O dilema de Dorinha – crônica de Luis Fernando Veríssimo

By | June 5, 2013

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, casou tantas vezes que hoje se assina “Dora Avante (preencha o espaço com letra de fôrma)”. Profundamente desiludida com o processo democrático, já que sua candidatura a vereadora no Rio de Janeiro pela corrente das Socialaites Socialistas, com o slogan “Boa de câmara”, não obteve a repercussão popular esperada, Dorinha abandonou a política e, para enfatizar a sua radical mudança de comportamento cívico, trocou de marido. Mas eis a carta.

“Caríssimo! Beijos reticentes. Meu penúltimo marido (‘último’ dá azar) me acha muito expansiva e me pediu para refrear o hábito de beijar todo mundo, inclusive o mordomo, o chofer e os fornecedores. Ele diz que a qualidade que mais preza numa mulher é a fidelidade, e eu prometi que ia tentar me adaptar a esse novo conceito. Você talvez conheça o Manuelão. Vou dar uma dica: ele não foi citado na CPI do Banestado, o que o inclui numa parcela bastante reduzida da população brasileira. Conhecemo-nos numa das festas no sítio de Kiki Cheirão de Alvitre Marzipan, née Silvá, se bem que nós todos sabemos que o acento ela botou depois. Sim, uma daquelas festas da Kiki, em que no meio da noite soltam um javali caramelado dentro do salão — e ninguém nota! O tema da festa era ‘O penúltimo baile da Ilha Fiscal’ (o último deu azar), e eu estava fantasiada de Serra Pelada. Todos diziam ‘Estamos vendo a Pelada, onde está a Serra?’. Que de bêtise! O Manuelão é muito conservador, tanto que era o único homem na festa de colete. Só de colete. Conversamos muito porque ele estava tentando perder peso e tinha lido o meu livrinho sobre dieta e os perigos dos derivados do leite, Creme e Castigo, que a Objetiva publicou com um pseudônimo. A editora usou pseudônimo. Falamos de calorias, de pelancas e, numa progressão natural, de amor e de quanto valeríamos se juntássemos nossas fortunas. Tenho terras no Uruguai, como você sabe. Aliás, papai sempre dizia que as nossas terras eram o Uruguai. O Manuelão atua no mercado de capitais e inclusive já participou de alguns dos maiores escândalos financeiros do país, embora diga, modestamente, que sempre roubou só o bastante para manter o bom nome na praça. Resultado: saímos diretamente de dentro da ‘Jacuzzi’ para um cartório e no dia seguinte participamos o casamento a nossas famílias. Eu avisei o meu marido, e ele, a mulher dele. E viveríamos felizes para sempre — o que no Brasil, como se sabe, dura pouco — se não fosse uma preocupação que, como um mosquito, não me deixa dormir.

“Acontece que, por insistência do Manuelão, tive que abandonar todos os meus amantes. Não pude conservar nem o mais antigo, o Múcio, que ainda me procurava quinzenalmente, só que não se lembrava mais para quê. Reuni todos num pequeno jantarzinho de despedida e foi então que fiquei sabendo que o que o Rubens Adão sentia era mais do que apenas atração física pelo meu dinheiro. Ele me pediu para reconsiderar a decisão de casar com o Manuelão e se declarou disposto a casar comigo, se era isso que eu queria. Ergueu-se do sofá e se afastou, e eu senti que era para esconder as lágrimas. Removi a cabeça do Múcio, que dormia no meu ombro, e fui atrás dele. Perguntei que tipo de vida poderíamos ter, casados, eu, a mulher que, segundo disse, uma vez, o Zózimo, ‘justifica uma geração, mesmo que não se saiba bem qual’, e ele, um militante do PT? Despedimo-nos naquela noite, e eu casei com o Manuelão.

“Hoje me pergunto se a minha decisão foi acertada. Amo o Manuelão. Nos divertimos muito. Fins de semana nas propriedades dele em Angra e Búzios. Cruzeiros no Caribe. Temporadas em Paris e Nova York. Mas talvez eu devesse ter casado com o Rubens Adão. Não haveria amor, mas quando vai chegando a uma certa idade uma mulher precisa começar a pensar na segurança. O que faço? Beijíssimos da tua Dorinha”.

 



 

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