Felicidade pelo casamento – conto de Machado de Assis

By | March 19, 2013

C’est une âme que son âme demande […] qui s’attache à elle avec tant de force et qui souffre avec tant de bonheur son étreinte, que rien ne puisse plus les séparer… * (nota de Machado com tradução?)

JULES SIMON

I

Acontecimentos imprevistos obrigaram-me a deixar a província e estabelecer-me algum tempo na corte. Foi isto no ano de 185… Os acontecimentos a que me refiro eram relativos à minha família, cujo chefe já não existia. Tinha eu ordem de demorar-me um ano na corte, depois do que voltaria à província.

Devo referir uma circunstância de interesse para o caso. Um de meus tios tinha uma filha de vinte anos, talvez bonita, mas em quem eu não reparara nunca, e a quem tinha simples afeição de parente. Era do gosto do pai que nos casássemos, e não menos do gosto dela. Duas ou três vezes que me falaram nisso respondi secamente que desejava ficar solteiro; não instaram mais; mas a esperança nunca a perderam, nem o pai nem a filha.

A explicação da minha recusa e do desamor com que eu via a minha prima estava no meu gênio solitário e contemplativo. Até os quinze anos fui tido por idiota; dos quinze aos vinte chamavam-me poeta; e, se as palavras eram diferentes, o sentido que a minha família lhes dava era o mesmo. Era pouco de ser estimado um moço que não comungava nos mesmos passatempos da casa e via correr as horas na leitura e nas digressões pelo mato.

Minha mãe era a única a quem tais instintos de isolamento não davam para rir nem para desamar. Era mãe. Muitas vezes, alta noite, quando os meus olhos se cansavam de percorrer as páginas de Atalá ou Corina, abria-se a porta do gabinete e a sua figura meiga e veneranda, como a das santas, vinha distrair-me da cansada leitura. Cedia às suas instâncias e ia repousar.

Ora, é preciso dizer, para encaminhar o espírito do leitor nesta história, que dois anos antes do tempo em que começa, tinha eu tido uma fantasia amorosa. Fantasia amorosa digo eu e não minto. Não era amor; amor foi o que eu depois senti, verdadeiro, profundo, imortal.

Para mostrar a graduação dos meus sentimentos depois desse episódio, e até para melhor demonstrar a tese que serve de título a estas páginas, devo transcrever para aqui dois manuscritos velhos. Cada um tem a sua data; o primeiro é uma lamentação, o segundo é uma resignação. Há um abismo entre ambos, como há um abismo entre aquele tempo e o tempo de hoje.

Eis o que, logo após a fantasia amorosa de que falei, veio achar-me a escrever minha adorada mãe.

* * *

Estou só. Ouço bater o mar que se quebra na praia a cinqüenta passos de mim. É o único rumor que nesta hora quebra o silêncio da noite. Fora desse sinto apenas o leve ruído da pena que corre no papel. Escrevo sem assunto e em busca de assunto. Que há de ser? Sobre a mesa tenho duas pilhas de livros. De um lado a Bíblia e Pascal, do outro Alfredo de Vigny e Lamartine. É obra do acaso e não parece: tal é o estado do meu espírito. Os três primeiros livros me chamam à contemplação ascética e às reflexões morais; os três últimos despertam os sentimentos do coração e levam meu espírito às mais elevadas regiões da fantasia.

Quero entranhar-me no mundo da reflexão e do estudo, mas o meu coração, solteiro talvez, talvez viúvo, pede-me versos ou imaginações. Triste alternativa, que para nenhuma resolução me guia! Este estado, tão comum nos que realmente se dividem entre sentir e pensar, é uma dor d’alma, é uma agonia do espírito.

De onde estou vejo o mar; a noite é clara e deixa ver as ondas que se vão quebrar à areia da praia. Uma vez solto onde irás tu, meu pensamento? Nem praias, nem ondas, nem barreiras, nem nada; tudo vences, de tudo zombas, eis-te aí livre, a correr, mar em fora, em busca de uma lembrança perdida, de uma esperança desenganada. Lá chegas, lá entras, de lá voltas ermo, triste, mudo, como o túmulo do amor perdido e tão cruelmente desflorado!

Ânsia de amar, ânsia de ser feliz, que haverá no mundo que mais nos envelheça a alma e nos faça sentir as misérias da vida? Nem é outra a miséria: esta, sim; este ermo e estas aspirações; esta solidão e estas saudades; esta tão própria sede de uma água que não há tirá-la de nenhuma Noreb, eis a miséria, eis a dor, eis a tristeza, eis o aniquilamento do espírito e do coração.

Que é o presente em tais casos? O vácuo e o nada; no passado o luzir leve e indistinto quase de uma curta ventura que passou; no futuro a estrela da esperança cintilante e viva, como uma lâmpada eterna. De onde estamos, um ansiar sem tréguas, uns íntimos impulsos a ir buscar a felicidade remota e esquiva. Do passado ao futuro, do futuro ao passado, como este mar que invade estas praias agora, e amanhã irá beijar as areias opostas, tal é a vacilação do espírito, tal é a vida ilusória do meu coração.

* * *

Que me direis vós, meus livros? Queixas e consolações. Dais-me escrito o que eu tenho a falar no interior. Queixas de um sentir sem eco, consolações de uma esperança sem desfecho. Que havíeis de dizer mais? Nada é novo; o que é, já foi e há de vir a ser. Destas dores sentir-se-ão sempre e não deixarão de sentir-se. Círculo vicioso, problema sem solução!

Lembrei o Eclesiastes. Que me dirá esse tesouro de sabedoria?

— Todas as coisas têm seu tempo, e todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi prescrito.

Há tempo de nascer e de morrer.
Há tempo de plantar e tempo de colher.
Há tempo de enfermar e tempo de sarar.
Há tempo de chorar e tempo de rir.
Há tempo de destruir e tempo de edificar.
Há tempo de afligir e tempo de se alegrar.
Há tempo de espalhar pedras e tempo de as ajuntar.
Há tempo de guerra e tempo de paz.

Assim fala o Eclesiastes. A cada coisa um tempo: eis tudo. Qual será o tempo desta coisa? Qual será o tempo daquela? Tal é a dúvida, tal é a incerteza.

