Teologia da libertação sexual – crônica de Arnaldo Jabor

By | April 9, 2013

Quando vejo essa polêmica sobre os escândalos de pedofilia na Igreja, uma das causas da renúncia de Bento 16, lembro-me de que, no colégio de padres onde estudei, ‘sexo’ era a palavra evitada, mas que estava em toda parte, como uma ameaça vermelha. O Diabo nos espreitava detrás das estátuas de Santa Tereza em êxtase, nas coxas dos anjinhos nus, nos seios fervorosos das beatas acendendo velas. Na entrada dos alunos pela porta principal já havia um desfile de velada pedofilia. O reitor se postava vestido em negra batina na porta do longo corredor, imóvel em pose de manequim chique, enquanto duas filas de alunos entravam beijando-lhe as mãos estendidas como oferendas de santidade; até hoje me lembro do vago cheiro de sabonete e cuspe na mão do reitor.

Entre professores e noviços, víamos muitos rostos angustiados, berros severos e excessivos nas aulas; sentia-se no ar a exasperação da sexualidade renegada. O desespero da castidade enlouquecia-os. As mães dos alunos, lindas, com seus penteados e decotes imitando Jane Russel ou Ava Gardner, faziam charme para os padres zonzos de desejo. E eu me perguntava: “Meu Deus… por que padre não pode casar?”

Dos púlpitos, os sermões nos ameaçavam ferozmente com o fogo eterno, se nos masturbássemos ou, como diziam, se praticássemos o “vício solitário”. “Vocês quando pecam são iguais ao Hitler, pois matam na solidão dos banheiros milhões de pessoas que poderiam nascer!”

Ou seja, além de bobos e virgens, éramos genocidas em holocaustos de banheiro, indo para o inferno onde queimaríamos por toda a eternidade. A ‘eternidade’ era descrita assim: “Imaginem que o planeta seja um grande diamante, o metal mais duro do universo. De cem em cem anos, um passarinho vem voando e dá uma bicadinha na Terra. O dia em que a Terra for toda esfarinhada pelas bicadinhas do pássaro, nesse dia, acaba a eternidade”. E eu sofria, me esvaindo nos banheiros, pensando naquele passarinho que bicava o mundo, enquanto eu acariciava o outro passarinho em humilhante solidão. O prazer era um crime – tudo ficava manchado de culpa: a alegria era falta de seriedade, a liberdade era um erro, as meninas eram seres inatingíveis. A sexualidade esmagada virava uma máquina de perversões ou uma fonte de sofrimentos para quem fazia votos de castidade. Hoje, que o mundo virou uma incessante paisagem de bundas e seios nus, de pornografia na publicidade e na mídia, fica cada vez mais absurdo esse imenso exército de deprimidos lendo as Playboys no escuro dos conventos.

No grande festival do conclave que elegeu o papa Francisco, a coisa que mais me impressionou foi a semelhança entre os cardeais. Todos pareciam a mesma pessoa, desfilando com suas batinas púrpura. Impressionaram-me os rostos acabados, envelhecidos sob cabelos curtos e brancos, os mesmos óculos, os mesmos passos trêmulos, as décadas de abstinência sexual cavando em suas faces sulcos de tristeza, um vazio de prazeres não vividos, um vazio de corpos não beijados.

Claro que o óbvio é sempre negado; se dissermos que a pedofilia é fruto do celibato, as respostas serão adversativas, evasivas, afirmando que os pedófilos já viriam ‘prontos’ antes da ordenação, que o fenômeno é muito complexo, etc. e tal, mas, por minha experiência pessoal, creio que a pedofilia era uma distorção vagamente tolerada dentro da Igreja.

No colégio onde eu estudava havia um padre que era popular entre os alunos porque fazia mágicas com rara habilidade. Nos recreios, era cercado por meninos vendo ovos saírem de suas orelhas, moedas tiradas da boca, flores explodindo em buquês entre seus dedos magros e enrugados. Ele tinha também um teatro de bonecos. Um dia levou-me até sua sala para me mostrar marionetes novas. O padre parecia nervoso e começou a criticar meu cabelo despenteado, eriçado. Pegou um pente, começou a me pentear com mãos trêmulas e de repente me deu um beijo na boca. Fugi em pânico até a saída onde meu pai me esperava no carro e, apavorado, não disse nada. Só contei em confissão a um outro padre, que fingiu não entender bem e senti que ele sabia do vício do colega; ele mudou de assunto como se a pedofilia fosse um mal inevitável, para a manutenção do celibato. Falei a um outro padre que me ouviu ceticamente e me acalmou, acariciando-me a mão como se eu estivesse perturbado, imaginando absurdos. Comecei a entender que, além do pecado e da virtude, havia um corporativismo espiritual a defender práticas escusas. Já comentei aqui esse antigo assédio e, no dia seguinte, muitos colegas do colégio me ligaram: “Ah… aposto que foi o padre tal, não foi?” Todo mundo sabia desse e de outros casos, tudo num silêncio deliberado. Percebo hoje que, não só entre os padres obrigados a castidade havia essa compulsão; muitos colegas de classe já partiam para uma saída homossexual aflita, torturada, entre as inúmeras proibições e preconceitos.

Mas nem sempre foi assim. São Pedro era casado. Outros seis papas tiveram mulher e filhos também. Até que, em 1073, o papa Gregório VII proibiu o desejo sexual (literalmente), porque padres casados tendiam a se distrair das tarefas religiosas (já imaginaram rezar a missa depois de uma boa ‘DR’ com a mulher?). Pois é; mas o motivo verdadeiro era impedir que viúvas e filhos herdassem bens dos sacerdotes, que deviam ser repassados à Igreja.

Uma das grandes desvantagens da Igreja Católica, perante outras religiões, é esse celibato implacável. Estão diminuindo muito as vocações para seminaristas, que buscam a religião pela fome ou por um lugar social. Rabinos casam, pastores protestantes casam, budistas “do it”, mesmo muçulmanos “do it”. A ideia de castidade gera um atraso em cascata em relação aos problemas contemporâneos. Enquanto os pentecostais botam pra quebrar em bailes “gospel”, em shows de Jesus Funk, a Igreja Católica vai mergulhando na Idade Média. Acho que está chegando a hora de uma “teologia da libertação sexual”.

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