Category: Poesia

Dec 14

A mosca azul – Poema de Machado de Assis

Era uma mosca azul, asas de ouro e granada, Filha da China ou do Indostão, Que entre as folhas brotou de uma rosa encarnada, Em certa noite de verão. E zumbia, e voava, e voava, e zumbia, Refulgindo ao clarão do sol E da lua, – melhor do que refulgiria Um brilhante do Grão-Mogol. Um …

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Dec 14

Pálida Elvira – Poema de Machado de Assis

Ulisse, jeté sur les rives d’Ithaque, ne les reconnaît pas et pleure sa patrie. Ainsi l’homme dans le bonheur possédé ne reconnaît pas son rêve et soupire. Daniel Stern. I Quando, leitora amiga, no ocidente Surge a tarde esmaiada e pensativa; E entre a verde folhagem rescendente Lânguida geme a viração lasciva; E já das …

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Dec 11

À Morte Prematura – Poema de Gonçalves Dias

Lá, bem longe daqui, em tarde amena, Gozando a viração das frescas auras, Que do Brasil os bosques brandamente Faziam balançar, – e que espalhavam No éter encantado odor, pureza – Do que a rosa mais bela, – meiga e casta, Como as virgens do sol, Que de vezes não foi ela pendente Dos braços …

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Dec 11

Horas malditas – Poema de Fagundes Varela

Há umas horas na noite, Horas sem nome e sem luz, Horas de febre e agonia Como as horas de Maria Debruçada aos pés da cruz. Tredos abortos do tempo, Cadeias de maldição, Vertem gêlo nas artérias, E sufocam, deletérias, Do poeta a inspiração. Nessas horas tumulares Tudo é frio e desolado; O pensador vacilante …

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Dec 10

Poesia Entre o Cais e o Hospital – Adalgisa Nery

Geme no cais o navio cargueiro No hospital ao lado, o homem enfermo. O vento da noite recolhe gemidos Une angústias do mundo ermo. Maresia transborda do mar em cansaço, Odor de remédios inunda o espaço. Máquina e homem, ambos exaustos Um, pela carga que pesa em seu bojo Outro, na dor tomando o seu …

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Dec 08

O morcego – Poema de Augusto dos Anjos

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho. Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede: Na bruta ardência orgânica da sede, Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. “Vou mandar levantar outra parede…” – Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, Circularmente sobre a minha …

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Dec 07

Mulher da Vida – Poema de Cora Coralina

Mulher da Vida, minha Irmã. De todos os tempos. De todos os povos. De todas as latitudes. Ela vem do fundo imemorial das idades e carrega a carga pesada dos mais torpes sinônimos, apelidos e apodos: Mulher da zona, Mulher da rua, Mulher perdida, Mulher à-toa. Mulher da Vida, minha irmã. Pisadas, espezinhadas, ameaçadas. Desprotegidas …

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Dec 06

A um moribundo – Poema da portuguesa Florbela Espanca

Não tenhas medo, não! Tranquilamente, Como adormece a noite pelo Outono, Fecha os teus olhos, simples, docemente, Como, à tarde, uma pomba que tem sono… A cabeça reclina levemente E os braços deixa-os ir ao abandono, Como tombam, arfando, ao sol poente, As asas de uma pomba que tem sono… O que há depois? Depois?…O …

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Dec 03

A poesia se esfrega nos seres e nas cousas – Adalgisa Nery

Nunca sentiste uma força melodiosa Cercando tudo que teus olhos vêem, Um misto de tristeza numa paisagem grandiosa Ou um grito de alegria na morte de um ser que queres bem? Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas Deparando com um campo devoluto Semelhante a uma virgem esquecida? Num circo, nunca se apoderou de …

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Dec 03

Poema da Amante – Adalgisa Nery

Eu te amo Antes e depois de todos os acontecimentos, Na profunda imensidade do vazio E a cada lágrima dos meus pensamentos. Eu te amo Em todos os ventos que cantam, Em todas as sombras que choram, Na extensão infinita dos tempos Até a região onde os silêncios moram. Eu te amo Em todas as …

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