Na mira – Conto de Emerson Silva

By | August 14, 2017

Sei que virarei foto. Não tenho nenhuma dúvida disso. No máximo alguma dedicatória, de um filho ou sobrinho, bordando sintaticamente a imagem de alguém que não existe mais. A escrita ao vazio confere-se de uma natureza bastante decorosa, “em memória”, “saudades eternas”, epítetos sofisticados como reza as homenagens. Irrevogavelmente, esse peito que versou quase todas as formas de vida se irá para lá. Para um ¾ das mais “sinceras” lisonjas, responsável pela produção das mais requintadas ontologias do pós-vida. Assim travestimos de poesia a celebração pela morte. A importância dos seres vivos encontrada apenas no culto fúnebre. O pastor me disse no culto, que devemos transpor para os nossos símbolos as constituições internas dos nossos sentimentos, nunca o contrário. Em minhas mãos está um dos símbolos dos meus desacontecimentos. Na mira da fotografia do meu filho permito-me a um rio de excursões e incursões no meu espírito. Nascentes e margens de caminhos que ainda me permeia de procuras.

Das poucas sucessões de fatos que cercaram a vida de Luiz de Nóbrega Silveira, carrego comigo talvez a que para mim seja a mais importante. Aquela que deteu o tempo em sua virulência desconcertante pelo crescimento, embora evidenciando a primeira forma natural do partir humano: o caminhar. A foto foi profética. Nem precisou meu filho aprender a andar direito para partir de mim. Na eminência dos seus primeiros passos, Luizinho se encontra na minha carteira, em seus um ano e três meses de vida. Frente às expressões amorosas de seus pais, a senda percorrida é muito curta: três ou quatro passos antes do tropeço, mas dentro de nós o Mistério percorria junto com os passos do meu filho, comunicando à graça que o desabrochar da vida é parte do Sagrado. Pena que seus passos foram tão curtos. Na mira da sua foto, Luizinho deixou-me carquilhado como papel de fotografia velha nos recantos do mundo.

A quadratura da imagem permeia a diástase entre tempo e eternidade. A foto tem medição bem demarcada: 10/15. Dez centímetros parecem horizontalizar minha caminhada, e quinze minha devoção. A reespacialização da crença é um fenômeno inevitável. Fora preciso Jesus falar: “que nem nos montes e nem em Jerusalém, mas em espírito e em verdade”. Essas palavras de Cristo permeiam meu exercício espiritual. A foto de Luizinho às vezes prende meu credo. Reespacializa a crença que deveria apontar para eternidade. Não há ícones no culto protestante, e nem dirijo preces a qualquer outra pessoa a não ser Jesus Cristo, mas é difícil passar um dia sequer sem mirar na carteira a única expressão material do meu ato paterno, que responsabiliza em mim uma fecunda sinergia com o Sagrado. Tenho em minhas mãos um quadrado impresso que sinaliza a contradição da vida que até hoje disputa com minha crença cristã: pais sepultam filhos.

As bordas da foto fizeram questão de se colorir com os açoites do tempo. Um amarelado tão frio quanta a alma do seu José Jorge, coveiro que me prova, embora ainda não concorde, que a morte é natural. A descoloridade daquele amarelo percorre não apenas os caminhos que circundam a imagem no papel, mas todos os contornos da minha paternidade. As cores também limitam a minha fé, por isso Deus também me dá cores. Alinhadas a um fio de penumbra que dá luz as minhas incertezas. Sobre as quais recuso a infantil elucidação do capelão do seminário:

– Caros irmãos, no mundo onde há liberdade, é inevitável a ocorrência do mal.

Meu filho não precisava morrer para eu entender isso.

A foto possui dois lados, mas só um tem imagem. É o arcano que me fez rejeitar as pueris consolações da teodicéia. Há um lado que não vejo, logo não tenho a mínima ideia do que possa ser. Meu filho foi planejado, foi gerado na estrita observância obstétrica, parturido ao som de cânticos litúrgicos, tem registro de nascimento, consagrado na igreja, mas logo atrás da sua foto está um vazio, sem som, sem cor, não há nada… Por isso, ao sair da mira de sua foto, percorro um caminho também de invisibilidade e insisto em falar com quem “naturalmente” não vejo e nem ouço, e de joelhos passo a mirar em outra imagem.

A foto do meu filho é apenas um braço de crença que me faz entender, que: o acidente de carro, o cheiro de vida nos lençóis do berço, o cartão de vacinas quase todo em branco, fazem parte de uma foto empreitada por um artista que não me revelou os detalhes do que queria. Fotografa-me assim como tirei a foto do meu filho. Delimita-me, ora colorindo-me, ora descolorindo-me, e também imprime em mim coisas que não tenho capacidade de ver. O lado abrigado por imagens que configura o outro lado das histórias que indiscutivelmente também fazem parte do que nós somos. Sou também seu filho e não saio de sua mira.




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