Quando soubemos que era câncer – conto de Carlos Vitor de Castro

By | June 28, 2013

SK tinha problemas para fazer cocô, ela dizia que era um problema normal resolvido com os remédios de sempre. Lembro-me de uma vez em que tive um problema parecido e pedi (já que ela era hipocondríaca) um remédio para resolver e ela perguntou: “a quantos dias?”. Ela sabia lidar e sabia até qual o tipo de remédio para cada tempo sem ir ao banheiro. Uma especialista.

SK passou mais uma vez, por um período sem ir ao banheiro, era fácil de se notar porque depois do terceiro dia de agonia o humor começava a mudar e quando um destes remédios fazia a coisa funcionar, comemorávamos. Mas desta vez não houve comemoração.

SK anunciou que o problema estava ruim de se lidar, já haviam passado alguns dias e nenhum dos remédios miraculosos havia resolvido o problema, era hora de falar com o clínico, um Telles da Cunha (nunca mais vi Teles com dois Ls) e ele recomendou um exame invasivo e desconfortável, colonoscopia. Ai começa o terror da doênça. Era o Telles da Cunha quem analisava todos os exames de SK, por que mandar os resultados para o Guarisch que era oncologista?

SK tinha médicos de todas as especialidades, este era o oncologista/cirurgião. Guarisch com seu bom humor e suas metáforas sem sentido era O novo personagem na nossa tragédia pessoal. Achou que o problema poderia ser uma espécie de “bloqueio” por falta de uso (sei o nome da coisa, mas fica muito chato escrever), e recomendou: cirurgia para resolver tal bloqueio.

SK passou por tal cirurgia invasiva e desconfortável que deveria ser apenas isso, invasiva e desconfortável, mas foi interrompida quando nosso cirurgião/oncologista percebeu que o problema era muito maior.

SK iria sofrer a cirurgia das 22:00 às 24:00 no Copa Dor. Morávamos então no Humaitá e resolvi ir para casa e tomar 4 mg de rivotril para conseguir dormir e voltar ao hospital pela manhã, não consigo dormir com qualquer tipo de tensão e o santo rivotril é nocaute certo para mim.

SK ainda estava apagada as 3 da manhã quando Guarisch, nosso cirurgião/oncologista me ligou e disse que a situação havia se modificado. Levei uma bronca por não estar no hospital e soube que SK tinha câncer no peritônio. As três da manhã com o cérebro tomado pelo vapor do rivotril e sem entender exatamente a gravidade, voltei a dormir. Quando acordei pela manhã passei por dois segundos de tranquilidade imaginando que tudo havia sido um pesadelo.

SK recebeu minha ligação às 9 da manhã, nesta hora eu não sabia se nosso cirurgião/oncologista lhe havia dado a notícia. SK, como não era seu costume, cortou todos os salamaleques de casal em seu bom dia matinal e me avisou que sabia que estava com câncer e quis saber naquela hora se eu iria brigar junto com ela. SK sempre foi independente, foi morar no México com 17 anos e voltou para o Brasil com 25, mas naquela hora ela queria saber se podia contar com o companheiro.

SK ouviu minha resposta mas tenho certeza que ela sabia que era a resposta automática que qualquer companheiro daria, de qualquer forma ela precisava daquilo. Com o tempo ela viu que nós brigaríamos juntos até o final.

 



 

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