Das Notas de uma Viúva – conto de Aluísio de Azevedo

By | March 21, 2013

“Eu tinha dez meses de viúva e havia seis que Paulo me fazia a corte. Por esse tempo propôs-me ele um passeio ao campo e eu aceitei.

A manhã era esplêndida; uma bela manhã de Setembro, cheia de luz e temperada por um calor comunicativo e doce. Cedo metemo-nos num carrinho de vime, leve como uma cesta, rasteiro como um divã, e cômodo como um leito. Paulo deu rédeas ao animal e o carro conduziu-nos para fora da cidade.

Eu sentia um bom humor extraordinário; o ar puro e consolador daquela madrugada, pulverizado no espaço em vapores cor-de-rosa, enchia-me toda como de uma grande alma nova, feita de cousas alegres e benfazejas. Tive vontade de rir e de cantar.

O sol principiava a destacar o contorno irregular das árvores e derramava sobre as montanhas uma luz sangüínea e transparente. Achei-me expansiva, travessa com repentes de criança; e, não sei por que, Paulo nessa ocasião se me afigurou muito melhor do que nas outras. Cheguei a descobrir-lhe espírito e a desfazer-me em risadas com algumas pilhérias suas que, fora dali, me fariam bocejar.

Em certa altura paramos. Ele ajudou-me a descer, prendeu o cavalo, abriu a minha sombrinha, e começamos os dois a andar de braço dado por debaixo das árvores.

Que delicioso passeio! Ninguém pode calcular quanto me sentia feliz. Mais alguns passos e tínhamos chegado a um caramanchão, ou melhor, alpendre de verdura, misterioso, morno, impregnado de perfumes resinosos e embebidos de azul sombrio. Ao lado, uma cascata corria em sussurros; e as suas águas esfarelavam-se nas pedras, irradiando na fulguração do sol.

Paulo deixou-me por um instante, para ir buscar o carro. E, nesse momento de inteira liberdade, quando senti que não era observada por ninguém, levantei-me, bati palmas e pus-me a dançar como uma doida; depois galguei aos saltos o lado da cascata e recebi no rosto o pó úmido das águas, donde o sol tirava cambiantes multicores e dourados. Abaixei-me, colhi água na concha das mãos e bebi. Afinal, assentei-me no chão e abri a cantar uma cousa alegre que aprendera ainda no tempo do colégio.

Paulo voltou com o carro e recolheu ao pavilhão o cesto do almoço. Estendeu a toalha sobre uma mesinha de pedra que havia; pousou uma máquina de café, duas garrafas de Bordeaux, uma de champagne, uma botija de curaçau, uma empada, um assado, queijo, frutas e pão.

Sentia apetite e confesso que estava encantada com tudo aquilo. Era a primeira vez que me animava a fazer uma folia desse gênero – um almoço ao ar livre, ao lado de um rapaz.

E Paulo não me parecia o mesmo homem: descobria-lhe maneiras e qualidades, para as quais jamais atentara enquanto o vira somente nas frias atitudes circunspectas da vida; notava-lhe agora a distinta estroinice dos pândegos de boa família, criados e animados entre senhoras finas e orgulhosas; um certo pouco caso fidalgo e elegante pelas virtudes comuns e pelos vícios vulgares; um ar altivo e másculo de quem está habituado a gastar forte com os seus prazeres; uma linha moderna, libertina e gentil a um tempo, feita de extravagância de bom gosto, e um pouco de viagens, alguns conhecimentos de música, um nada de política, anedotas francesas, algum dinheiro, charutos caros, um monóculo, o uso de várias línguas, duas gotas de mel inglês no lenço, um fato bem feito de casimira cambraia, um chapéu de palha, luvas amarelas, polainas e uma bengala.

E o grande caso é que estava um rapagão cheio de gestos largos, de atiramentos de perna e de grandes exclamações em inglês.

Assentei-me no banco que circulava a mesa e ele fez o mesmo defronte de mim. Informou-se se eu estava satisfeita com o passeio; falou em repeti-lo. Era preciso aproveitar o verão. Mas, nos domingos nada! Havia muita gente!

