No Quarto da Valdirene – Crônica de Fernando Sabino

By | November 21, 2014

Mal ele entrou em casa, a mulher o tomou pelas mãos, ansiosa:

– Estava aflita para você chegar.

E sussurrou, apontando dramaticamente para os lados da cozinha:

– Tem um homem no quarto da Valdirene.

Sacudiu a cabeça com irritação:

– Desde o primeiro dia eu achei que essa menina não era boa coisa. Ela nunca me enganou.

Valdirene, a jovem empregada, uma mulata de olhos grandes, não faria feio num palco.

– Como e que você sabe? – perguntou ele, para ganhar tempo. Não partilhava da opinião da mulher: desde o primeiro dia achou que a Valdirene era ótima.

– Sei porque vi. Escutei um ruído qualquer ai fora no corredor, olhei pelo olho mágico, e vi quando ela punha ele para dentro pela porta de serviço.

– Ele quem?

– O homem. Não sei quem é, só sei que é um homem. Deve ser o namorado dela, ou o amante, tanto faz. O certo e que os dois estão trancados lá no quarto faz um tempão.

– Vai ver que já saiu.

– Não saiu não, que eu não sou boba, fiquei de olho. Esta lá dentro com ela até agora.

– E o que e que você quer que eu faça?

– Quero que bote ele pra fora, essa e boa.

– Por quê?

Ela botou as mãos na cintura:

– Por quê? Você ainda pergunta por que? Então tem cabimento a gente deixar que a empregada receba homens no quarto dela? O que e que essa menina está pensando que minha casa é? Um motel? Se você não for lá, eu mesma vou.

– Espera ai, vamos com calma, mulher. Você tem razão, mas deixa a gente raciocinar um pouco. Não podemos é perder a cabeça. Pode ser perigoso. Como é que ele é?

– Não cheguei a ver direito. Só vi que era um homem. Para mim, basta.

– Não posso ir lá no quarto dela sem mais nem menos. Quem sabe é algum parente? Um irmão, talvez…

– Um irmão, talvez… Você tem cada uma! Pior ainda: que é que um irmão tem de ficar fazendo trancado no quarto com a irmã como eles dois estão? Você tem de pôr esse homem pra fora.

– E se estiver armado? Ele pode muito bem estar armado.

– Já que você está com medo…

– Não estou com medo. Só que temos de agir com calma. Vamos ver como a gente sai dessa. Deixa comigo.

Ele respirou fundo e se meteu pela cozinha, ganhou a área de serviço, ficou à escuta. Nada, tudo quieto e às escuras no quarto da Valdirene. Bateu de leve na porta:

– Valdirene.

Via-se pelas frestas da veneziana na própria porta que o quarto continuava no escuro. Ele bateu de novo:

– Valdirene, está me ouvindo? Valdirene!

Escutou alguém se mexendo lá dentro e a voz estremunhada da moça:

– Senhor?

– Tem alguém com você ai dentro, Valdirene?

– Tem não senhor.

– Abra um instante, por favor.

Em pouco ela abria a porta, furtivamente, e o encarava sem piscar. Vestia um baby-doll pequenino e transparente que, sob a luz mortiça vinda da área, deixava quase todo seu corpo à mostra.

– Acenda essa luz, minha filha.

Mais para vê-la melhor do que para olhar o quarto, pois mesmo no escuro podia-se verificar que ali dentro não havia mais ninguém. Luz acesa, ela se protegia discretamente com os braços, enquanto ele dava uma olhada rápida por cima do seu ombro:

– Tudo bem. Desculpe o incômodo. Boa noite.

Voltou para a sala, onde a mulher o aguardava, tensa de expectativa. – E então?

– Não tem ninguém.

– Como não tem ninguém? Pois se eu vi o homem entrando!

– Se viu entrando, não viu saindo. O certo é que não tem ninguém no quarto da Valdirene, além dela própria. Vamos dormir.