Destruo agora; quando edificarei? Aflijo-me; quando me hei de alegrar? Semeio; quando hei de colher? Virá o tempo para isso… Quando? Não sei! A certeza é uma: a certeza do presente; a da destruição, a da aflição, a da plantação. O resto — mistério e abismo.

Não! Entre tantas incertezas, entre tantas ilusões, uma certeza há; há um tempo que há de vir, fatalmente, imperiosamente: o tempo de morrer. Nasci, morrerei. Oh, ciência humana! Entre a destruição e a edificação, entre a tristeza e a alegria, entre o semear e o colher, há o tempo que não é de uma nem de outra coisa, o tempo absoluto, o tempo que marca a todas as horas uma vida e uma morte, um vagido e uma agonia; o tempo do fim, infalível, fatal.

* * *

Do semear depende a colheita. Mas que terra é esta que tanto gasta em restituir o que se lhe confiou? Semeei. Dividi minha alma, esmigalhei a minha vida, e às mãos-cheias lancei os melhores fragmentos a esmo, na terra úbera e no chão pedregoso. Foi preciso cantar, cantei: era dócil a imaginação e eu deixei-a correr à solta; foi preciso chorar, chorei; as lágrimas podiam comprar a ventura; foi preciso confiar, confiei; a confiança prepara o coração e legitima os desejos. Mas ela, a planta desejada, por que se deteve no seio da terra?

* * *

Pareceu-me um dia vir surgindo verde, viçosa, como as esperanças de que eu então enchia a minha alma. Foi ilusão? Sonhava apenas? Foi realidade? Ela a sair e eu a fechar os olhos para a não ver logo, gozá-la toda, não vexá-la, não emurchecê-la com o meu hálito ou amofiná-la com o meu olhar sequioso. Quando os abri não a vi mais. Quebrou-a o vento. Foi simples ilusão de meu desejo? Não sei; sei que desaparecera.

* * *

Há tempo de guerra e de paz, diz o Eclesiastes.

E no meio da guerra é que melhor se apreciam os benefícios da paz.

Em peleja ando, incessante e ardente. Tréguas tenho tido; a paz não passou ainda de um sonho.

Os inimigos são aos centos. Luto pela dignidade, pela tranqüilidade, pela felicidade. Luto por essa paz benéfica, cujo tempo há de vir no tempo em que vier. O sangue esvai-se, a confiança esmorece, o valor fraqueia; mas a luta é necessária até o tempo da paz. Quando? Nada sei…

As páginas que deixo transcritas mostram bem o estado do meu espírito. Misturava-se à dor do afeto perdido uma certa ânsia de felicidade e de paz que aceitaria logo, ainda mesmo pelas mãos de outrem que não as da mulher sonhada.

O tempo trouxe a sua ação benéfica ao meu coração. Pouco depois, em uma noite de conforto, lançava eu ao papel as seguintes linhas:

Volta-se de um amor, escreve um humorista, como de um fogo de artifício: triste e aborrecido. Tal é em resumo a minha situação. E feliz o homem que, após um sonho de longos dias, não traz no coração a mínima gota de fel. Pode olhar sobranceiro para as contingências da vida e não apreender-se de vãos terrores ou vergonhosas pusilanimidades.

É certo que as naturezas capazes de resistir ao choque das paixões humanas são inteiramente raras. O mundo regurgita de almas melindrosas, que, como a sensitiva dos campos, se contraem e murcham ao menor contato. Sair salvo e rijo dos combates da vida é caso de rara superioridade. Esta glória, esta felicidade, ou esta honra, tive-a eu, que, nas mãos da mais vesga fatalidade, nada deixei do que recebi de puro e verdadeiramente perdurável.

A vida é um livro, no dizer de todos os poetas. Negro para uns, dourado para outros. Não o tenho negro; mas o parênteses que se me abriu no meio das melhores páginas, esse foi angustioso e sombrio.

Nunca entendi o livro de Jó, como então. Só então calculei que a miséria depois da opulência era um mal maior do que a miséria desde o berço.

As lamentações do filho de Hus, não só as entendi como me serviram de exemplo. Vi-o maldizer a hora do nascimento e assisti à resignação com que se lhe iluminou a alma e com que ele aceitou experiências do céu. Como ele amaldiçoei, e como ele me resignei. Aquelas páginas respiram consolações, aspirei nelas a tranqüilidade presente…

II

A viagem ao Rio de Janeiro tinha para mim um encanto; é que, embora perdesse os carinhos maternais e os passeios ao longo dos rios da minha província, vinha para uma capital desconhecida, onde, no meio da multidão, podia isolar-me e viver comigo e de mim. Os negócios de que vinha tratar dependiam de poucas relações, que eu inteiramente não estreitaria mais do que o necessário.

Fui morar em uma casa da Rua Direita com o meu criado João, caboclo do Norte, que me conhecia o gênio e sabia sujeitar-se às minhas preocupações.

A casa não era grande nem pequena; tinha duas salas, uma alcova, e um gabinete. Não tinha jardim. Ao manifestar o meu despeito por isso, acudiu João:

— Há jardins e passeios nos arredores, meu amo. Meu amo pode, sempre que quiser, ir passear pelo interior. E Petrópolis? Isso é coisa rica!

Consolei-me com a expectativa dos passeios.

Passei os primeiros dias a ver a cidade.

Vi muita gente boquiaberta diante das vidraças da Rua do Ouvidor, manifestando no olhar o mesmo entusiasmo que eu quando contemplava os meus rios e as minhas palmeiras. Lembrei-me com saudade das minhas antigas diversões, mas tive o espírito de não condenar aquela gente. Nem todos podem compreender os encantos da natureza, e a maioria dos espíritos só se nutrem de quinquilharias francesas. Agradeci a Deus não me ter feito assim. Não me detenho nas impressões que me causou a capital. Satisfiz a curiosidade e voltei aos meus hábitos e isolamento.

Dois meses se passaram sem novidade alguma. Iam bem os negócios que me trouxeram ao Rio, e eu contava voltar à província dentro em poucos meses.

Durante este primeiro período fui à Tijuca duas vezes. Preparava-me para ir a Petrópolis quando fui atacado de uma febre intermitente.

João chamou um médico da vizinhança, que me veio ver e conseguiu pôr-me são.

O Magalhães era um belo velho. Ao vê-lo parecia-me estar diante de Abraão, tal era a sua fisionomia, e tal a moldura venerável de seus cabelos e barbas brancas.

