May 03

Jogo do bicho – Conto de Machado de Assis

Camilo — ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade — ocupava em um dos arsenais do Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um amigo …

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May 03

Curta história – Conto de Machado de Assis

A leitora ainda há de lembrar-se do Rossi, o ator Rossi, que aqui nos deu tantas obras-primas do teatro inglês, francês e italiano. Era um homenzarrão, que uma noite era terrível como Otelo, outra noite meigo como Romeu. Não havia duas opiniões, quaisquer que fossem as restrições, assim pensava a leitora, assim pensava uma D. …

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Apr 19

Qualidade e quantidade – Fábula de Monteiro Lobato

Meteu-se um mono a falar numa roda de sábios e tais asneiras disse que foi corrido a pontapés. – Quê? Exclamou ele. Enxotam-me daqui? Negam-me talento? Pois hei de provar que sou um grande figurão e vocês não passam duns idiotas. Enterrou o chapéu na cabeça e dirigiu-se à praça pública onde se apinhava copiosa …

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Apr 05

O homem e a cobra – Fábula de Monteiro Lobato

Certo homem de bom coração encontrou na estrada uma cobra entanguida de frio. – Coitadinha! Se fica por aqui ao relento, morre gelada. Tomou-a nas mãos, conchegou-a ao peito e trouxe-a para casa. Lá a pôs perto do fogão. – Fica-te por aqui em paz até que volte do serviço à noite. Dar-te-ei então um …

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Apr 05

O casamento da Emília – Conto de Monteiro Lobato

Durou uma semana o noivado de Emília. Todas as tardes, trazido à força por Pedrinho, aparecia o Marquês de Rabicó para visitar a noiva, e tinha de ficar meia hora na sala, contando casos e dizendo palavras de amor. Mas apesar de noivo o Rabicó não perdia os seus instintos. Logo que entrava punha-se a …

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Apr 05

Venha ver o pôr do sol – Conto de Lygia Fagundes Telles

ELA SUBIU sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro, algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude …

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Apr 04

Uma águia sem asas – Conto de Machado de Assis

I Era uma tarde de agosto. Caía o sol, e soprava um vento fresco e brando, como para compensar o dia, que estivera extremamente calmoso. A noite prometia ser excelente. Se a leitora quer ir comigo ao Rio Comprido, entraremos juntos na chácara do sr. James Hope, comerciante inglês desta praça, como se diz em …

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Apr 04

Caseiras em vão – Conto de Machado de Assis

I Dois rapazes estão sentados a uma mesa da casa do Carceller, tomando sorvete e conversando pacificamente de vários assuntos seus. Um deles tem vinte e cinco anos; é alto; muito claro; e tem a inefável felicidade de possuir um par de bigodes compridos e encaracolados. Digo a felicidade porque ele de quando em quando …

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Mar 28

Quisera ser um gato – Texto de Ferreira Gullar

Fora os fantasmas que me acompanham e me fazem refletir sobre o sentido da vida, vivo eu, neste apartamento, com uma gatinha siamesa. Que é linda, não preciso dizer, mas, além disso, é especial: quase nunca mia e, quando soa a campainha da porta, se arranca. Nem eu sei onde ela se esconde. Ela é, …

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Mar 27

Edmundo, o Céptico – Texto de Cecília Meireles

Naquele tempo, nós não sabíamos o que fosse cepticismo. Mas Edmundo era céptico. As pessoas aborreciam-se e chamavam-no de teimoso. Era uma grande injustiça e uma definição errada. Ele queria quebrar com os dentes os caroços de ameixa, para chupar um melzinho que há lá dentro. As pessoas diziam-lhe que os caroços eram mais duros …

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