– Como é que eu posso ir dormir sabendo que tem um estranho dentro de casa? Você vai voltar lá e olhar direito.

– Eu olhei direito. Se não acredita, vai lá e olha você.

– Quem e o homem nesta casa? Se você não for olhar eu não fico aqui dentro nem mais um minuto. Vou direto à polícia.

Ele ergueu os braços e os deixou cair, com um suspiro resignado:

– Essa mulher, meu Deus. Agora é você que está com medo. Direto à polícia. Como se fosse um crime… Tudo bem, eu vou lá olhar direito.

Voltou a bater na porta da empregada:

– Valdirene.

Desta vez ela respondeu logo:

– Senhor?

– Abra ai um instante, por favor.

– Sim senhor.

Ela abriu e foi logo acendendo a luz. Estimulado pela nova oportunidade de vê-la tão de perto, ele perdeu a cerimônia e entrou no quarto. Sempre de olho nela e ouvido atento à mulher lá na sala. Ali dentro só cabia a cama e o armariozinho com uma cortina, atrás da qual ninguém poderia se esconder. Ainda assim ergueu o pano para se certificar. Satisfeito, voltou-se para a moça que, ao sentir seus olhos tão próximos, abaixara modestamente os dela:

– Desculpe, minha filha. É que minha mulher, você sabe, quando ela cisma uma coisa… Mas pode dormir sossegada. Boa noite.

Na sala, a mulher voltou a questioná-lo:

– Você olhou direito desta vez?

– Não há como olhar errado. Um quarto deste tamaninho! Olhei o que tinha para olhar: a Valdirene e a cama.

– A Valdirene e a cama? O que você quer dizer com isso?

– Não quero dizer coisa nenhuma. É que ali dentro não cabe mais nada além da Valdirene e da cama.

– Não é isso que parece estar insinuando, com essa sua cara.

– Que é que tem minha cara? Você é que insinuou que tinha um homem lá dentro, não fui eu. Não me admiraria nada. Mas acontece que não tem. Só faltou olhar debaixo da cama.

– Não admiraria nada – ela o imitou, com um trejeito. E ordenou, braço estendido:

– Pois então vai olhar debaixo da cama.

– Essa não! – relutou ele: – Já disse que não cabe ninguém…

Mas acabou indo. Pobre da menina, de novo importunada:

– Me desculpe, Valdirene, mas é preciso que você abra aí outra vez. ‘

Ela acendeu a luz, abriu a porta e deu-lhe passagem. Seus olhos o acompanharam impassíveis, quando ele entrou e se agachou para olhar debaixo da cama. De quatro, sentindo-se ridículo naquela postura, ele baixou a cabeça até que a ponta do queixo tocasse o chão, e enfiou-a sob o estrado. Seu nariz esbarrou de cheio em algo branco e macio – era nada menos que o traseiro de um homem.

– Oi – assustou-se, recuando.

– Oi – fez o homem, como um eco, encolhendo-se ainda mais.

Ele se ergueu. perturbado, limpou a garganta, procurando dar firmeza à voz:

– O senhor tem um minuto pra sair deste quarto.

Um último olhar para Valdirene, como a dizer que sentia muito mas não podia deixar de cumprir o seu dever, e foi ter com a mulher na sala:

– Tinha sim. Tinha um homem debaixo da cama. Está satisfeita?

– Eu não disse? E o que é que você fez?

– Mandei que ele se pusesse pra fora. É o tempo de se vestir.

– Meu Deus, ele estava nu?

– Que é que você queria? Não sei é como ele pôde caber lá debaixo. Imagino o susto dele. E o da Valdirene, coitadinha.

No dia seguinte, mal amanheceu, ela despedia a Valdirene, coitadinha.

Texto extraído da revista “Playboy”, edição de outubro/1983. (Publicado no livro “O Gato Sou Eu”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1983, pág. 147).

Fernando-Sabino

 



 

Leave a Reply

Your email address will not be published.