Sua presença, tanto como os remédios que me deu, serviu de curativo à minha doença.

Quando vinha visitar-me levava horas e horas em conversa, interrogando-me sobre as mil particularidades de minha vida, com um interesse tão sincero, que não me dava lugar a negativa alguma.

O doutor era um velho instruído e tinha viajado muito. Era um prazer conversar com ele. Não me contava cenas da vida de Paris, nem aventuras de Hamburgo ou Baden-Baden. Falava-me do mar e da terra, mas no que o mar tem de mais solene e no que a terra tem de mais sagrado. O doutor pisara o solo da Lacedemônia e o solo de Roma, beijara o pó de Jerusalém, bebera a água do Jordão e rezara ao pé do Santo Sepulcro. Na terra grega foi acompanhado de Xenofonte, na terra romana de Tito Lívio, na terra santa de São Mateus e São João.

Eu ouvia as suas narrativas com um respeito e um recolhimento de poeta e de cristão. O velho falava com ar grave, mas afetuoso e ameno; contava as suas viagens sem pretensão, nem pedantismo. Aquela simplicidade dava-se comigo. Tal foi o motivo por que, terminada a moléstia, era eu já amigo do Magalhães.

Entrando em convalescença, julguei que era tempo de satisfazer as visitas do médico. Escrevi-lhe uma carta, incluí a quantia que julgava devida, e mandei pelo João à casa do doutor.

João voltou dizendo que o doutor, depois de hesitar, não quisera receber a carta, mas que se preparava para ir à minha casa.

E, com efeito, daí a pouco entrava-me em casa o Magalhães.

— Então quer brigar comigo? perguntou-me ele parando à porta. Fazem-se estas coisas entre amigos?

Minha resposta foi atirar-me aos braços do velho.

— Então! disse ele; já vai recuperando as cores da saúde. Está são…

— Qual! respondi eu; ainda me sinto um pouco fraco…

— De certo, de certo. É que a doença o prostrou deveras. Mas agora vai indo pouco a pouco. Olha, por que não toma ares fora da cidade?

— Eu preparava-me para ir a Petrópolis quando caí doente. Irei agora.

— Ah! ingrato!

— Por quê?

— Mas tem razão. Eu ainda nada lhe disse de mim. Pois, meu amigo, se eu lhe oferecesse casa em Andaraí… deixaria de ir a Petrópolis?

— Oh! meu amigo!

— Isto não é responder.

— Sim, sim, aceito o seu favor…

No dia seguinte, um carro nos esperava à porta. Deixei a casa entregue ao meu caboclo, a quem dei ordem de ir à casa do doutor, em Andaraí, três vezes por semana.

Eu e o doutor entramos no carro e partimos.

A casa do doutor era situada em uma pequena eminência, onde, vista de longe, parecia uma garça pousada em uma elevação de relva.

No jardim e no interior tudo respirava o gosto e a arte, mas uma arte severa e um gosto discreto, que excluíam todas as superfluidades sem valor para dar lugar a tudo o que entra nas preferências dos espíritos cultivados.

No jardim algumas plantas exóticas e belas adornavam os canteiros regulares e cuidados. Dois caramanchões elegantes e leves ornavam o centro do jardim, um de cada lado, passando entre ambos uma rua larga flanqueada de pequenas palmeiras.

— É aqui, disse-me o velho, que havemos de ler Teócrito e Virgílio.

A casa, mobiliada com elegância, era pequena; mas tudo muito bem distribuído, tudo confortável, de modo que as paredes externas tornavam-se os limites do mundo. Vivia-se ali.

O doutor possuía mil lembranças das suas viagens; cópias de telas atribuídas aos grandes mestres de pintura, manuscritos, moedas, objetos de arte e de história, tudo ornava o gabinete particular do doutor, nessa confusão discreta que resume a unidade na variedade.

Uma biblioteca das mais escolhidas chamava a atenção dos estudiosos em um dos gabinetes mais retirados da casa.

— Agora que já viu isto tudo, deixe-me apresentá-lo a meu irmão.

E chamando um moleque mandou chamar o irmão. Daí a pouco vi entrar na sala em que nos achávamos um homem alto, menos velho que o doutor, mas cujas feições indicavam a mesma placidez de alma e qualidades do coração.

— Mano Bento, disse o doutor, aqui te apresento o sr…. É um amigo.

Bento recebeu-me com a maior cordialidade e dirigiu-me palavras da mais tocante benevolência.

Vi então que a palavra amigo era para os dois um sinal de distinção e que havia entre ambos a certeza de que quando um deles chamava amigo a um terceiro é que este o era e merecia a afeição do outro.

No mundo, de ordinário, não é assim. Hoje, mais ainda que ao tempo de Molière, é verdadeira e cabida a indignação de Alceste:

Non, non, il n’est point d’âme un peu bien située
Qui veuille d’une estime ainsi prostituée.*

III

No fim de um mês de convalescença resolvi voltar para a cidade.

Que mês aquele!

O doutor saía de manhã e voltava à tarde para casa. Durante o dia ficávamos eu e o irmão do doutor, matávamos o tempo passeando ou conversando; Bento não era tão instruído como o doutor, mas tinha a mesma bondade e afabilidade, de modo que eu sempre ganhava com um ou com outro.

À tarde quando o doutor chegava punha-se o jantar à mesa; e depois íamos ler ou passear pelos arredores.

Ainda me lembro dos passeios que fizemos ao alto da Tijuca. Às sete horas da manhã vinham dizer-nos que os cavalos estavam prontos. O doutor, eu e Bento saíamos imediatamente. Um criado nos acompanhava levando uma pequena canastra. Chegando ao termo do passeio, o doutor escolhia um lugar favorável e mandava abrir a canastra.

— É uma refeição de preparo, dizia ele.

E, debaixo de uma árvore, às brisas frescas da montanha, comíamos algumas frutas secas com vinho velho e pão.

Tendo resolvido voltar para a cidade, mesmo para adiantar os negócios que me traziam à corte, e que se achavam atrasados, dispus-me a dar parte disso aos meus hóspedes.

Era de manhã, voltava eu de um passeio à roda do jardim. Entrei pelo fundo. Na sala de visitas estavam o doutor e Bento. Ouvi-os conversar e pronunciar o meu nome. Não podiam pronunciá-lo senão em sentido favorável. Picou-me a vaidade. Quis ouvir o meu elogio na boca daqueles dois amigos, tão recentes e tão completamente amigos.

