Pós-singular, como seria viver sempre em público? – artigo de Hermano Vianna

By | August 16, 2013

Semana passada, o presidente Obama anunciou plano para tornar mais transparentes os serviços de espionagem dos EUA. Um documento com “sugestões para um maior equilíbrio entre segurança nacional e liberdades individuais” deve ficar pronto até dezembro. Não será inútil? Antes, privacidade na internet era assunto de especialistas; agora caiu na boca do povo. Muita gente perdeu a inocência e deve estar imaginando que não há volta: senha é coisa do passado. Vamos levar a imaginação a sério? Como seria viver sempre em público?

Rudy Rucker — tento sempre divulgar sua ficção científica nesta coluna — é uma das pessoas com imaginação mais fértil no mundo hoje. Ele fez o exercício para nós: seus livros “Postsingular”, de 2007, e “Hylozoic”, de 2009, descrevem um mundo onde não há trocas de informações ou mesmo pensamentos privados. A vida fica mais ou menos divertida, mais ou menos democrática? A transparência deixou de ser palavra da moda e virou condição inescapável. Qual a vantagem?

Eis o cenário de Rucker: em “Postsingular”, obviamente, a singularidade — transformação tecnológica que cria a inteligência artificial — já aconteceu. Em 2035, um programador solta na atmosfera — primeiro da Califórnia, é claro — nanomáquinas chamadas “orphids”. Elas se reproduzem automaticamente, uma em cada milímetro quadrado da Terra, formando grande rede de computação quântica, em comunicação direta com nossos cérebros, que não precisam mais de interface para interagir com bancos de dados e outras pessoas. Consequência: todo mundo pode saber tudo o que os outros seres humanos estão pensando.

Claro que tal situação é também desafio literário. Nas volumosas notas de “Hylozoic” (há ainda, disponível na web, um suculento PDF com detalhes sobre a escritura de “Postsingular” — Rucker é militante na quebra de privacidade de seu processo criativo), encontramos o seguinte dilema: “tramas dependem das pessoas iludindo ou surpreendendo umas às outras. Poderia haver intriga num mundo da informação perfeita?” A resposta é um cauteloso “talvez”. Rucker lembra que, no xadrez entre grandes mestres, capazes de deduzir com precisão o plano de seus oponentes, as partidas podem continuar emocionantes. “Se eu tenho a informação perfeita sobre todo mundo na minha vida real, e se eles reciprocamente sabem ler meus pensamentos — mesmo assim alguns desenlaces podem ser imprevisíveis.” Seu raciocínio recorre a um conto de fadas pós-singular: dois rivais cortejam uma única princesa, conhecem os planos um dos outro e podem acompanhar em tempo real o resultado de suas estratégias na mente da amada; porém, só no último segundo eles e a princesa vão saber realmente quem será o escolhido. Em outras palavras, mais bombásticas (que não sei se seriam aprovadas por Rucker): podem acabar com a privacidade, mas isso não é garantia de uma sociedade sem terrorismo.

Novos terrorismos serão criados. Logo aparecerão inteligências artificiais capazes de “crackear” a rede dos “orphids”, produzindo tipos letais de cibervírus e “malwares”, ou simplesmente bombardeando os cérebros da população com publicidade (inclusive política) não solicitada. Além disso, mesmo com auxílio de “bots”, ninguém poderá prestar atenção em tudo ao mesmo tempo. Teremos ainda que escolher as aventuras sexuais que queremos bisbilhotar. Personagens centrais no enredo de Rucker ganham suas vidas como estrelas de reality show, bem real. Quando alguém espiona suas vidas vê cada ato acompanhado pela marca flutuante do patrocinador.

(Em seu conto mais recente, publicado no final de junho a pedido do Institute for the Future (que anda estudando a “internet das coisas”), Rucker coloca em cena um sapato feminino que dedura o caso extraconjugal que sua dona está tendo. Que sina: além dos governos, nossos objetos vão espionar nossa vida. Imagine a geladeira nos dando choque, e nos denunciando para o plano de saúde a cada vez que sairmos da dieta médica.)

O sistema político pós-privacidade também é bizarramente curioso. Democracia direta radical. Cada cidadão é obrigado a votar em tudo que o congresso discute. Há dias em que são eleições, plebiscitos e impeachments por segundo. Ninguém consegue fazer mais nada. Ganha quem melhor manipula a opinião pública, que a transparência total não consegue tornar previsível.

Seres alienígenas (eles sempre existem) tentarão acabar com a imprevisibilidade do real. Thuy, a heroína viet-californiana, percebe: “O mundo está agindo como um videogame bunda-mole. É quase como se a gente tivesse sido comida pelas nanomáquinas e transformada em ‘sims’”. O mal vence? Não estragarei a surpresa de ninguém. Mas posso garantir: o final é imprevisível.

 



 

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