Mulher de Matar – crônica de Fernando Sabino

By | March 29, 2013

Olhou distraidamente para o relógio e deu um pulo na cadeira: Ih, cacilda, quatro e meia da manhã! Mais um pouco e encontraria a mulher acordada.

Enquanto a noite durasse, nada a temer. Mas não podia se deixar se apanhar na rua quando a claridade do céu começava a anunciar o novo dia. A partir de então a mulher acordava a qualquer barulhinho. Houve um dia, por exemplo, em que mal havia tirado a roupa, ouviu a voz dela lá na cama, você vai sair a esta hora? Não teve remédio senão dizer que sim, tinha de estar bem cedo no escritório. E tornou a sair, foi mesmo para o escritório, dormir no sofá da sala de espera o restinho da manhã.

— Gente, eu tenho de me mandar.

Chamou o garçom, pagou sua conta, despediu-se dos amigos que, já bêbados, nem deram por sua partida. Meio bebido, ele próprio, na rua firmou-se sobre as pernas e fez sinal para um táxi que passava.

Alguém mais se adiantou e acenou para o mesmo táxi. Era uma mulher que também acabava de sair da boate.

Pronto, pensou rápido: se perco este táxi, lá vai minha última chance de chegar ainda de noite.

Quando o táxi parou, fingiu que não via a mulher e avançou para abrir a porta. Ela também avançou, tocou-lhe o braço:

— Por favor, estou com pressa!

A voz, aflita, era educada e insinuante. Então ele reparou que era uma mulher bonita. Ainda assim resistiu: pediu-lhe também de maneira educada que o desculpasse, mas sua pressa era maior. A menos que seguissem juntos no táxi, e ele a deixaria no caminho, se é que iam para o mesmo lado. Vacilaram ambos:

— Se não se incomoda…

— Incômodo nenhum.

— Bem, nesse caso…

Estavam nisso quando surgiu um grandalhão, de terno xadrez e segurou a mulher pelo braço. Ignorou a presença dele e falou com a voz carregada:

— Eu agorra te matarr.

Notou que o homem tinha à ilharga algo avolumado sob o paletó, só podia ser revolver. E a manopla já avançando para sacá-lo.

— Não faça isso! — gritou, com a mão espalmada no ar, como um guarda de trânsito: — O senhor não pode fazer uma coisa dessas!

— O homem se voltou, como se o visse só então:

— Não poderr porr quê? Quem é senhorr?

Agora era distrair o gringo e tomar o táxi:

— Tenho mulher e filhos em casa me esperando, e o senhor quer me envolver num crime?

— Sernhor não saberr que esta mulherr fazerr comigo.

— Seja o que for, não vá matá-la, pelo menos na minha vista.

Mesmo que fosse embora, estaria envolvido: o chofer do táxi seria testemunha. E a mulher não tinha a menor reação, ia morrer sem um pio. O jeito era ficar:

— Do you speak English?

— Eu serr alemon.

— Neste caso vai em português mesmo. Vamos tomar um drinque.

Dispensou o táxi e conduziu ambos pelo braço de volta à boate.

Era dia claro quando se viu noutro táxi, em companhia da mulher e do alemão, reconciliados graças à sua intervenção. A idéia era deixá-la primeiro, para evitar que o homem, sozinho com ela, tivesse novo ímpeto homicida.

Quando ela saltou, o alemão quis descer também, foi um custo contê-lo:

— Você prometeu, Fritz.

Ela se foi, sã e salva, e os dois seguiram viagem. Ele convidou o alemão para tomar o café da manhã em sua casa — única maneira de sua mulher acreditar naquela história:

— Quero que você conheça minha mulher. Esta sim, é de matar.

Fernando-Sabino

 







 

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