Carmela – conto de Alcântara Machado

By | April 9, 2013

Dezoito horas e meia. Nem mais um minuto porque a madama respeita as horas de trabalho. Carmela sai da oficina. Bianca vem ao seu lado.

A Rua Barão de Itapetininga é um depósito sarapintado de automóveis gritadores. As casas de modas (AO CHIC PARISIENSE, SÃO PAULO-PARIS, PARIS ELEGANTE) despejam nas calçadas as costureirinhas que riem, falam alto, balançam os quadris como gangorras.

– Espia se ele está na esquina.

– Não está.

– Então está na Praça da República. Aqui tem muita gente mesmo.

– Que fiteiro!

O vestido de Carmela coladinho no corpo é de organdi verde. Braços nus, colo nu, joelhos de fora. Sapatinhos verdes. Bago de uva Marengo maduro para os lábios dos amadores.

– Ai que rico corpinho!

– Não se enxerga, seu cafajeste? Português sem educação!

Abre a bolsa e espreita o espelhinho quebrado, que reflete a boca reluzente de carmim primeiro, depois o nariz chumbeva, depois os fiapos de sobrancelha, por último as bolas de metal branco na ponta das orelhas descobertas.

Bianca por ser estrábica e feia é a sentinela da companheira.

– Olha o automóvel do outro dia.

– O caixa-d’óculos?

– Com uma bruta luva vermelha.

O caixa-d’óculos pára o Buick de propósito na esquina da praça.

– Pode passar.

– Muito obrigada.

Passa na pontinha dos pés. Cabeça baixa. Toda nervosa.

– Não vira para trás, Bianca. Escandalosa!

Diante de Álvares de Azevedo (ou Fagundes Varela) o Ângelo Cuoco de sapatos vermelhos de ponta afilada, meias brancas, gravatinha deste tamanhinho, chapéu à Rodolfo Valentino, paletó de um botão só, espera há muito com os olhos escangalhados de inspecionar a Rua Barão de Itapetininga.

– O Ângelo!

– Dê o fora.

Bianca retarda o passo.

Carmela continua no mesmo. Como se não houvesse nada. E o Ângelo junta-se a ela. Também como se não houvesse nada. Só que sorri.

– Já acabou o romance?

– A madama não deixa a gente ler na oficina.

– É? Sei. Amanhã tem baile na Sociedade.

– Que bruta novidade, Ângelo! Tem todo domingo. Não segura no braço!

– Enjoada!

Na Rua do Arouche o Buick de novo. Passa. Repassa. Torna a passar.

– Quem é aquele cara?

– Como é que eu hei de saber?

– Você dá confiança para qualquer um. Nunca vi, puxa! Não olha pra ele que eu armo já uma encrenca!

Bianca rói as unhas. Vinte metros atrás. Os freios do Buick guincham nas rodas e os pneumáticos deslizam rente à calçada. E estacam.

– Boa tarde, belezinha…

– Quem? Eu?

– Por que não? Você mesma…

Bianca rói as unhas com apetite.

– Diga uma cousa. Onde mora a sua companheira?

– Ao lado de minha casa.

– Onde é sua casa?

– Não é de sua conta.

O caixa-d’óculos não se zanga. Nem se atrapalha. É um traquejado.

– Responda direitinho. Não faça assim. Diga onde mora.

– Na Rua Lopes de Oliveira. Numa vila. Vila Margarida n.0 4. Carmela mora com a família dela no 5.

– Ah! Chama-se Carmela… Lindo nome. Você é capaz de lhe dar um recado?

Bianca rói as unhas.

– Diga a ela que eu a espero amanhã de noite, às oito horas, na rua… na…. atrás da Igreja de Santa Cecília. Mas que ela vá sozinha, hein? Sem você. O barbeirinho também pode ficar em casa.

– Barbeirinho nada! Entregador da Casa Clark!

– É a mesma cousa. Não se esqueça do recado. Amanhã, as oito horas, atrás da igreja.

– Vá saindo que pode vir gente conhecida.

