Sep 28

A rã sábia – Fábula de Monteiro Lobato

Como a onça estivesse para casar-se, os animais todos andavam aos pulos, radiantes, com olho na festa prometida. Só uma velha rã sabidona torcia o nariz àquilo. O marreco observou-lhe o trejeito e disse: — Grande enjoada! Que cara feia é essa, quando todos nós pinoteamos alegres no antegozo do festão? — Por um motivo …

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Sep 27

O Enterro do Sinhô – Crônica de Manuel Bandeira

J. B. SILVA, o popular Sinhô dos mais deliciosos sambas cariocas, era um desses homens que ainda morrendo da morte mais natural deste mundo dão a todos a impressão de que morreram de acidente. Zeca Patrocínio, que o adorava e com quem ele tinha grandes afinidades de temperamento, era assim também: descarnado, lívido, frangalho de …

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Sep 26

O baile do colibri nu – Crônica de Dalton Trevisan

SENTADINHO na escada, mão no queixo: a carinha enrugada no corpo do menino de oito anos. Em cada olhinho suspensa uma lágrima vermelha. O doutor abre a porta. Mais que o João se esforce, não acodem as pernas. — Fique sentado, rapaz. O que foi? — O juiz me chamou. Quer pensão, a desgracida. — …

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Sep 13

Verão – Poema de Gilka Machado

A Primavera veio e se foi, mas deixou tremendo em cada seio um rebento de amor. O Verão se acentua, e, de manhã, bem cedo, vêm dos silêncios amplos e sombrios dos versudos moitais, vêm do arvoredo, murmúrios macios de cicios… Há um mistério, um segredo que sai dos íntimos refolhos da alma dos animais, …

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Aug 31

Que este Amor não me Cegue – Poema de Hilda Hilst

Que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba. Que me exclua do estar sendo perseguida E do tormento De só por ele me saber estar sendo. Que o olhar não se perca nas tulipas Pois formas tão perfeitas de beleza Vêm do fulgor das trevas. E o …

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Aug 31

Poemas aos Homens do nosso tempo – Hilda Hilst

Amada vida, minha morte demora. Dizer que coisa ao homem, Propor que viagem? Reis, ministros E todos vós, políticos, Que palavra além de ouro e treva Fica em vossos ouvidos? Além de vossa RAPACIDADE O que sabeis Da alma dos homens? Ouro, conquista, lucro, logro E os nossos ossos E o sangue das gentes E …

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Aug 14

Na mira – Conto de Emerson Silva

Sei que virarei foto. Não tenho nenhuma dúvida disso. No máximo alguma dedicatória, de um filho ou sobrinho, bordando sintaticamente a imagem de alguém que não existe mais. A escrita ao vazio confere-se de uma natureza bastante decorosa, “em memória”, “saudades eternas”, epítetos sofisticados como reza as homenagens. Irrevogavelmente, esse peito que versou quase todas …

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Aug 05

A Moça que Mostrava a Coxa – Poema de Carlos Drummond de Andrade

A moça mostrava a coxa, a moça mostrava a nádega, só não mostrava aquilo – concha, berilo, esmeralda – que se entreabre, quatrifólio, e encerrra o gozo mais lauto, aquela zona hiperbórea, misto de mel e de asfalto, porta hermética nos gonzos de zonzos sentidos presos, ara sem sangue de ofícios, a moça não me …

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Aug 04

Furto de flor – Crônica de Carlos Drummond de Andrade

Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor. Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida. Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor …

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Jul 30

Vênus! Divina Vênus! – Conto de Machado de Assis

— Vênus! Vênus! divina Vênus! E despegando os olhos da parede, onde estava uma cópia pequenina da Vênus de Milo, Ricardo arremeteu contra o papel e arrancou de si dois versos para completar uma quadra começada às sete horas da manhã. Eram sete e meia; a xícara de café, que a mãe lhe trouxera antes …

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