Tag: poema de Carlos Drummond de Andrade

Aug 05

A Moça que Mostrava a Coxa – Poema de Carlos Drummond de Andrade

A moça mostrava a coxa, a moça mostrava a nádega, só não mostrava aquilo – concha, berilo, esmeralda – que se entreabre, quatrifólio, e encerrra o gozo mais lauto, aquela zona hiperbórea, misto de mel e de asfalto, porta hermética nos gonzos de zonzos sentidos presos, ara sem sangue de ofícios, a moça não me …

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Jun 24

Estória de João-Joana – Cordel de Carlos Drummond de Andrade e Sérgio Ricardo

Meu leitor, o sucedido em Lajes do Caldeirão é caso de muito ensino, merecedor de atenção. Por isso é que me apresento fazendo esta relação. Vivia em dito arraial do país das Alagoas um rapaz chamado João cuja força era das boas pra sujigar burro bravo, tigres, onças e leoas. João, lhe deram este nome …

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Jan 12

Brinde no banquete das musas – Poema de Carlos Drummond de Andrade

Poesia, marulho e náusea, poesia, canção suicida, poesia, que recomeças de outro mundo, noutra vida Deixaste-nos mais famintos, poesia, comida estranha, se nenhum pão te equivale: a mosca deglute a aranha. Poesia sobre os princípios e os vagos dons do universo: em teu regaço incestuoso, o belo câncer do verso. Poesia, sobre o telúrio, reintegra …

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Nov 16

Lira Itabirana – Carlos Drummond de Andrade

I O Rio? É doce. A Vale? Amarga. Ai, antes fosse Mais leve a carga. II Entre estatais E multinacionais, Quantos ais! III A dívida interna. A dívida externa A dívida eterna. IV Quantas toneladas exportamos De ferro? Quantas lágrimas disfarçamos Sem berro?    

Nov 08

Consolo na Praia – Poema de Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores. A infância está perdida. A mocidade está perdida. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo. Não tentaste qualquer viagem. Não possuis carro, navio, terra. Mas tens um cão. Algumas palavras duras, em voz …

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Jul 13

Pombo-Correio – Poema de Carlos Drummond de Andrade

Os garotos da Rua Noel Rosa onde um talo de samba viça no calçamento, viram o pombo-correio cansado confuso aproximar-se em vôo baixo. Tão baixo voava: mais raso que os sonhos municipais de cada um. Seria o Exército em manobras ou simplesmente trazia recados de ai! amor à namorada do tenente em Aldeia Campista? E …

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Jun 30

A Bomba – Poema de Carlos Drummond de Andrade

A bomba é uma flor de pânico apavorando os floricultores A bomba é o produto quintessente de um laboratório falido A bomba é estúpida é ferotriste é cheia de rocamboles A bomba é grotesca de tão metuenda e coça a perna A bomba dorme no domingo até que os morcegos esvoacem A bomba não tem …

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Jun 26

Mãos Dadas – Poema de Carlos Drummond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Não serei o cantor de …

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Sep 30

Verbo Ser – Poema de Carlos Drummond de Andrade

Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? Ser; pronunciado …

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Apr 16

Resíduos – poema de Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco Do meu medo. Do teu asco. Dos gritos gagos. Da rosa ficou um pouco Ficou um pouco de luz captada no chapéu. Nos olhos do rufião de ternura ficou um pouco (muito pouco). Pouco ficou deste pó de que teu branco sapato se cobriu. Ficaram poucas roupas, poucos véus rotos …

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