E abria garrafas, dava lume à máquina de café, servia-me de mariscos e falava-me do seu amor. Eu contei-lhe francamente as impressões que recebera aquela manhã e mostrei-me contente.

– Se soubesse, minha amiga, disse-me ele, quanto me sinto bem a seu lado!… Nem mesmo me reconheço, creia! Fico tolo só a pensar em nossa futura felicidade, em nossa casa e em nossos…

Ia falar nos filhos, mas deteve-se e ficou a olhar-me em silêncio, com os olhos afogados numa grande insistência humilde. Parecia haver um pranto escondido por detrás das suas pupilas verdes.

– Descanse, falta pouco … . respondi, possuída de alguma cousa que não sei bem se era compaixão.

Falta um século!… emendou ele com um suspiro.

E chegou-se mais para mim. Tinha o ar tão respeitoso que não fugi.

– Por que não fica mais à vontade? aconselhou-me, ajudando-me, muito solícito, a tirar o chapéu e desfazer-me do mantelete.

Houve um silêncio. Ele queixou-se da falta de gelo, abriu uma nova garrafa de Bordeaux e encheu as taças. Depois, leu-me uns versos que a mim fizera no meu tempo de solteira. Vieram recordações. – O nosso namoro! Quanta criancice!

– E o bofetão?…

Esta lembrança trouxe-me uma risada que me fez engasgar. Sobreveio-me tosse; fiquei um pouco sufocada…

Ele levantou-se logo, começou a bater-me delicadamente nas costas. E, a pretexto de auxiliar-me, afagava-me os cabelos e a fronte.

– Não é nada! não é nada! dizia. Um gole de champagne!

– Não! antes água…

Correu à cascata e voltou com um copo d’água.

Tornamos à palestra, e não reparei logo que o rapaz desta vez ficara inteiramente encostado a mim. Passamos à sobremesa. As pilhérias repetiam-se mais a miúdo. Paulo pôs-se a fumar.

Consenti e disse até que gostava do cheiro do fumo. Ele fez saltar a rolha do champagne. Sentia-me enlanguescer; os olhos ardiam-me um tanto e todo o corpo me pedia repouso; insensivelmente fui perdendo alguma cousa da minha cerimônia e pondo-me à vontade; estiquei mais as pernas, recostei-me nas costas do banco e debrucei para trás a cabeça.

Ele ficou a olhar-me muito com um ar sério e infeliz. Tive vontade de dizer qualquer cousa e nada mais consegui do que sorrir. Estava fatigada.

Paulo aconselhou-me que fumasse um cigarrinho e esta idéia extravagante não me pareceu má. Fumei o meu primeiro cigarro.

Em seguida senti um vago desejo de dormir. Ele serviu o café e o licor. Fez-me tomar antes um pouco de champagne misturado com Bordeaux.

E continuamos a conversar. As recordações de antes do meu casamento vinham a todo instante.

Isto sempre teve gênio!… segredava ele, ameigando-me o queixo.

Chamava-me criaturinha má, sem coração; ameaçava-me com vingançazinhas, que se realizariam quando fôssemos casados. Tinha ditos maliciosos, palavras de sentido dúbio e olhares cheios de paixão.

Eu estendia-me cada vez mais no banco, amolecida por um entorpecimento agradável; as pálpebras fechavam-se-me. Fazia-se-me vontade de ser menos severa para com aquele pobre companheiro de infância; tanto que não me sobressaltei quando senti a sua mão empolgar-me a cintura.

– Como eu te amo! murmurou ele, com a boca muito perto de meu rosto.

O seu hálito abrasava-me as faces.

– Não faça assim: pedi, repelindo-o frouxamente.

Mas ele passou-me a outra mão na cinta e puxou-me para si.

Fiz ainda alguma resistência; sentia-me, porém, tão mole, e além disso sabia-me tanto ser abraçada por alguém naquela ocasião, que me deixei levar e cai sobre ele, com a cabeça desfalecida no seu ombro.

Paulo segurou-me o rosto e estonteou-me de beijos.

Eram ardentes, vivos, repetidos, como os tiros de uma metralhadora”.

 



 

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