Porto Solidão – Conto de Emerson Silva

By | 28 de julho de 2017

Era dentro da tigela de biscoitos de Tia Nina que eu experenciava um êxtase desmedido. O que os meus sete anos de idade diziam sobre mim, parecia estar submerso naquelas rosquinhas amanteigadas, entremeadas em queijo do Reino. Era tempo em pausa, riso em pauta, adições de natureza. Menino oriundo dos interiores do mundo vivia sob os meus mais pertinentes subterfúgios, ou seja, vida regada ao que realmente importava.

A ociosidade da vida de criança me permitia ver o cair da noite, ainda com os céus destilando as últimas doses de seu brilho matutino. Achava engraçado estas semelhanças: o anoitecer é semelhante ao amanhecer. Vai ver o Universo seja o mesmo, com apenas dois lados de diferença. Semelhante ao exercício litúrgico de Tia Nina, ao tecer nos anversos e avessos de nossas roupas, seus bordados mais profundos. Eram dois lados costurados do mesmo vestido. Cada lado com uma peculiaridade própria, todavia pertencentes ao mesmo cetim.

Na minha observação fiel ao rito da costura, era levado mais uma vez àquele aparente Universo estático, sobretudo à forma esplendorosa com que as manhãs e as noites, mesmo sempre cotidianas, sinalavam para mim. Era como um véu, que no céu parecia querer me esconder alguma coisa. Sabia que não era Deus, quem os lençóis de luzes barrocas desejavam velar-me. Havia uma luz maior dentro de mim que LHE invocava. Maior do que a luz das velas que acendíamos. Costume Luterano que às vezes me confundia. Católicos e Luteranos acendem velas, mas com intencionalidades diferentes.

Luz, visão, dia e noite, eram coisas muito finas para minha infância. Coisas que só quando me tornei adulto aprendi a interpretar. Luz, visão, dia e noite sempre se associava à minha infância com passos. Enquanto dormia, com os meus passos atados pela dura vida difícil de criança, que come biscoito e vive olhando para o céu, ouvia sempre os passos de alguém dentro de casa. Passavam para acender e apagar a luz, passos para o trabalho, passos de quando chegavam do trabalho. Aquele barulho foi responsável por tanta coisa dentro mim. Eu passeava com meu pai e minha mãe em cada momento daqueles sons. Até ouvir o mais perfeito! Quando depois dos exatos 12 passos, contados da porta da sala ao meu quarto, a barba do meu pai encostando-se à minha bochecha, demarcava-me como sua propriedade privada através de um beijo. Já era noite. Da mesma forma que os cachos do cabelo da minha mãe roçavam em meu nariz um rito sacramental que tinha por finalidade comunicar-me a graça: “Bom dia filho, tô indo trabalhar. Fica com Deus!”. Eram os mantras que me configuravam.

Depois de alguns anos, nenhum daqueles passos ouvia mais em casa. Todos passaram a não existir. Alguns não passaram de mim ainda. É o que sinto, quando no exercício da minha devocionalidade luterana acendo as velas para orar. São apenas os meus passos que escuto pela casa, e que novamente se responsabilizam por uma centena de coisas dentro de mim. Talvez sejam estes avessos que constituem uma parte do cristianismo, os teólogos não conseguem dizer tudo, né verdade? Algumas coisas ficam dentro da gente. Esperando talvez que acendamos a vela, olhemos para o céu, costuremos, ou recebamos um beijo para que só assim emane a palavra que nos console. Em Emaús, Jesus é conhecido em um instante muito próximo de sua ausência, todavia: “Não ardia em nossos corações quando ele falou conosco aquele dia”?

Sou um porto filho das saudades. Cais que traduz as centelhas de tempo que imprime em mim o que lhe é próprio: o percurso das ausências. Em uma vontade imensa de conciliar minhas impressionantes histórias de despedidas e promessas de retorno, a um mar que pouco fala sobre mim, fazendo apenas fronteira com quase tudo que desejo. Transeunte em minha carne, navego desde transatlânticos a veleiros de papel. Permito ser tocado em um território exclusivo que só Deus tem acesso. Os passos de quem chega e sai da Igreja. De quem sai prometendo voltar, mas esquece o caminho, retalha em minha carne todas as contradições necessárias para o meu aprimoramento. É o alinhavo que preciso para me aproximar de Deus, até nas horas que penso que Ele está contra mim. Devaneio meu. Se Deus me deu lamentos, não lamento! Deus é maior que meus lamentos. Deus é maior do que eu.



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