— Mas que tem isto com…? perguntou Bento.

— Tem tudo, respondeu o doutor.

— Explica-me.

— Sou, como sabes, amigo desse moço…

— Também eu…

— Mas esta amizade é tão recente que ele ainda não tem tempo de nos conhecer. Pelas nossas conversas soube eu que ele possui uma fortuna muito regular. Obriguei-o a vir para aqui. Se Ângela vier agora para casa, parecerá que, contando com o coração e a mocidade de ambos, armo a fortuna do rapaz.

— Ele não pode pensar isso.

— Sei que é uma boa alma, mas é tão mau o mundo, pode fazer-lhe supor tanta coisa…

— Enfim, eu insisto, porque a pobre menina escreveu-me dizendo que está com saudades da casa. A própria tia, sabendo disto, deseja que ela venha passar uns tempos conosco.

Nisto entrou na sala um moleque dizendo que o almoço estava na mesa.

Eu retirei-me ao meu quarto, onde o doutor e Bento me foram buscar.

À mesa, não me pude ter. Enquanto o doutor me deitava vinho no copo, disse-lhe sorrindo:

— Meu amigo, acho que faz mal em privar-se de uma felicidade que lhe deve ser grande.

— Que felicidade?

— A de ter sua filha perto de si.

— Ah! exclamaram os dois.

— É sua filha D. Ângela, não?

— É, murmurou o doutor; mas como sabe?

— Fui indiscreto, e dou graças a Deus de tê-lo sido. Não, não sou capaz de supor-lhe uma alma tão baixa; conheço a elevação dos seus sentimentos… Demais, eu já tencionava ir-me agora.

— Já? perguntou Bento.

— É verdade.

— Ora, não!

— Mas os negócios?

— Ah!

Notei que ficaram tristes.

— Pois ficarei, disse eu; ficarei ainda alguns dias. Entretanto vamos hoje buscar a filha desterrada.

Acabado o almoço mandou-se preparar o carro e fomos os três buscar a filha do doutor.

Ângela recebeu com verdadeira satisfação a notícia de que ia para casa de seu pai. Quem, ouvindo esta notícia, ficou logo carrancudo e zangado, foi um rapaz que lá encontramos na sala, a conversar com a tia e a sobrinha. Era uma dessas fisionomias que não mentem nem enganam ninguém. Respirava frivolidade a duas léguas de distância. Adivinhava-se, pela extrema afabilidade do começo e completa seriedade do fim da visita, que aquele coração namorava o dote de Ângela. Falo assim, não por ódio, como se poderá supor pelo correr desta história, mas por simples indução. Fisionomias daquelas não pertencem a homens que saibam amar, na verdadeira extensão desta palavra. Se não era o dote, eram os gozos dos sentidos, ou então simples vaidade, não faltando uma destas razões, e é essa a explicação plausível daquilo que eu já chamava namoro.

Os meus dois hóspedes conheciam o rapaz. Quando Ângela deu parte de pronta, despedimo-nos e o doutor ofereceu a casa ao namorado, mas com uma fria polidez.

Partimos.

Ângela, a quem fui apresentado como amigo da casa, era um daqueles espíritos afáveis para quem a intimidade seguia-se à primeira recepção. Era um tanto gárrula, e eu compreendia o encanto do pai e do tio, ouvindo-a falar com tanta graça, e todavia sem indiscrição nem fadiga.

A mim, tratava-me ela como se fora um velho amigo, o que me obrigou a sair da minha taciturnidade habitual.

Enquanto o carro voltava a Andaraí e eu ouvia as mil confidências de Ângela sobre os passatempos que tivera em casa de sua tia, estudava eu conversando ao mesmo tempo as relações entre este espírito e o rapaz de quem falei. Que curiosidade era a minha? Seria simples curiosidade de quem estuda caracteres ou já algum interesse do coração? Não posso dizê-lo com franqueza, mas presumo, talvez orgulho meu, que era a primeira e não a segunda coisa.

Ora, o que eu concluía era que, na vivacidade e na meiguice de Ângela, é que se devia procurar a razão do amor do outro. Os homens medíocres caem facilmente neste engano de confundir com a paixão amorosa o que muitas vezes não passa de uma simples feição do espírito da mulher. E este equívoco dá-se sempre com os espíritos medíocres, porque são os mais presunçosos e os que andam na plena convicção de conhecerem todos os escaninhos do coração humano. Pouca que seja embora a prática que eu tenho do mundo, o pouco que tenho visto, e algo que tenho lido, o muito que tenho refletido, deu-me lugar a poder tirar esta conclusão.

Chegamos finalmente a Andaraí.

Ângela mostrava uma alegria infantil tornando a ver o jardim, a casa, a alcova em que dormia, o gabinete em que lia ou trabalhava.

Dois dias depois da chegada de Ângela a Andaraí apareceu lá o sr. Azevedinho, que é o nome do rapaz que eu vira em casa da irmã do doutor.

Entrou saltitando e espanejando-se como passarinho que foge à gaiola. O doutor e o irmão receberam o visitante com afabilidade, mas sem entusiasmo, o que é fácil de entender, atendendo-se a que a vulgaridade do sr. Azevedinho era a menos convidativa deste mundo.

Ângela recebeu-o com alegria infantil. Eu, que começara o meu estudo, não perdi ocasião de continuá-lo atentamente para ver se era eu quem me enganava.

Não era.

Azevedinho é que se enganava.

Mas, e é esta a singularidade do caso, mas por que motivo, apesar da convicção em que eu estava, entrou-me no espírito certo desgosto, em presença da intimidade de Ângela e Azevedinho?

Se ambos saíam a passear no jardim, não me podia eu conter, convidava o doutor a igual passeio, e seguindo os passos dos dois, não arredava deles os olhos atentos e perscrutadores.

Se se retiravam a uma janela para conversarem sobre coisas fúteis e indiferentes, lá os seguia eu e tomava parte na conversação, tendo sobretudo um prazer especial em chamar exclusivamente a atenção de Ângela.

Por que tudo isto?

Seria amor?

Era. Não posso negá-lo.

Dentro de mim, até então oculto, dava sinal de vida esse germe abençoado que o Criador depôs no coração da criatura.

