Republicanos: os homens-bomba da América – Artigo de Arnaldo Jabor

By | October 15, 2013

Estamos vendo hoje a loucura da América republicana. Eles topam destruir o país para impedir um bom governo para o Obama. Os republicanos estão provando que são os homens-bomba americanos. Morrem junto com o calote da dívida, com a crise profunda que estão programando, mas nem se tocam. Não conseguem aceitar o plano de saúde, uma espécie de SUS, o “Obamacare”, para proteger 30 milhões de americanos que não têm seguro-saúde.

Eu já morei nos EUA, antes dos anos 60, no coração da “América profunda”, na Flórida, e vi como o americano médio tem a “alma republicana”. A cidade era igual aquela do Truman Show. As ruas, pessoas, rituais, sorrisos e lágrimas, tudo parecia programado por uma máquina social obsessiva. A vida e morte eram padronizadas, previstas: abraços gritados, roupas iguais, torcidas histéricas no beisebol, finais felizes, alegrias obrigatórias, formando uma missão comunitária cheia de fé, como um carrossel de certezas girando para um futuro garantido. A violência dos alunos me assustava. Eu era um “nerd” comprido e meio bobo nos meus 15 anos de virgindade, e me chocava com as botas de cowboy marchetadas de estrelas de prata, as facas de mola (“switch blades”) de onde a lâmina pulava, os casacos de couro negro que já vestiam a chamada “juventude transviada”, uma rebeldia reacionária e “republicana” dos anos de Eisenhower. Vi brigas de ferozes galalaus se arrebentando até o sangue no focinho e o desmaio, onde nem os diretores do colégio podiam interferir, pelo sagrado direito da porrada, na cultura de vaqueiros e pioneiros. Não havia espaço para dúvidas naquela cidade, mas dava para sentir que aquela solidez de certezas, se rompida, provocaria um grave desastre.

Os ídolos da época eram Elvis Presley rebolando na TV e James Dean, cadáver presente nos gestos e roupas. Pairava um clima de intolerância entre os próprios brancos; eram os fortes contra os fracos, eram as meninas bonitas contra as feias, eram as sérias contra as “galinhas”. Eu, turista tropical, era um tipo misterioso; tímido, fraco, mas, como era estrangeiro e falava bem inglês, provocava um respeito cauteloso e os machões me poupavam por minha habilidade em dar-lhes “cola” em “spelling”, soletrando palavras de raiz latina que, para eles, eram enigmas.

Algumas meninas saíram comigo para beijos na boca e nada mais, claro. Mas, Brenda, mais pirada e sexy, me largou e sumiu com Warren Caputo, italiano que tinha um “hot rod” com pneus de trator. Eu não era “legível” para eles. Eu navegava naquela cultura obsessiva e, bem ou mal, conseguira namorar Melinda Mills, loura pálida, filha de um “ex-marine” que estivera no Rio durante a guerra e que me mostrou um cartão postal do Mangue, onde ele certamente conhecera a Zona e as polacas. Melinda me amava, ela também frágil e boba, e nos beijávamos no cinema onde assistimos An Affair to Remember – lembro-me.

Mas, havia uma outra América dentro da cidade: os negros. Eles passavam de cabeça baixa, o rosto torcido de humilhação, num ódio sufocado e inútil. Amontoavam-se no fundo dos ônibus, em pé, mesmo com os carros vazios e moravam num bairro de madeira e terra, perto do braço de mar onde os barcos pesqueiros de camarão fediam. Aquela injustiça me espantava pela falta total de compaixão, eu que vinha de babás negras me beijando, eu que amava as mulatas cariocas lindas que já povoavam meus desejos aos 15 anos. Eu só via gente negra moldada pelo sofrimento e exclusão, disformes, deprimidos, frágeis mulheres engelhadas, jovens pretos trêmulos e esfarrapados. No ônibus amarelo do colégio, meus colegas louros, ruivos e brutos berravam contra os negros que passavam: “Hey, ‘nigger’, por que teu nariz é tão chato? Hey, ‘nigger’, por que teu cabelo é pixaim?”. Depois, na época da “integração racial”, vi os mesmos negros sendo espancados pela ousadia de se banhar em piscinas públicas, onde aqueles brancos do meu passado jogavam ácido para queimá-los.

Eu tinha medo era dos brancos.

Até que, um dia, chegou a notícia devastadora. Tinha subido aos céus o satélite russo, o “Sputnik”, girando como uma bola de basquete em órbita da Terra. Pânico na cidade. Desde 49, quando a Guerra Fria começou, com a explosão da bomba H pelos soviéticos, destronando a liderança dos destruidores de Hiroshima, os americanos esperavam outra catástrofe que viria quase como um filme de ficção cientifica como a A Invasão dos Feijões Gigantes. Em minutos, a cidade parecia um campo de refugiados, de perdedores, com cabeças inchadas, humilhados pelos comunistas invasores. No colégio, começaram “fire drills” incessantes, alarmes evacuando os alunos para porões e abrigos atômicos. O então senador Lyndon Jonhson berrou: “Brevemente estarão jogando bombas atômicas sobre nós, como pedras caindo do céu…”

No alto, o satélite Sputnik humilhava os americanos, com seus “bip bips” como gargalhadas de extraterrestre. A partir desse dia, lá em baixo, na cidadezinha da Flórida, eu mudei. Não para mim, mas para os outros.

Os colegas porradeiros me investigaram com perguntas: “Que você acha? Teu país gosta dos russos?”. Eu tremia e escondia minha vaga admiração juvenil pelo socialismo. Eles me olhavam desconfiados: brasileiro, latino, sabe-se lá? Depois disso, não me pediam mais cola de palavras, mal me olhavam. O pai de Melinda, putanheiro do Mangue, não me cumprimentou de sua poltrona esfiapada. Melinda ficou mais pálida e nosso namoro definhou. Há muitos anos, eu vi o “choque e pavor” da América profunda. Essa era a época da chamada “silent generation”, passiva e ignorante. Sua reação é a mesma dos fundamentalistas do “Tea Party” hoje. Sempre que algo acontece fora de seu controle, eles bloqueiam o presente e querem voltar ao passado. São mais perigosos que os islamitas guerreiros, que explodem trens e aviões, mas não destroem a economia mundial por rancor, vingança e racismo, como os pequenos canalhas que humilhavam os negros na Flórida quando eu apareci por lá. Vamos aguardar os idos de novembro, quando uma nova recessão pode ameaçar o Ocidente.

Fonte: Estadão

 



 

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