Também o grilo já havia apitado.

– Ele falou com você. Pensa que eu não vi?

O Ângelo também viu. Ficou danado.

– Que me importa? O caixa-d’óculos disse que espera você amanhã de noite, às oito horas, no Largo Santa Cecília. Atrás da igreja.

– Que é que ele pensa? Eu não sou dessas. Eu não!

– Que fita, Nossa Senhora! Ele gosta de você, sua boba.

– Ele disse?

– Gosta pra burro.

– Não vou na onda.

– Que fingida que você é!

– Ciao.

– Ciao.

Antes de se estender ao lado da irmãzinha na cama de ferro Carmela abre o romance à luz da lâmpada de 16 velas: Joana a Desgraçada ou A Odisséia de uma Virgem, fascículo 2.0

Percorre logo as gravuras. Umas tetéias. A da capa então é linda mesmo. No fundo o imponente castelo. No primeiro plano a íngreme ladeira que conduz ao castelo. Descendo a ladeira numa disparada louca o fogoso ginete. Montado no ginete o apaixonado caçula do castelão inimigo de capacete prateado com plumas brancas. E atravessada no cachaço do ginete a formosa donzela desmaiada entregando ao vento os cabelos cor de carambola.

Quando Carmela reparando bem começa a verificar que o castelo não é mais um castelo mas uma igreja o tripeiro Giuseppe Santini berra no corredor:

– Spegni la luce! Subito! Mi vuole proprio rovinare questa principessa!

E – raatá! – uma cusparada daquelas.

– Eu só vou até a esquina da Alameda Glette. Já vou avisando.

– Trouxa. Que tem?

No Largo Santa Cecília atrás da igreja o caixa-d’óculos sem tirar as mãos do volante insiste pela segunda vez:

– Uma voltinha de cinco minutos só… Ninguém nos verá. Você verá. Não seja má. Suba aqui.

Carmela olha primeiro a ponta do sapato esquerdo, depois a do direito, depois a do esquerdo de novo, depois a do direito outra vez, levantando e descendo a cinta. Bianca rói as unhas.

– Só com a Bianca…

– Não. Para quê? Venha você sozinha.

– Sem a Bianca não vou.

– Está bem. Não vale a pena brigar por isso.

– Você vem aqui na frente comigo. A Bianca senta atrás.

– Mas cinco minutos só. O senhor falou…

– Não precisa me chamar de senhor. Entrem depressa.

Depressa o Buick sobe a Rua Viridiana.

Só pára no Jardim América.

Bianca no domingo seguinte encontra Carmela raspando a penugenzinha que lhe une as sobrancelhas com a navalha denticulada do tripeiro Giuseppe Santini.

– Xi, quanta cousa pra ficar bonita!

– Ah! Bianca, eu quero dizer uma cousa pra você.

– Que é?

– Você hoje não vai com a gente no automóvel. Foi ele que disse.

– Pirata!

– Pirata por quê? Você está ficando boba, Bianca.

– É. Eu sei porquê. Piratão. E você, Carmela, sim senhora! Por isso é que o Ângelo me disse que você está ficando mesmo uma vaca.

– Ele disse assim? Eu quebro a cara dele, hein? Não me conhece.

– Pode ser, não é? Mas namorado de máquina não dá certo mesmo.

Saem à rua suja de negras e cascas de amendoim. No degrau de cimento ao lado da mulher Giuseppe Santini torcendo a belezinha do queixo cospe e cachimba, cachimba e cospe.

– Vamos dar uma volta até a Rua das Palmeiras, Bianca?

– Andiamo.

Depois que os seus olhos cheios de estrabismo e despeito vêem a lanterninha traseira do Buick desaparecer, Bianca resolve dar um giro pelo bairro. Imaginando cousas. Roendo as unhas. Nervosissima.

Logo encontra a Ernestina. Conta tudo ã Ernestina.

– E o Ângelo, Bianca?

– O Ângelo? O Ângelo é outra cousa. E pra casar.

– Há!…

 



 

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