Um baile em algum lugar – crônica de Luis Fernando Veríssimo

By | July 22, 2013

Sabe como é carnaval. Quando você vê, está no apartamento do Juba bebendo vodca quente porque a geladeira quebrou e tem um italiano dizendo “Cosa? Cosa?” no telefone, que pelo jeito também não funciona, e a única mulher que apareceu foi a Be, e ainda por cima de bronca com todo mundo. Aí chega o Júnior Filho e diz que descolou uns convites para um baile em algum lugar e a discussão passa a ser quantos cabem no Escort, levando-se em consideração que a Be não vai no colo do italiano nem morta. O Portugal rejeita a sugestão de ir buscar seu Gol, mesmo porque já vendeu.

— Quantos nós somos? — quer saber o Valdir, cuja perdição é querer organizar tudo. O Valdir, inclusive, já planejou o próprio velório, especificando onde, como e quem deve ser corrido do lugar se aparecer, porque hipócrita não. Deu o plano pro Magro guardar até o dia da sua morte, e o Magro perdeu no dia seguinte, mas diz pro Valdir que está no cofre. Como o Valdir vai saber se o plano foi seguido ou não?, argumenta ressentido com as críticas. Outra mania do Valdir é a solenidade.

É sempre ele que propõe os brindes, diz umas coisas e se emociona sozinho, e fala tanto em como o grupo é amigo e unido e de fé que todo mundo foge dele, tanto que é o único que ainda não conseguiu comer a Be. Nem o Magro, que serviu com ele, agüenta o
Valdir.

— Nove — diz o Matinhos, o único fantasiado. Quer dizer, botou um frango de borracha na cabeça e diz que é em homenagem ao Banco Central, o que ninguém entende.

— No carro só cabem cinco — diz o Júnior Filho (filho do seu Júnior da revendedora, que o deserdou depois que ele roubou o Escort da loja), espalmando as mãos na frente do peito para prevenir qualquer desafio à sua conta.

— Você contou o italiano? — quer saber o Portugal do Matinhos.

— Não. É pra contar?

— Claro. Só porque é estrangeiro? Com o italiano são dez. Dançam cinco.

A esta altura já foi uma vodca inteira e abriram outra, e o italiano continua no telefone gritando “Cosa? Cosa?”, e o Valdir resolve organizar. Quem vai no Escort e quem fica e se vira. Membros natos do grupo que vai são o Júnior Filho, dono (por assim dizer) do Escort, a Be porque é a Be, e o italiano porque é visita, apesar dos protestos do Magro que quer saber quem é esse cara afinal.

— Amigo do Juba — diz alguém.

Subentendendo-se que, como amigo do italiano, o Juba também tem que ir no Escort, uma lógica que o Magro ataca violentamente, sem sucesso. Sobra um lugar para ser sorteado entre cinco. Be, prevendo problemas no Escort apertado, propõe o critério “quem está menos bêbado”, rebatido pelo Portugal, o mais velho, que sugere que vá o mais velho e, teoricamente, com menos carnavais pela frente. O Matinhos, como único fantasiado, invoca razões práticas para ser o escolhido, você sugere que vá o mais magro e o Magro, que é gordo, manda todo mundo à merda. O Valdir então declara que está se retirando das negociações já que a sua intenção era ajudar e não desunir e vai sentar na única poltrona que o Juba conseguiu tirar de casa para seu apartamento de solteiro sem que a dona Leoncina notasse, emburrado. O Magro e o Matinhos só não se pegam a tapa porque nenhum consegue localizar bem o outro na sua frente e a Be diz sabe de uma coisa? Vocês são todos uns issos e uns aquilos e eu vou é embora, e vai. Com a desistência da Be, abre-se uma segunda vaga no Escort e você sugere uma eliminatória usando a garrafa vazia de vodca, e o Valdir sai do seu auto-exílio para organizá-la, colocando os cinco que sobraram, inclusive ele, sentados num círculo no chão e fazendo rodopiar a garrafa no meio, só que ele usa a garrafa com vodca e o desperdício provoca uma grande revolta, só interrompida quando o italiano grita “Porca miséria!” e atira o telefone contra a parede, e o Juba grita “Epa! Epa!” e vai pedir satisfação ao italiano, que acaba expulso do apartamento. Depois o Juba diz que não tinha a menor idéia de quem era o italiano, sabe como é carnaval, e dá um desânimo geral em todo mundo e resolvem não ir a lugar nenhum e ficar vendo pela televisão, só que a televisão do Juba também está quebrada, e, quando você vê, está estirado no chão, com o Matinhos dormindo do seu lado, o frango caído sobre um olho, e lá se foi o carnaval. E a ressaca?

 



 

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