Conversinha Mineira – crônica de Fernando Sabino

By | April 13, 2013

– É bom mesmo o cafezinho daqui, meu amigo?

– Sei dizer não senhor: não tomo café.

– Você é dono do café, não sabe dizer?

– Ninguém tem reclamado dele não senhor.

– Então me dá café com leite, pão e manteiga.

– Café com leite só se for sem leite.

– Não tem leite?

– Hoje, não senhor.

– Por que hoje não?

– Porque hoje o leiteiro não veio.

– Ontem ele veio?

– Ontem não.

– Quando é que ele vem?

– Tem dia certo não senhor. Às vezes vem, às vezes não vem. Só que no dia que devia vir em geral não vem.

– Mas ali fora está escrito “Leiteria”!

– Ah, isso está, sim senhor.

– Quando é que tem leite?

– Quando o leiteiro vem.

– Tem ali um sujeito comendo coalhada. É feita de quê?

– O quê: coalhada? Então o senhor não sabe de que é feita a coalhada?

– Está bem, você ganhou. Me traz um café com leite sem leite. Escuta uma coisa: como é que vai indo a política aqui na sua cidade?

– Sei dizer não senhor: eu não sou daqui.

– E há quanto tempo o senhor mora aqui?

– Vai para uns quinze anos. Isto é, não posso agarantir com certeza: um pouco mais, um pouco menos.

– Já dava para saber como vai indo a situação, não acha?

– Ah, o senhor fala da situação? Dizem que vai bem.

– Para que Partido?

– Para todos os Partidos, parece.

– Eu gostaria de saber quem é que vai ganhar a eleição aqui.

– Eu também gostaria. Uns falam que é um, outros falam que outro. Nessa mexida…

– E o Prefeito?

– Que é que tem o Prefeito?

– Que tal o Prefeito daqui?

– O Prefeito? É tal e qual eles falam dele.

– Que é que falam dele?

– Dele? Uai, esse trem todo que falam de tudo quanto é Prefeito.

– Você, certamente, já tem candidato.

– Quem, eu? Estou esperando as plataformas.

– Mas tem ali o retrato de um candidato dependurado na parede, que história é essa?

– Aonde, ali? Uê, gente: penduraram isso aí…

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