Um exercício de fantasia futurológica – artigo de Elio Gaspari

By | June 24, 2013

Numa tarde em Brasília, o Supremo Tribunal Federal reúne-se para julgar os recursos dos mensaleiros, revoga as condenações por formação de quadrilha e livra-os do cárcere. Joaquim Barbosa, o presidente da Corte que relatara o processo, joga a toga sobre a bancada, faz um breve discurso, renuncia ao cargo, sai do prédio e chama um táxi. Dias depois, seu nome é lançado como candidato à Presidência da República. Há fantasia nesse cenário, mas o gesto da renúncia é uma possibilidade real. Se Joaquim Barbosa será candidato, trata-se de pura futurologia.

Quem duvida dessa possibilidade apresenta o que seria um obstáculo intransponível: a falta de base política. Alguém conhece pessoa que votará no candidato que for indicado pelo PMDB? Ter base partidária é mais uma carga do que um impulso, mesmo no caso do PT. Para a campanha da doutora Dilma, será bom negócio esquecer a estrelinha vermelha, fechando o foco na personalização de seu governo. O PT decidiu confundir-se com os mensaleiros. Problema dele.

Dos cinco presidentes eleitos nos últimos 60 anos, três prevaleceram sem que devessem qualquer coisa às bases partidárias. Fernando Henrique Cardoso foi eleito pelo Plano Real. Se dependesse da força do PSDB, seria candidato a deputado federal. Ele foi eleito porque o real ficou de pé. Depois do fracasso do Plano Cruzado, houve sete ministros da Fazenda e só ele teve futuro político.

Fernando Collor passou por três grandes partidos, mas elegeu-se pelo microscópico PRN, que não existe mais. Recuando-se aos anos 60, Jânio Quadros elegeu-se governador de São Paulo pelo irrelevante PTN e em 1958 foi engolido pela União Democrática Nacional num lance puramente oportunista.

Partido quem teve foi Lula. Todos brincam de cubos, formando alianças fisiológicas lubrificadas pelos métodos que desembocam em mensalões.

Olhando-se para a rua cheia de gente contra-isso-que-está-aí, vê-se um quebra-cabeça onde falta uma peça. Aécio Neves tem nas costas o doutor Eduardo Azeredo, com seu mensalão mineiro. Eduardo Campos não entendeu nada, disse que baixou as tarifas de transportes num ato “unilateral”, como se fosse um coronel do semiárido falando aos peões de sua fazenda.

Joaquim Barbosa pode vir a ser a peça que fecha o quebra-cabeça. Se isso acontecerá, não se sabe. Também não se sabe que resultados trará. Os dois exemplos de avulsos que chegaram a presidente, Jânio e Collor, terminaram em catástrofes. No caso de Jânio, numa catástrofe que levou as instituições democráticas para a beira do precipício no qual elas cairiam três anos depois, em 1964. Barbosa defende grandes causas, mas é chegado a pitis e construções inquietantes, como a sua denúncia das “taras antropológicas” que a sociedade brasileira carrega. Descontrola-se e justifica-se atribuindo sua conduta a dores de coluna. Se todas as pessoas que têm esse tipo de padecimento perdessem o controle quando viajam em trens lotados na hora do rush, as tardes brasileiras teriam pancadarias diárias. Há nele uma misteriosa predisposição imperial.

Talvez esse exercício de futurologia tenha o valor de uma leitura de cartas. Sobretudo se o PT perceber que a ida dos mensaleiros para a prisão, ainda este ano, deixará de ser um peso nas suas costas. Afinal, depois que Fernando Haddad e Geraldo Alckmin acordaram o monstro, é difícil saber como levar a rua para casa, mas é certo que o monstro sairá de casa se os mensaleiros forem poupados.

Às 19h de quinta-feira, os manifestantes que estavam na Avenida Paulista em frente ao prédio da “Gazeta” mandaram que as bandeiras vermelhas fossem abaixadas: “O povo unido não precisa de partido”. Minutos depois, queimaram algumas. Há 12 anos, elas estavam lá, gloriosas, festejando a eleição de Lula.

Dragão de biombo

Do prefeito Fernando Haddad, na terça feira, depois de receber a turma do Passe Livre, coisa que se recusara a fazer antes de ir para Paris:

“Vou fazer uma reflexão sobre os números, sobre o que ouvi [na reunião] e vou dar uma resposta para o movimento e pronto”.

Blá-blá-blá de dragão de biombo.

No dia seguinte baixou a tarifa porque ficou com medo da rua.

Queixa

O comissário Gilberto Carvalho, que desde 2003 gere as relações do governo (e do PT) com os movimentos sociais, queixou-se de que o ronco das ruas não tinha comando único.

Se tivesse, muita coisa seria possível. Inclusive a criação de uma discreta Bolsa Comando.

Poesia na rua

Aqui vai o agradecimento a uma jovem que estava na passeata de terça-feira, em São Paulo, com uma blusa branca de mangas curtas, carregando um poema em forma de cartaz. Dizia só isso:

“Cidade muda não muda”.

Ecoou na sua criatividade um cartaz de 1968, quando um tiro da PM matou Edson Lima Souto:

“Bala mata fome?”

Sonho de vanda

Em 1970, quando a Vanda da Vanguarda Popular Revolucionária estava no presídio Tiradentes, em São Paulo, talvez sonhasse com um dia em que um milhão de brasileiros fossem para as ruas, cercando o Palácio do Planalto.

Na quinta-feira, havia gente querendo fazer isso, mas a doutora só saiu do Palácio, protegida pela tropa do Exército, às 20h.

Peculiaridade 1

Nenhuma manifestação teve discurso.

Peculiaridade 2

Qualquer comparação com o movimento das multidões desses dias com o da campanha das Diretas Já, dos anos 1980, tem um vício de origem.

Nas Diretas, os governadores oposicionistas do Rio e de São Paulo cacifaram a infraestrutura dos comícios, com metrôs grátis, palanques, som e até mesmo ônibus.

Agora, pelo menos na mobilização, a Viúva não gastou um ceitil.

Peculiaridade 3

A rua de 2013 não teve celebridades.

Para se ter uma ideia da megalomania demófoba dos governantes que acordaram a rua, em dezembro do ano passado, o doutor Sérgio Cabral convocou uma passeata contra o projeto de redivisão dos royalties do petróleo. Nela havia um cercadinho para os VIPs, que recebiam pulseirinhas verdes e tinham a proteção de seguranças.

Na semana passada o governador Cabral ficou no cercadinho do palácio.

Pec 37

O presidente da Câmara, Henrique Alves, marcou a votação da PEC 37 para a próxima quarta-feira. É a emenda constitucional que inibe as investigações de roubalheiras pelo Ministério Público.

Na semana passada ele anunciou sua disposição de adiar a decisão. A menos que possa citar outro motivo para o adiamento, teve a ideia por causa da ida do monstro às ruas.

Ele pode pensar que a manobra ajuda a esfriar os ânimos. Estará apenas marcando a data da próxima manifestação: 3 de julho.

Se Alves marcar a votação para as primeiras horas da tarde de quarta-feira, tira o Congresso do caminho do monstro. Ou arrosta.

 



 

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