A cidade dos macacos – Crônica de Moacyr Scliar

By | 01/06/2022

“Macacos com fome invadem cidades.”
Brasil, 22 jul. 1998

A primeira reação à invasão dos macacos – era uma grande invasão, os animais vinham em bandos de mais de duzentos – foi de surpresa. Macacos eram comuns na região, mas jamais chegavam à cidade – o que dava uma ideia da fome que passavam. Quando os bichos começaram a roubar alimento de quitandas e até das cozinhas das casas, a indignação generalizou-se: não temos comida nem para nós, era o argumento mais comum, quanto mais para repartir com esses bichos. A fúria contra os recém-chegados foi num crescendo: rapidamente surgiram milícias armadas, formadas com o expresso propósito de liquidá-los.

Com o que o prefeito não concordava. Homem de visão, achava que o limão poderia ser transformado em limonada. A ideia dele era incorporar os macacos ao cotidiano da cidade. Não em um zoológico, como poderia pensar alguém mais desavisado; não, seu plano era treinar os macacos para realizar pequenas tarefas tais como juntar o lixo das ruas e varrer calçadas. Pretendia inclusive providenciar um uniforme padronizado para os bichos. Essa iniciativa teria um benefício adicional: transformaria a cidade numa atração turística. Gente viria de longe para conhecer a original experiência. Finalmente, argumentava o culto prefeito, a medida envolvia compensação por uma milenar injustiça.

– Afinal de contas, segundo Darwin, os macacos são nossos parentes mais próximos. Está na hora de tratá-los com a consideração que merecem.
Os assessores do prefeito acharam o plano fantástico, capaz de conciliar todos os interesses.

A população pensava diferente. Afinal, a cidade tinha uma alta taxa de desemprego e os macacos acabariam fazendo concorrência desleal aos cidadãos. Manifestações foram organizadas; grupos carregando faixas com inscrições (“Macacos, go home” e “Goiabada sim, macacada não”) fizeram um grande comício em frente à prefeitura.

– Ou a cidade é dos macacos – disse um exaltado orador –, ou é nossa. O prefeito tem de escolher.

E o prefeito escolheu: optou por desistir da ideia. Afinal de contas, ponderou à esposa, macaco não vota.

Tarzan pensaria diferente, claro. Mas Tarzan nunca teve de enfrentar uma campanha eleitoral numa cidade de desempregados. É mais difícil que balançar num cipó em companhia de macacos.

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