Berço de Mata-Borrão – crônica de Rubem Braga

By | April 11, 2013

“Dê-me o berço de mata-borrão”, disse eu.

Na inocência de seus vinte anos, ela me olhou intrigada: “berço de quê?” Só então eu refleti que mata-borrão é uma palavra forte (até violenta) e feia. Trata-se de um papel que serve para absorver tinta. Normalmente a gente o usava para secar a escrita, pois a tinta com que escrevíamos custava a secar. Quanto ao berço, era uma peça à qual se prendia o mata-borrão, para mais fácil manuseio. Dadas estas explicações à juventude contemporânea, devo dizer que era isso o que faltava a uma certa Loura dolicocéfala, ou talvez a uma Virgem de dezoito quilates, personagem de Pitigrilli, quando acabou de escrever um bilhete para o novo amante e não tinha como fazer secar as letras. Fez o seguinte: abriu uma urna em que estavam as cinzas de seu antigo amante, e as utilizou para aquele fim.

No Livro dos Insultos, de H. L. Mencken, seleção e tradução de Ruy Castro, há uma referência a Ambrose Bierce: “Certa vez tive a curiosa experiência de ir a um funeral com ele… Contou histórias de crematórios que pegaram fogo e feriram os parentes do defunto; de bêbados mortos cujos restos explodiram; de viúvas vigiando o fogo a noite inteira para se certificar de que seus falecidos maridos não iriam escapar…”.

Há muito tempo a Santa Casa anuncia que vai construir um crematório. Liguei para lá e perguntei a respeito. Alguém respondeu que o crematório já estava construído no Cemitério São João Batista; esperavam apenas ordem do prefeito para fazê-lo funcionar. Liguei para o gabinete do prefeito, e lá me deram o telefone do presidente da Comissão de Cemitérios, um senhor extremamente gentil e com uma voz nada fúnebre. Ele disse que não, não havia crematório algum. Explicou que este era para ser construído no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, mas a Santa Casa aparecera com um novo projeto; fazer o forno no alto do morro atrás do Cemitério São João Batista, uma encosta muito íngreme, que exigiria obras de contenção; também seria preciso deslocar várias famílias carentes que lá vivem.

Não se justifica, portanto, a mudança do local. Esta era sua opinião, mas cabia ao prefeito decidir. Voltei a ligar para a Santa Casa, e desta vez me informaram que o crematório “estava em construção”. Perguntei então se a Santa Casa se encarregava de pegar o corpo e levá-lo para o Crematório de São Paulo e como seria feito o transporte. Em uma Kombi, responderam; a não ser que eu combinasse o transporte com alguma empresa aérea.

Eu disse que queria saber os preços desse serviço, e então me disseram para ligar para a garagem, e ali me foi perguntado onde estava o corpo. Respondi que estava em Ipanema, e então o homem disse que de Kombi o transporte para São Paulo ficaria em 350 cruzados. Achei barato demais, mas o homem insistiu em que o preço que ele sabia era este; quanto ao custo da cremação, era melhor eu ligar diretamente para São Paulo.

Liguei. O homem lá disse que o serviço, com a urna, ficaria em 45 mil cruzados. Não, não aceitavam Cartão Nacional nem da Golden Cross. Na verdade há muitos anos escrevi uma crônica dizendo que queria ser cremado, e que minhas cinzas fossem jogadas discretamente da Ponte Municipal de Cachoeiro, no rio Itapemirim, já tão poluído que isso não o alteraria muito. Mas aí apareceu aquele filme La nave va, de Fellini, e minha idéia se tornou um tanto ridícula, como a da cantora lírica que desejava ter suas cinzas jogadas em alguma parte do Adriático.

Esqueci de contar que o sujeito da Santa Casa perguntou-me se o corpo já estava preparado para o funeral. Acanhado, eu não lhe disse que ainda me faltava morrer.

Então a moça de vinte anos disse: “Ah, já sei, eu vi isto na mesa de meu avô. É uma coisa para carimbar batendo assim, não é?”.

Não, não é.

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