Homem-drone, o exterminador – Artigo de Marcelo Rubens Paiva

By | November 2, 2013

Existem drones e drones. Alguns têm poder de fogo. Outros apenas xeretam. Tem minúsculos inspirados em libélulas, ideais para situações com refém. E tem os bombardeiros-robô operados por geeks, com nomes sugestivos: Shadow (sombra), com 14 m de envergadura, Predador, com 17 m, e Reaper (anjo da morte, ceifeiro), com 20 m.

Atrás de cada drone, existe o homem-drone, profissional com envolvimento idealizado, não físico, com o conflito a milhares de quilômetros de distância, diante de uma tela e um teclado, como passamos a maior parte do dia. Não usa capacete. Não sente cheiro de Napalm às manhãs, como Capitão Willard (Apocalypse Now).

Atrás de cada comentário da internet, também há alguém xeretando a vida alheia e sobrevoando a exposição digital em redes sociais de conhecidos ou não. Como comandante de um avião-robô, ele ou ela se senta diante da tela, faz da sua mesa uma Situation Room e sobrevoa, Page Up, Page Down, por comentários e imagens postadas.

Na maioria das vezes, ignora o que vê. Eventualmente, faz um rasante, observa melhor, vê algo suspeito e, vum, manda um míssil com um comentário bombástico, detona uma discussão, esforço de guerra também conhecido como trolagem.

Precisa ter a sua opinião formada sobre tudo publicada. Precisa que saibam que concorda ou discorda. Faz questão de postar: “Discordo!” E, se discorda muito, se sente bem quando informa: “Unfollow”. Como se quem deixa de ser seguido por alguém que nem conhece ficasse magoado e revesse suas posições. Não faça isso, “follow me” de novo, juro que procurarei me aprimorar, não posso ficar sem você “following” meus posts, sem você sou um nada, um ninguém, um mero perfil, um avatar solitário.

Na semana passada, encontrei dois sujeitos que se declararam meus seguidores. Confessaram, irônicos, como se vangloriassem, que entraram em polêmica comigo. O primeiro pelo meu blog, o segundo pelo Twitter.

Meus “followers” pediram fotos abraçados comigo. O primeiro postou e me marcou no Face no dia seguinte com a legenda: “Eu e o cara!” O cara sublinhado.

Ambos me intrigam. Por que me agrediram digitalmente, se são meus “admiradores”? “Foi uma discussão boba”, disse o primeiro. “Não fui grosso com você, só trolei”, explicou o segundo. Só? Por quê? Muitos dos caras que me detonam na rede são meus fãs?

Pensam, como na Doutrina Obama, que seus drones são armas não letais. Não querem passar em branco na vida digital do ídolo. Querem um pouco de atenção. Estão em dia com o mal humor cibernético que se espalha como uma epidemia e contamina até a imprensa. Ou a culpa é minha? Quem mandou se expor?

*

A ficção científica não é um exercício de previsibilidade. Procura imaginar um futuro estrangulado por conflitos aparentemente sem solução do presente. Busca nos nossos tataranetos, em tese mais avançados tecnologicamente, as soluções para as encrencas em que nos metemos.

Obras de ficção científica acertam e erram nas previsões. 2001 – Uma Odisseia no Espaço acertou quando mostrou que seríamos vigiados por computadores com câmeras. Mas o filme de Stanley Kubrick, baseado na obra de Arthur Clarke, previu que estaríamos dando um rolê pelo sistema solar em 2001, e que uma estação espacial seria a escala de um voo corriqueiro da Pan Am para a Lua.

Clarke era especialista. É dele conceito de satélite geoestacionário que propôs num artigo científico em 1945 para a Wireless World. Órbita geoestacionária passou a ser conhecida como órbita Clarke em sua homenagem.

Pan Am faliu, a Lua não é visitada há mais de quatro décadas, e a duras penas conseguimos manter uma equipe na órbita Clarke.

2001 – Uma Odisseia no Espaço não se preocupa com o futuro, mas com questões metafísicas que perturbam o homem tecnológico, que cruza a fronteira espacial, leva consigo o computador mais avançado e dúvidas jamais solucionadas sobre o elo perdido, a função da razão, a existência de Deus e a mortalidade.

Blade Runner, de outro especialista, Philip Dick, filmado por Ridley Scott, situa o homem numa sociedade globalizada, caótica, dominada pela estética do urbanismo descontrolado e sob as leis da biodinâmica e robótica.

Se passa em novembro de 2019 em Los Angeles. Cuja poluição melhorou em 2013, a polícia não monitora o cidadão em carros voadores (Spinner), não temos replicantes Nexus-6, da Tyrrel Coporation com vida útil de quatro anos trabalhando no espaço, nem gueixas robóticas ocidentalizadas em crise existencial, como Rachael (Sean Young). Mas todo mundo carrega uma câmera fotográfica que, além de telefone, aproxima digitalmente objetos fotografados.

Já James Cameron retratou uma sociedade dominada por máquinas voadoras do Skynet, computador espião da rede de defesa americana, que saíram do controle. A série Exterminador do Futuro lembra o que rola hoje no Oriente Médio. Não recebemos visita de androide vindo de 2029, modelo 101 – 800 da série Terminator com a cara de Arnold Schwarzenegger, ex-governador da Califórnia. Mas uma sociedade atacada por drones inteligentes que mudam a rotina de todos é a realidade entre as ruínas do Iêmen, Somália, Afeganistão e Paquistão.

Existem drones em 87 países. Até o Hezbollah os opera. Por enquanto, só os EUA e Israel realizaram ataques com eles.

A Human Rights Watch analisou seis ações de drones americanos contra alvos iemenitas. Mataram mais civis do que militantes. Um deles fez 57 vítimas. Chegaram matar um clérigo que pregava contra a Al-Qaeda. A Anistia Internacional também divulgou que uma ofensiva de drones no Paquistão matou 18 trabalhadores, inclusive uma avó de 68 anos que colhia verduras para a neta.

Pessoas comuns como em Exterminador do Futuro não conseguem mais dormir por causa do barulho incessante das máquinas voadoras. E o homem-drone fica impune, pois não se chega a um consenso se leis de guerra se aplicam em casos que uma máquina mata.

Estava na hora do 101 – 800 da série Terminator, que prometeu “I’ll be back”, reaparecer, botar ordem na casa e dar uma enquadrada na anarquia dos drones. Reais e virtuais.

Fonte: Estadão

 



 

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