Category: Cecília Meireles

Mar 27

Edmundo, o Céptico – Texto de Cecília Meireles

Naquele tempo, nós não sabíamos o que fosse cepticismo. Mas Edmundo era céptico. As pessoas aborreciam-se e chamavam-no de teimoso. Era uma grande injustiça e uma definição errada. Ele queria quebrar com os dentes os caroços de ameixa, para chupar um melzinho que há lá dentro. As pessoas diziam-lhe que os caroços eram mais duros …

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Mar 27

História de uma letra – Texto de Cecília Meireles

Muita gente me pergunta se deixei de escrever o meu sobrenome com letra dobrada devido à reforma ortográfica; e quando estou com preguiça de explicar, digo que sim. Mas hoje tomo coragem, abalanço-me a confessar a verdade, que talvez não interesse senão aos meus possíveis herdeiros. A verdade nunca é simples, como se imagina. E …

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Dec 01

Lamento do oficial por seu cavalo morto – Poema de Cecília Meireles

Nós merecemos a morte, porque somos humanos e a guerra é feita pelas nossas mãos, pela nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra, por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens que trazemos por dentro, e ficam sem explicação. Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia, os cálculos do gesto, embora sabendo que somos …

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Dec 01

Mulher ao espelho – Poema de Cecília Meireles

Hoje que seja esta ou aquela, pouco me importa. Quero apenas parecer bela, pois, seja qual for, estou morta. Já fui loura, já fui morena, já fui Margarida e Beatriz. Já fui Maria e Madalena. Só não pude ser como quis. Que mal faz, esta cor fingida do meu cabelo, e do meu rosto, se …

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Nov 15

Meditação no presépio – Texto de Cecília Meireles

Quando São Francisco de Assis inventou o primeiro presépio, e falou das coisas do céu numa gruta, dizem que, ao ajoelhar-se, desceu-lhe aos braços estendidos um Menino todo de luz. O Santo Poeta colocara ali apenas umas poucas imagens: as da Sagrada Família, a do irmão jumento e a do irmão boi. O áspero cenário …

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Sep 01

Chuva com Lembranças – Texto de Cecília Meireles

COMEÇAM a cair uns pingos de chuva. Tão leves e raros que nem as borboletas ainda perceberam, e continuam a pousar, às tontas, de jasmim em jasmim. As pedras estão muito quentes, e cada gôta que cai logo se evapora. Os meninos olham para o céu cinzento, estendem a mão — e vão tratar de …

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Jun 17

Dos cravos roxos – Poema de Cecília Meireles

Esta noite, quando, lá fora, campanários tontos bateram doze vezes o apelo da hora, na minha jarra, onde a água chora, meus dois cravos roxos morreram… Meus dois cravos roxos morreram! Meus dois cravos roxos defuntos, são como beijos que sofreram, como beijos que enlouqueceram porque nunca vibraram juntos… São como a sombra dolorida de …

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Jun 17

Metamorfose – poema de Cecília Meireles

Súbito pássaro dentro dos muros caído, pálido barco na onda serena chegado. Noite sem braços! Cálido sangue corrido. E imensamente o navegante mudado. Seus olhos densos apenas sabem ter sido. Seu lábio leva um outro nome mandado. Súbito pássaro por altas nuvens bebido. Pálido barco nas flores quietas quebrado. Nunca, jamais e para sempre perdido …

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Jun 17

Personagem – poema de Cecília Meireles

Teu nome é quase indiferente e nem teu rosto mais me inquieta. A arte de amar é exactamente a de se ser poeta. Para pensar em ti, me basta o próprio amor que por ti sinto: és a ideia, serena e casta, nutrida do enigma do instinto. O lugar da tua presença é um deserto, …

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Apr 11

Aceitação – poema de Cecília Meireles

É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens e sentir passar as estrelas do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos. É mais fácil, também, debruçar os olhos nos oceanos e assistir, lá no fundo, ao nascimento mundo das formas, que desejar que apareças, criando com teu simples gesto o sinal …

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