que tinham vindo um após outro cravar-lhe o punhal no coração… E essa tela animou-se como por encanto! Iluminou-se de reflexos fantásticos e vertiginosos! Max dava assim o derradeiro esforço de seu gênio, o último grito de sua alma, a última vibração de seu coração…

Mas esse esforço sobrenatural devido à febre e ao desespero, esmagou-o… Ele arrastou-se até a janela para contemplar ainda uma vez o céu que lhe negava, como suprema consolação, fechar os olhos nos seios de uma mulher, e nos braços de um amigo; palpitava-lhe o peito convulsivamente…

Grossas nuvens pardas, levadas por um vento. Estas acumulavam-se no horizonte como uma massa de neve. O sol, em seu ocaso, espalhava sobre a cidade uma cor sombria em harmonia com as sombrias idéias do artista…

— Vamos! — exclamou ele voltando à mesa onde depusera ao entrar um pequeno frasco contendo um licor escuro. — Que o sacrifício se consuma! Agora que todas as afeições estão mortas, que as minhas ilusões estão extintas, vou extinguir-me com elas, como elas vou morrer… O aventureiro Gabor tinha razão: — “A vida é uma caçoada amarga!…”

E de um trago, o heróico artista absorveu o licor do vidro que descompôs-lhe o semblante rapidamente.

Corria-lhe o olhar sangrento e úmido de um a outro objeto, roçando de leve muitas recordações que se prendiam a duas criaturas queridas e amadas demais.

De repente, esse olhar moribundo parou na tela deslumbrante em que seu gênio lançara a última palavra… Parecia-lhe que legar aos vivos, aos indiferentes, aos felizes o admirável poema que ele esboçara seria uma profanação, um sacrilégio, uma impiedade e reunindo então as poucas forças que lhe deixava o veneno, arrastou-se penivelmente até o cavalete, tomou uma faca e em um sublime e último esforço rasgou e despedaçou freneticamente a tela… Depois seus braços se torceram, os dedos se lhe crisparam, soltou um grito surdo, um grito de angústia e de saudades supremas que o eco repetiu.

— Tudo acabara.

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