Digo até então, porque o primeiro sentimento que eu sentira por uma mulher e a que aludi nas primeiras páginas, não era absolutamente da natureza do amor que eu agora sentia.

Então, não era tanto o sentimento, como a virgindade do coração, que dava alcance à felicidade que eu almejava e à dor que sentia. O sentimento que agora se apossara de mim era outro. Dava-me comoções novas, estranhas, celestes. De hora a hora eu sentia que se estreitava o laço moral que me devia prender àquela menina.

Levantei as mãos para o céu quando Azevedinho se despediu. Ele parecia feliz, e se, amando Ângela, tinha razão de sê-lo, devia ser bem oculta a conversação dos olhos de ambos que escapasse ao meu olhar perscrutador.

O que é certo é que eu levantei as mãos ao céu quando Azevedinho saiu.

Foram todos acompanhá-lo à porta, por cortesia. Aí, o desempenado rapaz montou no alazão em que viera e desceu garboso a estrada deitando aos ares saborosas fumaças de charuto.

IV

Ditos os últimos adeuses, entramos.

Eu dei o braço a Ângela, e procurei ver se ela apresentava aquela meia alegria e meia tristeza que era própria da ocasião.

Nada disso.

Ângela, apenas voltamos costas à estrada, e atravessamos a rua que ia ter à porta da casa, encetou uma conversação sobre coisas que nada tinham, nem de longe, com Azevedinho.

A felicidade que isto me deu desviou-me da prudência com que eu sempre me houvera. Não me pude conter. Fitando nos belos olhos da moça um olhar que devia ser profundo e terno como o amor que eu já sentia, disse estas palavras:

— Oh! obrigado! obrigado!

Nisto chegamos à porta.

A moça, admirada ao ouvir aquele agradecimento e não compreendendo a razão dele, olhou para mim admirada. Ia articular alguma coisa, mas eu deixando-a entrar fui voltear a casa e procurar o meu quarto.

Não sei por que, quando me achei só, senti que as lágrimas me rebentavam dos olhos.

Amava, eis a razão. Mas, sem a certeza de ser amado, por que me consideraria feliz?

Há duas razões para isto.

Uma prova a natureza, elevada do amor. Como tinha eu um ideal, Ângela era o objeto em que o meu ideal tomava corpo. Bastava tê-la encontrado, bastava amá-la e era feliz.

A outra razão era de egoísmo. Uma vez que ela não amasse o outro, era o que eu pedia naquele instante. Que viesse a mim com a virgindade do coração, que estivesse pura do menor pensamento de amor que fosse, enfim, que eu pudesse ser o primeiro que lhe aspirasse o perfume das ilusões inocentes, tal era o meu desejo e a minha aspiração.

Duas horas estive encerrado no meu quarto. Preparava-me para sair e cheguei à janela. Ângela estava assentada debaixo de uma latada que havia ao lado da casa. Tinha na mão um livro aberto, mas via-se bem que não lia. Os olhos erravam do livro para o chão, com evidentes sinais de que lhe errava no espírito alguma coisa. Só no espírito? Não podia ser ainda no coração; era um primeiro sintoma; não era ainda o acontecimento da minha vida.

Procurei não fazer rumor algum e contemplá-la sem que ela me visse. Recuei, corri as cortinas e por uma fresta cravei os olhos na moça.

Correram assim alguns minutos.

Ângela fechou o livro e levantou-se.

Recuei mais e deixei as cortinas totalmente fechadas.

Quando voltei a espreitar a linda pensativa, vi que ela saía em direção da frente da casa, sem dúvida para entrar, visto que um mormaço de verão começava a aquecer o ar. Ao abrir o chapelinho de sol para resguardá-la do mormaço, levantou os olhos e deu comigo. Não pude recuar a tempo: ela sorriu-se e aproximando-se da janela perguntou:

— Que faz aí?

Abri completamente as cortinas e debrucei-me à janela.

Minha resposta foi uma pergunta:

— Que fazia ali?

Ela não respondeu, baixou os olhos e calou-se.

Depois, voltando de novo para mim, disse:

— Vou para a sala. Papaizinho está lá?

— Não sei, respondi eu.

— Até já.

E foi caminho.

Entrei.

Quis deitar-me no sofá e ler; cheguei mesmo a tirar um livro; mas não pude; não sei que ímã me atraía para fora.

Saí do quarto.

Ângela estava na sala, ao pé da janela, diante de um bastidor de bordar que lhe dera o tio no dia em que completou dezessete anos.

Aproximei-me dela.

— Ora viva, sr. misantropo…

— Misantropo?

A conversa começava assim às mil maravilhas. Peguei em uma cadeira, e fui sentar-me defronte de Ângela.

— Parece.

— Tenho razão para sê-lo.

— Que razão?

— É uma história longa. Se eu lhe contasse a minha vida ficava convencida de que não posso ser tão comunicativo como os outros. E depois…

Parecia-me fácil declarar à menina os meus sentimentos; entretanto, tomava-me de um tal acanhamento e receio em presença dela, que não podia articular uma palavra positiva que fosse.

Nada mais disse.

Deitei os olhos para o bastidor e vi que ela bordava um lenço.

Ficamos silenciosos alguns minutos. Depois, como fosse aquele silêncio embaraçoso, perguntei:

— Quem é aquele Azevedinho?

E firmando o olhar nela procurei descobrir a impressão que esta pergunta lhe produzira.

O que descobri foi que as faces se lhe tornavam vermelhas; levantou os olhos e respondeu-me:

— É um rapaz…

— Isso eu sei.

— É um rapaz lá do conhecimento de minha tia.

— Não entendeu a minha pergunta. Eu perguntava que opinião forma dele?

— Nenhuma: é um rapaz.

De risonho tomei-me sério. Que explicação tiraria daquela vermelhidão e daquelas respostas evasivas?

Ângela continuou a bordar.

— Por que me faz essas perguntas? disse ela.

— Ah! por nada… por nada…

Havia em mim um pouco de despeito. Quis mostrar-lho francamente.

— Ora, por que há de tomar esse ar sério?

— Sério? Não vê que estou rindo?

Devia ser muito amargo o riso que eu afetava, porque ela, reparando em mim, deixou de bordar, e pondo-me a mão no braço, disse:

— Oh! perdão! eu não disse por mal… estou brincando…

O tom destas palavras desarmou-me.

