A casa da esquina do beco do Marisco – Gilberto Freyre

Em velho prédio, também com a fama de mal-assombrado, da rua Augusta, na esquina do beco do Marisco, à noite, depois que todos dormiam, ouvia-se uma barulheira dos diabos: queda de móveis, correntes arrastadas pelo soalho, portas se abrindo. Pior do que o sobrado chamado da Estrela. Era como se nele se cumprisse o fadário de casa de esquina: “casa de esquina, triste sina!”

O bairro de São José é o refúgio daquelas assombrações do tempo dos reis velhos que outrora tornaram famoso o Recife propriamente dito: a quase ilha do Recife. O Recife dos frades do Oratório, dos flamengos de Nassau, dos sefardins chamados Jacó e Abraão, Fonseca, Silva, Mendes, Pereira, Leão: judeus fidalgos e desdenhosos da ralé tanto gentia como israelita.

Nos sobrados mais antigos dessa parte, também mais antiga, da cidade, a verdade é que se achou nos primeiros anos deste século, com as demolições de casas, de arcos e até da igreja de Corpo Santo — que era monumento e não apenas igreja velha — muita moeda enterrada. Muito ouro do tempo colonial. Lembro-me de ter visto, menino, moedas de ouro do tempo d’el-rei-dom José de Portugal, encontradas numa das casas demolidas do bairro do Recife. Justamente numa demolição de que fora encarregado, como engenheiro, o historiador Alfredo de Carvalho, de quem manda a justiça que se diga que foi na época quase a única voz de pernambucano a protestar com vigor contra a destruição dos arcos e da igreja do Corpo Santo. Quis, porém, o destino que o engenheiro praticasse aquilo que mais repugnava ao historiador: a destruição de casas do Recife velho.

Mas não nos distanciemos do assunto; e voltemos ao sobrado misterioso da rua Augusta. Ficava ele à esquina do beco do Marisco. Era sobrado de dois andares, além do térreo. Na verdade, de três: três pavimentos. Sua construção datava apenas de 1865. Quase uma criança entre os sobrados velhos da cidade.

Tinha de frente cinco janelas; e no oitão, oito. Um sobrado como qualquer outro. Sem brasão, sem busto de Camões, sem estátua da fortuna ou estrela de pedra para o distinguir dos outros.

Passou anos desocupado. O povo dizia que ali vagavam espíritos: o bastante para o papel de “aluga-se” amarelecer nas vidraças. Depois de anos fechado, apareceu pretendente às chaves. Foi o português Belarmino, conhecido por Belarmino Mouco.

Era surdo: não lhe importavam ruídos de almas penadas. Raciocínio de português de anedota ou de caricatura.

Homem quietarrão e pé-de-boi, estabeleceu-se muito lusitanamente no andar térreo; e fez sua residência — sua e dos seus — no segundo andar.

O primeiro andar procurou sublocá-lo. Mas nada de aparecer inquilino.

Na mesma noite do dia em que Belarmino Mouco foi ocupar o segundo andar do prédio sinistro, sua gente começou a ver visagens e a ouvir barulhos na escada. Vultos entrando e saindo dos quartos. Ruídos de acordarem surdos. Um desadouro. Era como se a casa não fosse dos vivos mas dos mortos. Ou dos vivos só por favor: na realidade e pelo direito, dos mortos ou dos seus espíritos.

Esses barulhos e essas assombrações continuaram. Depois que todos dormiam, ouviam-se quedas tremendas de móveis na sala de visitas, correntes arrastadas pelo soalho, portas abrindo-se ou fechando-se com escândalo.

O barulho era de tal maneira que o próprio Belarmino Mouco, com toda sua surdez, levantou-se mais de uma noite para ver o que se quebrara dentro de casa. Mas encontrava tudo em ordem. Os móveis nos seus lugares. As portas fechadas a ferrolho. E corrente só havia no sobrado a do seu relógio: correntona de burguês que apenas começava a ser sólido.

Voltava para o quarto. Mas quando queria adormecer, o barulho recomeçava. O mouco acordava. Seus ouvidos pareciam de tísico: ouviam todos os barulhos grandes como se fossem diabruras de Seiscentos mil demônios soltos, numa só casa. E a família, que não era surda, esta não parava de ouvir ruídos terríveis. Os grandes, os médios, os pequenos. Toda uma orquestra de ruídos esquisitos.

Um dia apareceu morto no segundo andar do sobrado um dos empregados de Belarmino Mouco. Foi encontrado enforcado. Suicídio, apurou a polícia. Mas o motivo?

O suicida era um rapaz de seus vinte e quatro anos de idade, de nome João Teixeira. Não deixou declarações. Um suicídio misterioso. Em torno do caso fez-se grande celeuma. O empregado de Belarmino Mouco passou a ser considerado vítima dos espíritos maus que vagavam no sobrado. Mártir das assombrações. Pois as assombrações também têm seus mártires. Gente que morre ou se suicida de pavor: assombrada.

Alguns dias depois do suicídio do rapaz, Belarmino Mouco desocupou o prédio. Aquilo não era casa em que morasse cristão.

A vizinhança começou então a ver vultos nas janelas do segundo andar. Era anoitecer e juntava povo à frente do prédio. A cada instante gritava um: “Olha um vulto naquela janela!”. “É de homem!”, diziam uns; “É de mulher!”, gritavam outros. E no meio desse alvoroço, mãos misteriosas jogavam areia sobre os olhos dos curiosos. Areia que se dizia vir do alto do sobrado mal- assombrado e ser pior para dar azar do que areia de cemitério. Correrias, gritos, mulheres com histéricos, não davam mais sossego à rua.

A polícia do 1º distrito de São José acabou tendo de intervir no caso. Era subdelegado local o Heliodoro Rebelo. Fora despachante federal e não era homem de lorotas.

Uma noite, estando muito povo diante do prédio e sendo grande a celeuma, a polícia resolveu violar a porta da escada do sobrado encantado. Mas no terceiro lance da escada jogaram tanta areia nos olhos dos soldados que os sacudidos cabras de facão rabo-de-galo desceram do sobrado às carreiras, uns ainda se limpando da areia, outros pálidos como se tivessem visto o próprio demônio.

O povo convenceu-se então de que não havia dúvida: o sobrado estava ocupado por espíritos furiosamente maus. Por endemoninhados que faziam correr até soldados de polícia que eram naqueles dias cabras valentes, capazes de lutarem com os capangas de São José. Os célebres capangas que José Mariano tinha em São José.

Não podendo ter o seu prédio fechado eternamente, o proprietário vendeu-o. Foi ele então reconstruído e adaptado a cinema. Um dos primeiros cinemas do Recife. Como cinema, desencantou-se. As visagens do outro mundo não fizeram competição com as da tela em que apareciam então endemoninhados de outra espécie: o Max Linder, o Tontolini, o Prince, Lídia Borelli, Teda Bara, Mary Pickford ainda com ar de menina ou mais do que isso: de boneca de menina.

Depois de cinema por alguns anos, o antigo sobrado mal-assombrado passou a igreja protestante. Igreja presbiteriana com muita luz, muito sermão, muita cantoria de hino falando em Jesus. Com o que desapareceram de vez os espíritos zombeteiros que outrora fizeram correr pelas escadas até soldados valentes.

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