Mentindo em Berlim, sem meias – Artigo de João Ubaldo Ribeiro

By | October 31, 2013

A tecnologia cibernética e a globalização dificultam muito a vida dos escritores viajantes, cujos veneráveis patronos talvez sejam Heródoto, Marco Polo e, no caso da língua portuguesa, o grande Fernão Mendes Pinto, também ingratamente conhecido como “Fernão, Mentes”. Era muito bom, quando se podiam fazer relatos assombrosos de monstros marinhos que engoliam navios inteiros sem mastigar, reis e imperadores que moravam em palácios de ouro maciço, rinocerontes voadores e portentos para qualquer gosto ou fantasia. Sumiram até mesmo os mentirosos de renome local, como os de Itaparica, hoje reduzidos a uma meia dúzia desalentada, que não pode competir com a tevê e mal reúne plateias minúsculas de dois ou três gatos-pingados, mesmo assim descrentes, desrespeitosas e contestadoras, que duvidam até de façanhas singelas, como a descrita numa das histórias contadas pelo finado Lamartine. O tocante episódio teve início quando o papagaio de Lamartine, presente da sua dele santa esposa, a também saudosa dona Naninha, fugiu de casa, onde vivia solto, poucas semanas antes de seu dono chegar à então avançada idade de sessenta anos, ocasião festiva para todos.

Para todos, mas não mais para Lamartine. O papagaio, fluente em várias línguas, cantor, imitador e assoviador exímio, cujo fino trato social se invejava até em círculos elevados, era o grande companheiro de Lamartine, parceiro de conversa e de observação do cotidiano, autor de chistes memoráveis e ditos até hoje celebrados, amigo de todas as horas. Mas, num inacreditável assomo de apunhalante ingratidão, não apareceu para o papo das cinco da manhã e, depois de toda a ilha procurar, dias seguidos, saber inutilmente de seu paradeiro, concluiu-se que havia fugido para sempre, abandonando, de maneira infame e reprovável, o amigo de tantos anos. Nem mesmo as artes sedutoras de alguma papagaia mais da pá virada podiam ser responsabilizadas, porque Jefferson, o papagaio, que por sinal era o rei do baixo linguajar, estava cansado de saber que qualquer papagaia, ou mesmo mais de uma, por mais safadinha que fosse, teria boa acolhida na casa do amigo, sem perguntas ou cobranças.

Não, não era aquilo, era ingratidão mesmo, privação dos sentidos, ou até demonstração de fraqueza de caráter e maus princípios, forçoso reconhecer. Apesar de dona Naninha ter organizado uma festança de aniversário, Lamartine fazia o possível, mas não conseguia sufocar a dor da traição. Na festa, dava um sorrisinho chocho aqui e ali, só por boa educação, e fingia contentamento, mas a tristeza era invencível. E estava assim sorumbático, encostado numa das coluninhas do alpendre, quando, bem do lado de onde sopra o apreciado vento nordeste, entre fiapinhos de nuvens alvas lá em cima e frondes de coqueiros cá embaixo, começa a ouvir-se uma espécie de crá-crá-crá longínquo, que logo se torna mais próximo, ao tempo em que, em harmonioso roteiro sobre os contornos da Ponta de Nossa Senhora, um verdadeiro esquadrão de papagaios, com um líder à frente, adeja gracioso na direção da varanda de Lamartine, cantando, em tom afinadíssimo, a música apropriada para o momento.

Sim, é o que vocês estão pensando. O irrepreensível Jefferson não desertara seu amigo Lamartine, nem tampouco se enrabichara por uma papagaia-dama, das muitas que por aí batem asas ao léu. Evidente que essas suposições eram falsas. Como pensam mal os que não conhecem a grandeza de coração e a devoção das amizades verdadeiras! Ele, sem dizer nada, para não estragar a surpresa, voara um belo dia para os matos, antes do amanhecer, a fim de realizar seu plano. Com o prestígio que tinha, não tardou a organizar um enorme coral de papagaios. E foi assim, todos ensaiados, que fizeram a revoada em torno da casa de Lamartine, cantando – adivinharam outra vez – “parabéns pra você”. Homem não chora, mas dessa vez ele chorou. E Jefferson voltou para seu poleiro, onde permaneceu até a morte de Lamartine, pois todo mundo sabe que papagaio pode viver oitenta anos, mas não resiste à morte do dono.

É triste supor que muitos de vocês, quem sabe a maioria, não acreditam nesta história. Eu acredito; era menino, quando ouvi Lamartine contá-la e, nesse tempo, essas coisas podiam acontecer. Xepa me disse que acharam uma foto de outro tatu sendo fisgado, desta vez no Baiaco. É o terceiro, só nos últimos dois anos, e há os que acreditam que a pesca do tatu será regulamentada, mais cedo ou mais tarde, com multa de tatu e taxa de tatu. Mas, mesmo que a existência dessa foto se confirme, novamente vai ser desacreditada, nestes tempos céticos de factoides, photoshop e armações na internet.

Aqui, neste quarto de hotel em Berlim, não me ocorre uma única mentirinha decente para lhes contar, sem ser imediatamente desmoralizado. Mas invoco o fantasma de Lamartine, que, aliás, viu muitos, e ele me acode. Não apareceu pessoalmente, mas acho que me soprou a lembrança de que já ouvi vários conhecidos e até motoristas de táxi exclamarem “ohne Strümpfe!” (“sem meias!”), ao perceberem que não estou usando meias. Espantam-se porque não sinto frio. É verdade, circulei uma semana inteira por aqui, encasacado, mas sem meias. Bobagem, dirão os de má vontade, também não faz tanto frio lá, nesta época do ano. Ao que retrucarei que já morei em Berlim e saía sem meias no inverno. Pronto, eis aí uma bela notícia para as páginas de ciência dos jornais: há indivíduos que não usam meias no inverno do centro da Europa sem problemas, exceto, vez por outra, serem vistos como meio grossos – e eu sou um exemplo vivo, pois até patinar descalço no gelo garanto que posso encarar. Claro, há sempre a possibilidade de algum desmancha-prazeres entre vocês querer que eu faça uma demonstração no próximo inverno, mas aí eu desconverso e nego tudo, tenho aprendido com os bons exemplos.

Fonte: Estadão

 



 

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