Os escrúpulos – Crônica de Luis Fernando Veríssimo

By | December 19, 2013

Há dias, na sua coluna, num texto exemplar como sempre, o Zuenir Ventura lembrava que há 45 anos era assinado o Ato Institucional n.° 5, que instaurava a ditadura sem disfarces no Brasil. Congresso fechado, fim dos direitos constitucionais, censura e repressão a valer, poderes absolutos para o governo militar, e que se danassem os escrúpulos. Os escrúpulos não tinham sido suficientes para deter o golpe de 64, mas alguns ainda sobreviveram por 4 anos. O AI-5 acabou com todos. Também é bom e saudável não esquecer o clima de antiesquerdismo furioso que justificou o golpe de 64 e o golpe dentro do golpe de 68. Ser “de esquerda” era um risco, durante o recesso dos escrúpulos. Pode-se imaginar que a renúncia aos escrúpulos entre os que assinaram o AI-5 significasse um drama de consciência para alguns, mas foi a desobrigação com qualquer escrúpulo que liberou a mão do torturador. Com a “abertura” foram restituídos os escrúpulos. Hoje quem é – ou pretende ser – “de esquerda” só se arrisca a ouvir o rosnar da direita, que não parece ser preâmbulo de nada parecido com o que já houve. Mas não custa ficar de sobreaviso, né Zuenir?

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Sou um careta assumido. Tão careta que ainda uso o termo “careta”. Nunca fumei ou usei drogas e meus porres de adolescência acabaram porque o martírio das minhas ressacas era muito maior do que o prazer do porre. E… Mas espera um pouquinho. Preciso fazer uma confissão. Tomava-se muita Cuba Libre, na época, há 200 anos. Coca-Cola com rum. Ou rum com Coca-Cola, dependendo da pressa. E um dia alguém apareceu com uma novidade: desmanchar dois comprimidos de Melhoral na Cuba Libre daria um barato espetacular. Experimentei. Quem se lembra do jingle do Melhoral? “Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal”? O Melhoral desmanchado na Cuba Libre não me fez mal – nem bem. Não me fez nada. O barato desejado não aconteceu e eu nunca mais experimentei. Mas foi a coisa mais depravada que fiz na vida, se concordarmos que sonho não vale.

Tudo isso para dizer que não tenho credenciais para opinar sobre a liberação da maconha, como fez o Mujica no Uruguai. Sou um ignorante na matéria. A fumaça da maconha faz tanto mal quanto a fumaça do cigarro comum? Vicia como cigarro comum? Também dá câncer? Se já é usada para fins medicinais, também funciona para fins profilácticos? Dá mesmo um barato bom ou pertence à mesma categoria do Melhoral na Cuba Libre? Não sei. Só sei que o Mujica está fazendo um governo bacana – olha aí, eu também ainda uso “bacana” – no Uruguai, inclusive vencendo alguns escrúpulos. No bom sentido.

Via Estadão

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