— Nem eu me zanguei, respondi.

Ângela continuou a falar, bordando:

— O Azevedinho ia lá por casa de minha tia, onde conheceu meu pai e meu tio. É um bom moço, conversa muito comigo, é muito meigo e alegre.

— Que lhe costuma ele dizer?

— Falsidades… Diz que sou bonita.

— Grande falsidade!

— Ah! também! exclamou ela sorrindo com uma graça e uma singeleza inimitáveis.

— Mas que lhe diz mais?

— Mais nada.

— Nada?

— Nada!

Ângela parecia dizer a custo esta palavra; estava mentindo. Com que fim? por que razão? Que fraco examinador era eu que não podia atinar com o motivo de todas aquelas reticências e evasivas?

Estas reflexões passaram-me pela cabeça em poucos minutos. Era preciso desviar-me do assunto do rapaz. Mas sobre que poderia ser? Eu não tinha a ciência de entreter horas sobre coisas indiferentes, em conversa com uma pessoa que me não era indiferente. Tomei um ar de amigo, e mais velho, e disse a Ângela com um tom paternal:

— Nunca amou, D. Ângela?

— Que pergunta! disse ela estremecendo.

— É uma pergunta como qualquer outra. Faça de conta que sou confessor. É simples curiosidade.

— Como quer que lhe responda?

— Dizendo a verdade…

— A verdade… é difícil.

— Então, é afirmativa. Amou. Ama ainda talvez. Se é correspondida, é feliz. Oh! nunca permita Deus que lhe suceda amar sem ser amada… ou pior, amar a quem ama a outro… a outra, quero dizer.

— Deve ser grande infelicidade essa…

— Oh! não imagina. É o maior dos suplícios. Consome-se o coração e o espírito, e envelhece-se dentro em pouco. E o que se segue depois? Vem a desconfiança de todos; nunca mais o coração repousa tranqüilo na fé do coração alheio.

— Oh! é triste!

— Deus a preserve disso. Vejo que nasceu para dar e receber a suprema felicidade. Deus a faça feliz… e ao seu amor.

E levantei-me.

— Onde vai? perguntou-me ela.

— Vou passear… Devo preparar-me para voltar à cidade. Não posso ficar aqui sempre.

— Não vá…

E fez-me sentar de novo.

— Está assim mal conosco? Que mal fizemos nós?

— Oh! nenhum! preciso de tratar dos meus negócios.

— Não quero que vá.

Dizendo estas palavras, Ângela baixou os olhos e pôs-se a riscar maquinalmente com a agulha no lenço.

— Não quer? disse eu.

— É ousadia dizer que não quero; mas cuido que é o meio de fazê-lo ficar.

— Só por isso?

A moça não respondeu. Senti que me animava um raio de esperança. Olhei para Ângela, peguei-lhe na mão; ela não recuou. Ia dizer que a amava, mas a palavra não me podia sair dos lábios, aonde chegava ardente e trêmula.

Mas, como era preciso dizer alguma coisa, lancei os olhos para o bordado; vi que estava quase completa uma inicial. Era um F. — Estremeci, F. era a minha inicial.

— Para quem é este lenço?

Ângela com a outra mão cobriu rapidamente o bordado, dizendo:

— Não seja curioso!

— É para mim, D. Ângela?

— E se fosse, era crime?

— Oh! não!

Senti passos. Era o doutor que entrava.

Recuei a distância respeitosa e dirigi algumas palavras a Ângela sobre a excelência do bordado.

O doutor dirigiu-se a mim.

— Ora, bem podia esperá-lo, disse ele. Cuidei que estivesse encerrado, e não quis incomodá-lo.

— Estive aqui assistindo a este trabalho de D. Ângela.

— Ah! bordados!

Travou-se uma conversa geral até que veio a hora do jantar. Jantamos, conversamos ainda, e recolhemo-nos às dez horas da noite.

À mesa do chá declarei eu ao doutor que iria à cidade, senão para ficar, ao menos para dar andamento aos meus negócios. O meu caboclo tinha-me trazido uma carta de minha mãe, vinda pelo último vapor, e na qual me pedia que concluísse os negócios e voltasse à província.

O doutor disse-me que fosse, mas que me não deixasse encantar pela cidade. Disse-lhe que em nenhuma parte encontrava o encanto que tinha ali em casa dele. Valeu-me a resposta um olhar significativo de Ângela e esta resposta do tio Bento:

— Ora, ainda bem!

V

Entrando para o meu quarto levava o espírito ocupado de reflexões contrárias, umas suaves, outras aflitivas.

Ao mesmo tempo que me parecia poder assenhorear-me do coração de Ângela, dizia-me, não sei que demônio invisível, que ela não podia ser minha porque já era de outro.

Esta dúvida era pior que a certeza.

Se eu estivesse certo de que Ângela amava Azevedinho, sentiria, de certo; mas o amor, apenas começado, devia ceder ao orgulho; e a idéia de que não devia lutar com um homem que eu julgava moralmente inferior a mim, acabaria por triunfar em meu espírito.

Deste modo uma paixão má, um defeito moral, traria a antiga fé ao meu coração.

Mas a incerteza, não; desde que eu entrevia uma probabilidade, uma esperança, acendia-se a paixão cada vez mais; e eu acabava por dispor-me a entrar nessa luta tenaz entre o homem e a fatalidade dos sentimentos.

Mas poderia Ângela adivinhá-lo? Aquela moça, filha de um homem sisudo, educada aos cuidados dele, mostrando ela própria certa elevação de sentimentos, e, até certo ponto, uma discrição de espírito, poderia amar a um rapazola vulgar, sem alma nem coração, frívolo como os divertimentos em que ele se comprazia?

Se por um lado isto me parecia impossível, por outro eu me recordava do muito que era e do pouco que vira; recordava-me do que comigo mesmo sucedera e desanimava com a idéia de que tão boa pérola fosse engastada em cobre azinhavrado e vulgar.

Nesta incerteza deitei-me e levei parte da noite sem poder conciliar o sono.

Uma coisa aumentou ainda a minha dúvida: era a inicial bordada no lenço e a resposta que Ângela dera à pergunta que lhe fiz a meu respeito. Duas horas bastariam para que ela se deixasse impressionar por mim? Se assim fosse, temia que o sentimento que eu lhe tivesse inspirado fosse menos involuntário do que convinha, e doía-me não ter nela uma soma igual ao amor que eu já sentia.

