Ser moderno – Artigo de Vinícius de Moraes

By | January 31, 2014

Saía o Sol sobre a Terra quando Lot entrou em Zoar. Então fez o Senhor chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. E subverteu aquelas cidades e toda a campina, e todos os moradores das cidades, e o que nascia da terra. E a mulher de Lot olhou para trás e converteu-se numa estátua de sal.

O grifo é meu e o texto está no Gênese, o primeiro livro de Moisés. O episódio bíblico constitui também, provavelmente, o primeiro caso psiquiátrico de neurose do passado. A mulher de Lot fora instruída a não olhar para trás, a andar a monte com seu marido e suas duas filhas, para não perecer no castigo imposto pelo Senhor à cidade de Sodoma.

– Quem mandou se meter a fogueteira? – diria um psiquiatra rnoderno da escola kleiniana. Não há que olhar para o passado. O passado é a neurose. O futuro é que conta.

– Então – perguntaria eu, bronqueado – por que é que você está usando uma expressão tão fora de época como “se meter a fogueteira”?

Aí o psiquiatra me explicaria que se tratava de uma expressão usada por sua avozinha, a única pessoa que conseguiu, com muito amor e paciência, corrigi-lo do hábito de fazer pipi na cama até os dez anos; mas que as pessoas projetadas para o futuro é que são isentas de neuroses.

– Feito os cosmonautas? – indagaria eu, meio preocupado com a lavagem cerebral indispensável ao equilíbrio neuropsíquico dos invasores do Cosmos.

– É, mas ou menos… – responderia o nosso amigo, com ar de quem não quer levar a discussão adiante.

Aí… – aí, pombas, cada um iria para a casa de sua mãe, mesmo porque a conversa já estava ficando com um certo ar de crônica de Art Buchwald, como está tão em moda.
É, velhinho… Que fazer? Dar uma de moderno, sair por aí, de calça vermelha ou azul-turquesa, camisa de florzinha e corrente com medalhão ao pescoço, puxando um fumo (1) honesto, e depois ir esticar com uma percanta (2) no Varanda, pra biritar (3) umas e outras? Ou assumir a vida, a experiência, o passado?

– Escuta, bicho, você tá por fora… Falar umas e outras já saiu do ar. Não vá me dizer isso no Veloso… A turma te dá uma buzinada. O último cara que falou assim foi o Chico Buarque, morou?

– Que é que tem o Chico? Eu acho o Chico, um sujeito por dentro, um compositor todo bom, cheio de sentimento…

– Sentimentos? Mas que é isso, bicho? Que coisa mais antiga… Quem tem sentimento é guia de cego. O negócio é entrar na onda (4). Você está em outra (5). Leia Marcuse e Norman Mailer e atualize seu repertório (6). Deixe o espírito vagar. Tem que ter plá (7).

Tem que ter plá, ouviram bem? Ser moderno é achar que a história começa com os Beatles e termina com os hippies. Depois disso, não há mais nada a fazer. É ir levando, entrar em órbita (8), canear (9) por aí com umas grinfas (10) bem xués (11), que é pra não dar dor de cabeça. É o sideral (12). O negócio é muita bolinha (13), muita tia-branca (14), muito LSD ou qualquer outro psicotrópico que dê um barato (15) firme. É de lei!

Realmente, a que se pode aspirar, depois de atingir a categoria hippy? O hippy é, no fundo, tão velho e sem perspectiva quanto um embaixador que caiu na compulsória. É um jovem que pediu aposentadoria da vida, motivado, é claro, pelos mais nobres sentimentos. Tudo, menos o trabalho burguês. Amor, não a guerra. Sexo livre, ambidestro e descompromissado. Desligamento total dos laços tradicionais de família. “Familles, je vous hais; foyers clos, portes renfermées, possessions jalouses du bonheur!” (16) – como já disse André Gide, esse Marcuse avant la lettre, esse velho hippy formalista, que viu Verlaine bêbado na rua sendo apupado e maltratado por um bando de colegiais, e optou por não socorrê-lo para não intervir no curso do seu destino.

E há – importantíssimo! – o problema “acústico”.

– Que é que você achou da mulher americana, Miltinho?

– Humm… Não tem som (17).

Tem que ter som, ouviram, ó mulhas? (18). Não basta ser dondoca bonérrima, ter curso de psicologia na PUC, ser aprendiz de guerrilheira ou dona de boutique, assistente social ou bandida (19), grã-fina ou grã-grossa. O negócio é o seguinte: tem que ter som. Perguntem aos músicos mais pra frente (e perdoem se esta expressão tiver sido excomungada ontem no novo Zepelim).

– O Sérgio Mendes? Ih, bicho… já deu o que tinha dar. O som já não é mais aquele, morou? Muito comercial, muito pra gringo. Não dá mais pé. Agora: você já ouviu uns garotos que estão com um conjunto de cavaquinhos e gaitas eletrônicas? Velhinho, aquilo é que é som.

Resultado: andam os músicos a experimentar, dia e noite com seus conjuntos, à cata de um som: um como aquele que conduziu Sérgio Mendes ao auge do faturamento.

