Outra Carta da Dorinha – crônica de Luis Fernando Veríssimo

By | June 11, 2013

Recebo outra carta da ravissante Dora Avante. Dorinha, como se sabe, não confessa a idade mas diz ser absolutamente falso que o número do seu primeiro telefone era 2, porque o 1 era do Alexander Graham Bell.

Ela desistiu de desfilar como madrinha de bateria neste carnaval depois do lamentável incidente, ainda não devidamente esclarecido, do ano passado, quando seu tapa-sexo engatou num agogô. Dorinha ainda não sabe o que vai fazer no carnaval, só sabe que quer manter uma distância segura de qualquer desfile, inclusive porque ainda não recuperou o tapa-sexo.

Ela está até pensando em…

Mas deixemos que a própria Dorinha nos conte. Sua carta veio, como sempre, escrita com tinta lilás em papel azul, cheirando a “Oui! Oui!”, um perfume banido em vários países.

“Caríssimo! Beijos estalados, você escolhe onde. Estou num impasse. Na verdade estou numa sauna mista, o que explica a tinta corrida, mas indecisa. Ainda não decidi como fugir do carnaval. Todos sabem que já tive meus momentos de glória na avenida, incluindo a vez em que eu e o Clóvis Bornay fomos destaques juntos e ficamos presos na fiação durante meia hora, aproveitando para pôr as fofocas em dia.

Outra vez desfilei com os seios nus, com grande sucesso, mas, infelizmente, quando o público começou a gritar “O autor! O autor!”, o Pitanguy não apareceu.

Este ano, pensei em fazer um retiro espiritual. Eu e o meu ser interior temos nos encontrado pouco, no máximo um “oi” aos nos cruzarmos, e esta seria uma oportunidade para nos conhecermos melhor, fazer cobranças e estabelecer um relacionamento estável — desde que o safado não me corte o cigarro, a bebida e o sexo. Cheguei a procurar um convento para me informar sobre internamento numa cela até Quarta-Feira de Cinzas, mas não chegamos a um acordo, por detalhes. A soror não concordou com meus pedidos: uma cela espaçosa, para no mínimo 40 pessoas, pois eu levaria alguns amigos; colchões em vez de palha nas camas de pedra, uma geladeira, alguns canapês, um sonzão e um DJ.

Meu grupo, as Socialaites Socialistas, tenta me convencer a esquecer o trauma do ano passado e sair com elas, anonimamente. Todas usarão máscaras do Renan Calheiros, ninguém me reconheceria. Não sei. Ah, decisões, decisões. Um beijo da sua hesitante Dorinha.”

 



 

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