Resolvi todas as suspeitas, todas as dúvidas, todas as reflexões tristes ou agradáveis que me inspirava a situação, e dormi sobre a madrugada.

Dois dias depois fui à cidade.

João deu-me conta dos papéis e recados que lá tinham levado. Tomei um tílburi e andei dando as convenientes ordens para se ultimarem os negócios, visto que eram essas as ordens que eu recebera de minha mãe.

De volta a Andaraí, entrando no meu quarto, mudei de roupa e dispunha-me a escrever uma carta para o norte.

Abri a carteira e aí encontrei um lenço e o seguinte bilhete escrito em letra trêmula e incorreta:

Vai partir. Esta lembrança é… de uma amiga. Guarde-a e lembre-se eternamente de quem nunca o riscará da lembrança.

Ângela

Lendo esta carta senti palpitar-me o coração com força. Parecia querer saltar do peito onde não cabia. Era aquilo claro ou não? Ângela amava-me, Ângela era minha. Estas palavras não sei que anjo invisível mas dizia ao ouvido e ao coração.

Li e reli o bilhete; beijei-o; guardava-o, e ao mesmo tempo tornava a tirá-lo para ter o prazer de lê-lo de novo.

Finalmente, passada a primeira comoção, nasceu o desejo de ver e falar a Ângela. Saí; era hora do jantar.

Era impossível falar a sós com Ângela. Meus olhos, porém, falaram por mim, como os dela falaram por ela.

Em toda a noite não houve ocasião de falar-lhe. O doutor, sempre amigo, cada vez mais amigo, empenhou-se comigo em uma daquelas práticas cordiais em que o coração e o espírito trazem entre si os sentimentos sinceros e as idéias puras.

No dia seguinte tive ocasião de falar a Ângela. Quando nos vimos a sós, um acanhamento invencível apoderou-se de nós ambos. Depois de alguns minutos de silêncio Ângela perguntou-me timidamente:

— Que achou no seu quarto?

— Oh! a felicidade! respondi eu.

E pegando na mão da moça que tremia, disse-lhe com voz igualmente trêmula:

— Ângela, creio que me amas; eu também te amo, e como creio que se pode amar no… Diga-me? É certo que sou feliz? Sou amado?

— É… murmurou a moça deixando cair a cabeça sobre o meu ombro e ocultando assim o rosto corado pela comoção.

VI

Dois dias depois estavam ultimados os negócios que me tinham trazido à corte, e eu devia voltar no próximo vapor.

Durante esse tempo Azevedinho foi uma só vez a Andaraí; apesar do espírito brincalhão e alegre, Ângela não pôde recebê-lo com a afabilidade do costume. Isto deu que pensar ao rapaz. Olhou para mim um tanto desconfiado e saiu com a cabeça baixa.

Como estivessem ultimados os negócios fui à cidade para as últimas ordens. Estiveram em minha casa o caboclo e mais dois sujeitos. Despachei as visitas e fui escrever algumas cartas que mandei ao seu destino por João.

Esperava o criado e a resposta de algumas cartas, quando ouvi bater palmas. Era Azevedinho. Fi-lo entrar e perguntei ao que vinha.

O rapaz estava sério.

— Venho para uma explicação.

— Sobre…

— Sobre as suas pretensões acerca da filha do Magalhães.

Sorri-me.

— É intimação?

— Não, de modo nenhum; sou incapaz de fazer uma intimação que seria grosseira e mal cabida. Desejo uma explicação cordial e franca…

— Não sei que lhe hei de dizer.

— Diga que gosta dela.

— Perdão; mas por que dever lhe hei de dizer isso? ou antes, diga-me com que direito mo pergunta?

— Eu digo: amo-a.

— Ah!

— Muito…

Fixei o olhar no rapaz para ver se a expressão do rosto indicava o que dizia. Ou fosse prevenção, ou realidade, achei que aquele amor era dos dentes para fora.

— Mas ela? perguntei eu.

— Ela não sei se ama. Devo acreditar que sim; posto que nunca tivéssemos explicações a respeito. Mas a sua resposta?

— A minha resposta é pouca coisa: dar-me-ia por feliz se fosse amado por ela.

— Mas é?

— Dar-me-ia por feliz se fosse amado por ela…

— Não quer ser franco, já vejo.

— Não posso dizer mais. Para que nos ocuparemos a respeito de uma pessoa a cuja família devo obséquios, e que é, portanto, já parte de minha família?

— Tem razão.

E, despedindo-se de mim, saiu.

Acompanhei-o à porta e voltei para a sala pensando na franqueza com que aquele rapaz viera saber de mim se podia contar com o coração da moça. E por que viria? Teria arras para isso? Nova dúvida assaltou o meu espírito, e eu voltei para Andaraí mais triste do que saíra.

Ângela notou isso; perguntou-me o que tinha. Então falei-lhe francamente. Perguntei-lhe, na plena confiança do amor, se nunca tivera para Azevedinho um sintoma de afeto, um penhor que o autorizasse a deitar para ela olhos amorosos.

Respondeu-me que nunca o amara nem lhe dera lugar a fazer-lhe nascer esperanças de amor.

Pareceu-me que Ângela era sincera; acreditei.

Depois conversamos de nós. Perguntei-lhe se estava certa do sentimento que eu lhe inspirava; se aquilo não era uma simples fantasia, em que o coração não tomava parte.

A pergunta indicava a dúvida, e a dúvida não se desfazia só com a simples resposta, uma vez que Ângela quisesse mentir.

Mas eu não contava com as palavras simplesmente. Contava com o resto, com o tom das palavras, com a luz dos olhos. Olhei para ela fixamente e esperei a resposta.

— Oh! disse ela, acredito que este amor é verdadeiro. Sinto que é isto, porque nunca felicidade tamanha me abriu ao coração as comoções do presente e as esperanças do futuro.

E dizendo isto, os olhos úmidos de lágrimas de ventura, como chuva de primavera, abriram-se para fazer penetrar o meu olhar até o mais fundo do coração.

Era sincera.

Ângela continuou:

— E acredita que foi simplesmente daquele primeiro dia, o do bordado, que eu comecei a amá-lo? Não, foi desde que cheguei à casa. Foi um sentimento que nasceu em mim repentinamente: é verdadeiro, não?

