A força humana – Conto de Rubem Fonseca

By | 06/06/2021

Eu queria seguir em frente mas não podia. Ficava parado no meio daquele monte de crioulos — uns balançando o pé, ou a cabeça, outros mexendo os braços; mas alguns, como eu, duros como um pau, fingindo que não estavam ali, disfarçando que olhavam um disco na vitrina, envergonhados. É engraçado, um sujeito como eu sentir vergonha de ficar ouvindo música na porta da loja de discos. Se tocam alto é pras pessoas ouvirem; e se não gostassem da gente ficar ali ouvindo era só desligar e pronto: todo mundo desguiava logo. Além disso, só tocam música legal, daquelas que você tem que ficar ouvindo e que faz mulher boa andar diferente, como cavalo do exército na frente da banda.

A questão é que passei a ir lá todos os dias. As vezes eu estava na janela da academia do João, no intervalo de um exercício, e lá de cima via o montinho na porta da loja e não aguentava — me vestia correndo, enquanto o João perguntava, “aonde é que você vai, rapaz? você ainda não terminou o agachamento”, e ia direto para lá. O João ficava maluco com esse troço, pois tinha cismado que ia me preparar para o concurso do melhor físico do ano e queria que eu malhasse quatro horas por dia e eu parava no meio e ia para a calçada ouvir música. “Você está maluco”, dizia, “assim não é possível, eu acabo me enchendo com você, está pensando que eu sou palhaço?” Ele tinha razão, fui pensando nesse dia, reparte comigo a comida que recebe de casa, me dá vitaminas que a mulher que é enfermeira arranja, aumentou meu ordenado de auxiliar de instrutor de alunos só para que eu não vendesse mais sangue e pudesse me dedicar aos exercícios, puxa!, quanta coisa, e eu não reconhecia e ainda mentia para ele; podia dizer para ele não me dar mais dinheiro, dizer a verdade, que a Leninha dava para mim tudo que eu queria, que eu podia até comer em restaurante, se quisesse, era só dizer para ela: quero mais.

De longe vi logo que tinha mais gente que de costume na porta da loja. Gente diferente da que ia lá; algumas mulheres. Tocava um samba de balanço infernal — rum schtictum tum: os dois alto-falantes grandes na porta estavam de lascar, enchiam a praça de música. Então eu vi, no asfalto, sem dar a menor bola para os carros que passavam perto, esse crioulo dançando. Pensei: outro maluco, pois a cidade está cada vez maischeia de maluco, de maluco e de viado. Mas ninguém ria. O crioulo estava de sapato marrom todo cambaio, uma calça mal-ajambrada, rota no rabo, camisa branca de manga comprida suja e suava pra burro. Mas ninguém ria. Ele fazia piruetas, misturava passo de balé com samba de gafieira, mas ninguém ria. Ninguém ria porque o cara dançava o fino e parecia que dançava num palco, ou num filme, um ritmo danado, eu nunca tinha visto um negócio daqueles. Nem eu nem ninguém, pois os outros também olhavam para ele embasbacados. Pensei: isso é coisa de maluco mas maluco não dança desse jeito, para dançar desse jeito o sujeito tem que ter boas pernas e bom molejo, mas é preciso também ter boa cabeça. Ele dançou três músicas do long-play que estava tocando e quando parou todo mundo começou a falar um com o outro, coisa que nunca acontece na porta da loja, pois as pessoas ficam lá ouvindo música caladas. Então o crioulo apanhou uma cuia que estava no chão perto da árvore e a turma foi colocando notas na cuia que ficou logo cheia. Ah, estava explicado, pensei, o Rio estava ficando diferente. Antigamente você via um ou outro ceguinho tocando um troço qualquer, às vezes acordeão, outras violão, tinha até um que tocava pandeiro acompanhado de rádio de pilha — mas dançarino era a primeira vez que eu via. Já vi também uma orquestra de três paus-de-arara castigando cocos e baiões e o garoto tocando o “Tico-tico no fubá” nas garrafas cheias d’água. Já vi. Mas dançarino! Botei duzentas pratas na cuia. Ele colocou a cuia cheia de dinheiro perto da árvore, no chão, tranquilo e seguro de que ninguém ia mexer na gaita, e voltou a dançar. Era alto: no meio da dança, sem parar de dançar, arregaçou as mangas da camisa, um gesto até bonito, parecia bossa ensaiada, mas acho que ele estava era com calor, e apareceram dois braços muito musculosos que a camisa larga escondia. Esse cara é definição pura, pensei. E isso não foi palpite, pois basta olhar para qualquer sujeito vestido que chega na academia pela primeira vez para dizer que tipo de peitoral tem ou qual o abdômen, se a musculatura dá para inchar ou para definir. Nunca erro.

