Olhos cor de âmbar – Crônica de Luis Fernando Veríssimo

By | January 12, 2014

A decoração estava diferente. As toalhas eram de outra cor. Os quadros tinham desaparecido das paredes. E ele não reconhecia nenhum dos garçons.

– O que houve? – perguntou a um dos desconhecidos.

– Pardon, monsieur?

– O que houve com este lugar? Está tudo mudado.

– Não, não. Desde que eu trabalho aqui, nada mudou.

– E o Michel, que fim levou?

– Quem, monsieur?

– Michel, o garçom mais antigo daqui. Um que adora cachaça. Eu sempre trago uma cachaça para ele, do Brasil. Aliás, estou trazendo uma agora.

– Não conheço, monsieur.

– Não é possível. Será que ele se aposentou? Não tem ninguém que possa me dar notícias do Michel?

– Talvez o Gerard. Ele está aqui há mais tempo do que eu.

– Chame o Gerard, por favor.

*

Alívio! Ele reconheceu o Gerard. Já estava começando a pensar que tinha entrado no restaurante errado. E o Gerard o reconheceu. Ou pelo menos disse que sim, quando ele perguntou:

– Lembra que eu venho sempre aqui?

– Certamente, monsieur.

– E o Michel, se aposentou?

– Michel…

– Você tem que saber quem é. O velho Michel.

– Francamente, eu…

– E monsieur e a madame Geroux? Onde estão?

– Os dois morreram, monsieur.

– O quê?!E o restaurante ficou para a Lola?

Lola, a de olhos cor de âmbar. Filha do casal Geroux. Linda. Ele também sempre trazia um presente do Brasil para a Lola. Desta vez viera disposto a convidá-la a sentar-se com ele, talvez até saírem para passear na beira do Sena. Mas, segundo Gerard, Lola vendera o restaurante e fora morar em Grenoble com o marido. E já era avó.

*

De repente ele teve uma espécie de vertigem. A Lola avó? Isso queria dizer que o tempo passara mais depressa do que ele pensava. Muito mais depressa. Queria dizer que ele estava delirando, sonhando ou talvez até morto. Seria isso? Voltara ao seu restaurante preferido depois de morto só para ter aquela revelação: nosso tempo não é nosso. O tempo faz o que quer conosco e com a nossa memória, além de nos envelhecer e nos matar. Quando Gerard lhe ofereceu o menu, disse “O de sempre” e viu pelo rosto do garçom que ele não sabia o que era o de sempre. Pediu um Clos des Jacobins como costumava pedir e ouviu Gerard dizer que o restaurante nunca servira aquele vinho.

*

Na saída do restaurante, teve uma alucinação. A torre Eiffel estava pela metade. O topo da torre ruíra. Uma mensagem final do que o tempo pode fazer com o ferro, o que dirá conosco.

Via Estadão

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