Esta pergunta era feita com uma graça adorável.

Minha resposta foi um beijo, o primeiro, mas um beijo respeitoso, casto, onde resumi todas as aspirações e todos os sentimentos do meu coração.

VII

Aproximava-se o dia da partida.

Eu estava decidido a pedir Ângela em casamento. Contava com a aquiescência do pai e o agrado do tio.

O meu projeto era ir buscar o consentimento de minha mãe e voltar depois.

Ângela, a quem comuniquei isso, disse-me que não me separasse dela; que era melhor escrever à minha mãe; que ela mesma escreveria, e bem assim o pai, diante do que minha mãe não recusaria.

Não pude recusar este conselho.

Mas era preciso aproveitar tempo. Tratei de falar na primeira ocasião ao amigo doutor.

Uma tarde estávamos conversando no gabinete em que ele lia, e tratávamos exatamente da minha futura (1).

— Não pretende voltar mais ao Rio de Janeiro?

— Pretendo.

— É promessa formal?

— Olhe lá!

— Com certeza.

— Sabe que sou seu amigo?

— Oh! sei, sim!

— Ora bem!

— Sei que é amigo e vou pedir-lhe mais uma prova de amizade e confiança.

— Qual é? Quer a lua? disse-me o velho sorrindo. Olhe, não desconfie; é pura brincadeira.

— O meu pedido…

E parei.

— Ah! disse o velho, creio que não é tão fácil assim…

— Doutor, continuei eu, amo sua filha…

— Ah!

Esta exclamação era fingida; percebi-o logo.

— E quer?

— E peço-lha para minha mulher.

— Ângela já me contou tudo.

— Ah! exclamei eu por minha vez.

— Tudo. Sei que se amam. E como negar aquilo que se lhes deve? Em meus braços, meu filho!

Abracei o velho na doce expansão da felicidade que ele me acabava de dar.

Saímos do gabinete.

Ao entrar na sala encontramos três pessoas: Ângela, o tio Bento e Azevedinho.

O doutor foi ao encontro do último, que se levantou.

— Não contava com a sua visita.

— Vinha falar-lhe em um negócio sério.

— Em particular?

— Devia ser, mas creio que não há aqui ninguém estranho à família…

— Decerto que não.

E dizendo isto o velho olhou sorrindo para mim.

— Penso, continuou o rapaz, que também o sr…. é da família… pela amizade.

— É, respondeu o doutor, com sinais visíveis de aborrecimento e desconfiança.

Que quereria Azevedinho? Viria expor-se à negativa? Não esperei muito tempo. O rapaz, erguendo a voz, para que todos o ouvissem, disse:

— Sr. doutor, amo D. Ângela, e desejo recebê-la por minha mulher. Consente?

O velho ficara calado alguns segundos.

Depois, dirigindo-se à filha, disse:

— Ângela, tens dois pedidos de casamento. Acabo de os ouvir com diferença de poucos minutos.

E referiu o que eu lhe tinha dito.

Ângela, consultada, não hesitou. Declarou que seria minha mulher.

Azevedinho ficou pálido de enfiado.

— Sinto… ia dizendo o doutor.

— Oh! não há nada a desculpar. É simples: o meu rival foi mais feliz do que eu…

Despediu-se e saiu.

Restava concluir-se o meu casamento.

Eu e Ângela rimos muito do logro de Azevedinho. Era um prazer cruel que eu tinha em rir da desgraça alheia naquele momento. Como não sentiria eu se o desenganado fosse eu? A diferença está que Azevedinho não sentia nada, e perdeu a conquista como perderia uma pequena aposta.

Soube-o positivamente pouco depois.

No fim de dois meses o meu rival vencido acedera aos velhos pedidos de uma tia que possuía, ao lado de uma fortuna avultada, a mania de acreditar-se capaz de apaixonar um homem.

Tinha ela quarenta e cinco anos e era feia. O rapaz achou-a de uma beleza deliciosa e concluiu o casamento.

A fortuna que a tia, sua esposa então, conservara acumulada, passou para as mãos de Azevedinho, e saiu das mãos dele como um feixe de foguetes incendiados. Em poucos meses Azevedinho viu-se obrigado a pôr termo aos seus caprichos, a fim de salvar alguma coisa e trabalhar para viver o resto da vida.

Consta-me que se tomou um bom homem.

Quanto a mim, resolvido o casamento, tratei de escrever a minha mãe, pedindo o seu consentimento. Ângela quis a todo custo acrescentar estas palavras:

Perdi minha mãe. Quer substituí-la? — Ângela

Veio a resposta daí a um mês. Minha mãe deu o consentimento, mas pedia instantemente que eu fosse, depois de unido, viver na província.

Daí a poucos dias unia-me eu em matrimônio a Ângela de Magalhães.

VIII

Desde o primeiro dia do meu casamento abriram-se-me na vida horizontes novos. Todo o sentimento de reserva e de misantropia que caracterizava os primeiros anos da minha mocidade desaparecia. Era feliz, completamente feliz. Amava e era amado.

Quando se tratou de irmos para a província surgiu uma dificuldade: partir era deixar os dois velhos tão meus amigos, o pai e o tio de minha mulher; ficar era não acudir ao reclamo de minha mãe.

Cortou-se a dificuldade facilmente. Os dois velhos resolveram partir também.

Em chegando a este desenlace a narrativa perde o interesse para os que são levados pela curiosidade de acompanhar uma intriga amorosa.

Cuido mesmo que nestas páginas pouco interesse haverá; mas eu narro, não invento.

Direi pouco mais.

Há cinco anos que tenho a felicidade de possuir Ângela por mulher; e cada dia descubro-lhe mais suas qualidades.

Ela é para meu lar doméstico:

A luz,

A vida,

A alma,

A paz,

A esperança,

E a felicidade!

Procurei por tanto tempo a felicidade na solidão; é errado; achei-a no casamento, no ajuntamento moral de duas vontades, dois pensamentos e dois corações.

Feliz doença aquela que me levou à casa do Magalhães!

Hoje tenho mais um membro na família: é um filho que possui nos olhos a bondade, a viveza e a ternura dos olhos de sua mãe.

Ditosa criança!

Deu-lhe Deus a felicidade de nascer daquela que é, ao lado de minha mãe, a santa querida da minha religião dos cânticos.

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