Da importância de ser Fabião – Crônica de Luís Fernando Veríssimo

By | April 24, 2013

Acordaram o Luiz Pedro às três da manhã.

— Vem pra cá, rapaz.

— Hein?

— Pula da cama e vem pra cá.

O Luiz Pedro zonzo. Ruídos de festa no telefone. Música. Uma voz de mulher gritando “Com o meu batom não!”.

— Quem fala?

— Te manda pra cá!

— Olha eu…

— Sabe o que que o maluco do Pepe está fazendo? Pintando o… Ó Pepe, fala aqui com o Fabião. Diz pra ele vir pra cá.

Outra voz no telefone:

— Fabião?

— Não eu…

— Quero te informar que acabei de pintar o meu pênis de, deixa ver, ocre provençal. É mole?

— É engano.

— Cê vem pra cá ou não vem? Haroldinho, o Fabião sabe o endereço? Hein? Fala aqui com ele.

— Fabião?

— Não. Meu nome é…

— Sabe o posto de gasolina na esquina da rua do Vavá? É o edifício ao lado. Número, número… Rita. Vem cá. Você não é a Rita? Que número é aqui? Fala aqui com o Fabião. Olha, Fabião, você vai falar com a mulher mais gostosa da festa. Ela vai te dar o endereço. Um beijo, cara. Vem logo.

— Olha, você ligou o número errado, eu…

— Oi.

— Oi, Rita. Eu…

— Eu não sou Rita. Sou Malu. Você quer o número?

— Não, eu estou tentando…

— Posso dizer?

— … dizer que ligaram para o número errado daí!

— Noventa e seis, apartamento 32. Terceiro andar.

— Eu não sou o Fabião.

— Quem é o Fabião?

— Não sei. Eu não sou. Meu nome é Luiz Pedro.

— Certo. Anotou o número? Vem logo, Luiz Pedro. Eu gostei da sua voz.

— Eu… Gostou?

— Hmmm. Estou te esperando.

— Posso falar com o… o Haroldinho?

— Quem?

— O que te passou o telefone.

— Certo. Haroldinho! O Luiz Pedro quer falar contigo. Tchau, Luizinho. Não demora, viu?

Voz do Haroldinho:

— Que história é essa de Luiz Pedro, Fabião?

— Nada, não. Só me diz uma coisa. A rua do Vavá qual é, mesmo?

— Está brincando comigo, Fabião? Vem logo pra cá. E Haroldinho desligou o telefone. Luiz Pedro ficou pensando na cama, com o telefone em cima do peito. Lamentando que sua vida era como era. Lamentando todas as oportunidades que tinham aparecido para mudar sua vida, e que ele tinha deixado escapar. Lamentando o fim do namoro com a Suelen, só porque ela citava trechos inteiros do Paulo Coelho de cor. Lamentando, acima de tudo, não conhecer o Vavá.

 



 

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