Se eu fosse Deus – crônica de Luis Fernando Veríssimo

By | August 4, 2013

Eu gostaria de ser Deus não para consertar o mundo ou melhorar a humanidade, mas, confesso, para um fim menos nobre: conseguir mulher.

Posso imaginar como seria ter ao meu dispor todos os recursos de Deus para impressionar uma mulher. A começar pelo seu espanto ao saber da minha identidade. (Ela: “Você quer dizer Deus, Deus mesmo?! O Cara?!” Eu: “É”. Ela: “O Todo-Poderoso?!” Eu, para mostrar, além de tudo, simplicidade: “Sim, mas pode me chamar de Todo”.)

Eu não a convidaria para jantar, apenas. Mandaria um anjo fulgurante convidá-la para jantar comigo, no meu apartamento celestial ou no restaurante da sua predileção. Onde já começaria a mostrar os meus poderes, pedindo mineral sem gás e transformando-a não apenas em vinho, mas num Chateau Petrus 82.

Conversaríamos sobre banalidades:

Ela: “Deve dar trabalho, ser Deus.”

Eu, modestamente: “No começo, foi difícil. Tive que fazer tudo sozinho, do nada. Desde então, só dou retoques”.

Depois do jantar Eu a convidaria para ir ver o eclipse da Lua do meu terraço à beira-mar.

— Mas hoje não tem eclipse da Lua!

— Quer apostar?

Quando ficássemos mais íntimos, e ela mais crítica, Eu faria tudo que ela pedisse.

— Terremoto…Precisa ter?

— Está bem. Não vai mais ter terremoto.

— Dá para acabar com a má fase do São Paulo?

— Vamos ver o que se pode fazer.

Eu não lhe mandaria bilhetes amorosos, mandaria tábuas gravadas amorosas, entregues por profetas barbudos, junto com flores — todos os dias.

Presentes de pedras preciosas? Por que ser sovina e não lhe dar, logo, uma mina de diamantes?

E se, com tudo isso, Eu não a conquistasse, me restaria um último recurso: refazer-me completamente, do barro. Seguindo as suas instruções.

— Sem barba. Outro nariz. Mais alto…

 



 

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