Recaída – Crônica de Luis Fernando Veríssimo

By | September 22, 2013

Fonte: Estadão

A proposta era simples. Cláudia acompanharia João Carlos numa visita à casa dos seus pais, na cidadezinha onde nascera, e seria apresentada como sua namorada. Alguém o tinha visto no Rio e chegara à cidadezinha com a notícia de que ele era gay. Ele precisava provar que não era gay.

Mas você não tem uma namorada de verdade? – perguntara Cláudia

– Por que eu?

Porque eu sou gay. Não tenho namorada. Tenho namorado. O nome dele é Roni. Não posso aparecer lá com o Roni.

Mas ninguém liga pra isso, hoje em dia. Liga?

Na minha cidade, na minha casa, ligam.

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Cláudia hesitara. Quase não conhecia João Carlos. A ideia de passar o Natal e o ano-novo com um quase desconhecido, na casa de uma família totalmente desconhecida, numa cidadezinha inimaginável, não a atraía. Se bem que… Poderia ser divertido. O João Carlos não era antipático. E os dois se fingindo de namorados, enganando todo o mundo… Ela não tinha outros planos para o fim do ano. Nenhum desfile agendado. Seria divertido. Topou.

No aeroporto, antes de embarcarem, João Carlos se despediu de Roni com um beijo prolongado e disse para ele não se preocupar.

Não vá me ter uma recaída… – disse Roni, indicando Cláudia.

Pode deixar – disse João Carlos. – Não há perigo.

Os três riram muito.

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Ao churrasco na casa dos pais de João Carlos, na primeira noite, veio gente de toda a região, parentes e amigos e até alguns que ninguém conhecia, para ver a namorada carioca. A notícia de que Cláudia era, além de carioca, uma bela mulher, uma modelo, se espalhara rapidamente e todos queriam vê-la, e ouvi-la, e dizer “O Joãozinho, hein? Quem diria”. Os dois tinham dormido em quartos separados, João Carlos no seu quarto antigo, Cláudia com a irmã dele. A mãe do João Carlos, que via novela e sabia que aquilo era comum, não se importaria se os dois dormissem juntos, mas “O seu pai, sabe como é…”. Eles sabiam como era. Não dormiam juntos, mas passavam o tempo todo se acariciando e se beijando, em casa e na rua. Provando para a cidade inteira que aquele boato de que o João Carlos tinha desandado no Rio era invenção, pura invenção. Gostava de mulher. E, a julgar pela Cláudia, gostava de grandes mulheres!

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Foi na noite de ano-bom, depois de muito frisante no clube, depois de se abraçarem e se beijarem apaixonadamente à meia-noite para todos verem, que os dois chegaram em casa e não foram cada um para o um quarto, foram para o quarto do João Carlos, quem diria, onde se amaram durante toda a madrugada, tentando não fazer muito barulho. E de manhã, suas pernas ainda entrelaçadas com as de Cláudia, João Carlos lamentou o acontecido, e disse “Bem que o Roni me avisou…”, e a Cláudia beijou a ponta do seu nariz e disse: Pronto, pronto.

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Voltaram para o Rio no dia 2, o João Carlos silencioso no ônibus e no avião, com cara de culpa, depois de pedir à Cláudia que em hipótese alguma comentasse a sua recaída para quem quer que fosse senão o Roni ia acabar sabendo, e a Cláudia silenciosa, com o secreto orgulho de ser tão desejável, tão mulher, que provocara a recaída fatal do João Carlos, depois de prometer que não contaria nada a ninguém, que aquilo ficaria entre os dois, só entre os dois, para sempre.

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Ainda ontem a Cláudia encontrou o Roni e perguntou pelo João Carlos e o Roni disse:

Quem?!

O João Carlos. Seu namorado.

Ah, é. Está bem. Muito bem. Quer dizer. Olha aqui… Esse negócio de namorado…

Você também mal conhecia o João Carlos. Não é?

É. Eu…

Ele pediu para você fingir que era o namorado dele.

É

O seu nome nem é Roni.

Não.

Cláudia sorriu. Pensando: se o João Carlos tivesse me pedido, honestamente, sem mentir, sem encenação, topa ou não topa, eu teria topado?

Provavelmente não. Uma mulher como eu? Provavelmente não.

O falso Roni tinha chegado mais perto e estava dizendo:

Olha, eu também não sou gay. E se quiser, posso provar.

Cláudia se afastou, ligeiro. Pensando: ô raça, essa masculina!

 



 

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