– Não, ô cara, a poesia não deixa de ter sua importância na canção, se o infeliz não me vier de amor – saudade – tristeza – coração – luar. Agora: importante mesmo é o som. A letra tem que interpretar o momento presente, aproveitar das novas estruturas, das novas formas, dos novos materiais, da nova linguagem publicitária de nossa sociedade de consumo. Tem que passar sinteco no samba.

– Mas… e o Tom?

– Bem… o Tom é grande, mas já está ultrapassado. Deu uma de coroa (20). Poxa, gravar com o Sina (21), um velhunco, um tremendo matusa (22). Não, bicho, eu estou em outra…

De maneira, arcaico leitor, que o seguinte é o que se segue; e o que se segue é a realidade; e a realidade é um fato; e fato é o que eu vou lhe provar agora: para ser moderno, você tem que estar na deles. Estando com eles, está com Deus. Você tem que usar calças Lee, de preferência desbotadas e puídas nos joelhos (camisas Lacoste é pra granfunço); tem que estar por dentro de blá(23) de malandro e gíria de barbudo de Ipanema; tem que fazer a ponte Zepelim-Varanda, e de vez em quando dar uma de Degrau; tem que discutir cinema novo, e sobretudo Gláuber; tem que saber queimar-o-pé (24) e entrar no embalo-7 (25) com birita de pobre: uísque é pros Onassis da vida; ou estar a balão (26) sempre que puder, puxando seu charo (27) em companhia de uma grinfete (28) super, levando o seu (29) com aquela disponibilidade; mas também sabendo quebrar um pau (30) quando o negócio estiver mais pra fezes (com perdão do eufemismo) que pra mousse de chocolate; tem que gostar de Gal Costa (sem que isso tenha nada a ver com o fato de ela ser uma excelente cantora) e Caetano Veloso (idem para o grande compositor), e tem que achar o Chico um ótimo letrista mas um músico meio devagar; tem que considerar o Chacrinha um gênio, inteiramente dentro do contexto, que é cafono por natureza: (Isso é que é tropicalismo, morou, ô infeliz?); tem que encarar de ver em quando umas patuleiras do asfalto (31), e se mandar pra Barra no carango (32), a mil; tem que, pelo menos uma vez por ano, fundir a cuca (33) e ir misturar as estações (34) numa clínica de repouso, e fazer uma sonda (35) seguida de uma psicoterapia de apoio – dá um pé bárbaro!

É isso que você tem que fazer, execrável leitor, se quiser ser moderno. Pergunte a esse grande ator Hugo Carvana, que me forneceu muitos dos elementos que estão aqui. O resto é papo furado. Se você não estiver nessa nunca vai ser um praça-boa, uma pedra-90 (36). Senão, bicho, quando você for buscar o milho, eles já fizeram a pipoca. Em rio que tem piranha, mosquito não dá rasante. Quem se mete a avestruz tem que agüentar o ovo. Ou como diz o fotógrafo filósofo e gentleman tijuco-ipanemense Paulinho Garcez: “Ajoelhou, tem que rezar!”

* P.S. Para os que estão mais por fora que marido enganado, fiz um pequeno glossário. Se quaisquer outras dúvidas ocorrerem, consultem o jovem super ao seu lado.

E por falar nisso: pode haver nada mais velho do que o novo?
1 – fumando maconha;
2 – mulher, garota que se namora;
3 – bebiba alcoólica;
4 – assumir o moderno, com tudo o que ele implica;
5 – ser antigo, ou quadrado;
6 – a súmula do linguajar moderno;
7 – substrato, bossa, espírito;
8 embriagar-se com drogas;
9 – beber;
10 – mulheres, garotas do mesmo naipe;
11 – malucas;
12 – embriaguez específica por drogas ou psicotrópicos;
13 – excitantes medicamentosos em pílulas;
14 – cocaína;
15 – corruptela de baratino: o mesmo que o item 12;
16 – “Famílias, eu vos odeio; lares fechados, portas trancadas, possessões ciumentas da felicidade”; 17 – musicalmente, o correspondente a plá, qualidade sonora, bossa, inventiva, expressão;
18 – corruptela de mulher em gíria;
19 – mulher ou garota de vida fácil, sem chegar a ser uma prostituta: diz-se também vadia;
20 – quarentão;
21 – Sinatra;
22 – corruptela de Matusalém; velhíssimo, ancião;
23 – papo, conversa;
24 embriagar-se;
25 – embriagar-se muito; também se diz encher a cara;
26 – inebriar-se com drogas ou psicotrópicos; estar suspenso no ar;
27 – corruptela de charuto; cigarro mais grosso de maconha;
28 – diminutivo de grinfa (ver no 10), broto, lolita;
29 – contando suas histórias, levando o seu papo;
30 – brigar fisicamente;
31 – prostitutas perambulantes, como se vê ao longo das praias;
32 – automóvel de preferência velho;
33 – ficar neurótico, ou muito perturbado mentalmente;
34 – idem, como se se tratasse de um rádio;
35 – sonoterapia,
36 – pessoa de qualidade; o mesmo que bacana.

 



 

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