Começou a tocar uma música chata, dessas de cantor de voz fina e o crioulo parou de dançar, voltou para a calçada, tirou um lenço imundo do bolso e limpou o suor do rosto. O grosso debandou, só ficaram mesmo os que sempre ficam para ouvir música, com ou sem show. Cheguei perto do crioulo e disse que ele tinha dançado o fino. Riu. Conversa vai conversa vem ele explicou que nunca tinha feito aquilo antes. “Quer dizer, fiz uma outra vez. Um dia passei aqui e me deu uma coisa, quando vi estava dançando no asfalto. Dancei uma música só, mas um cara embolou uma notinha e jogou no meu pé. Era um Cabral. Hoje vim de cuja. Sabe como é, estou duro que nem, que nem -” “Poste”, disse eu. Ele olhou para mim, da maneira que tinha de olhar sem a gente sabero que ele estava pensando. Será que pensava que eu estava gozando ele? Tem poste branco também, ou não tem?, pensei. Deixei passar. Perguntei, “você faz ginástica?”.

“Que ginástica, meu chapa?” “Você tem o físico de quem faz ginástica.” Deu uma risada mostrando uns dentes branquíssimos e fortes e sua cara que era bonita ficou feroz como a de um gorila grande. Sujeito estranho. “Você faz?”, perguntou ele. “O quê?” “Ginástica”, e me olhou de alto a baixo, sem me dar nenhuma palavra, mas eu também não estava interessado no que ele estava pensando; o que os outros pensam da gente não interessa, só interessa o que a gente pensa da gente; por exemplo, se eu pensar que eu sou um merda, eu sou mesmo, mas se alguém pensar isso de mim o que que tem?, eu não preciso de ninguém, deixa o cara pensar, na hora de pegar para capar é que eu quero ver. “Faço peso”, disse. “Peso?” “Halterofilismo.” “Ah, ah!”, riu de novo, um gorila perfeito. Me lembrei do Humberto de quem diziam que tinha a força de dois gorilas e quase a mesma inteligência. Qual seria a força do crioulo? “Como é o seu nome?”, perguntei, dizendo antes o meu. “Vaterlu, se escreve com dábliu e dois ós.” “Olha, Waterloo, você quer ir até a academia onde eu faço ginástica?” Ele olhou um pouco para o chão, depois pegou a cuia e disse vamos”. Não perguntou nada, fomos andando, enquanto ele punha o dinheiro no bolso, todo embolado, sem olhar para as notas.

Quando chegamos na academia, João estava debaixo da barra com o Corcundinha. “João, esse é o Waterloo”, eu disse. João me olhou atravessado, dizendo “quero falar contigo”, e foi andando para o vestiário. Fui atrás. “Assim não é possível, assim não é possível”, disse o João. Pela cara dele vi que estava piçudo comigo. “Você parece que não entende”, continuou João, “tudo que eu estou fazendo é para o teu bem, se fizer o que eu digo papa esse campeonato com uma perna nas costas e depois está feito. Como é que você pensa que eu cheguei ao ponto em que eu cheguei? Foi sendo o melhor físico do ano. Mas tive que fazer força, não foi parando a série no meio não, foi malhando de manhã e de tarde, dando duro, mas hoje tenho academia, tenho automóvel, tenho duzentos alunos, tenho o meu nome feito, estou comprando apartamento. E agora eu quero te ajudar e você não ajuda. É de amargar. O que eu ganho com isso? Um aluno da minha academia ganhar o campeonato? Tenho o Humberto, não tenho? O Gomalina, não tenho? O Fausto, o Donzela — mas escolho você entre todos esses e essa é a paga que você me dá.” “Você tem razão”, disse enquanto tirava a roupa e colocava minha sunga. Ele continuou: “Se você tivesse a força de vontade do Corcundinha! Cinquenta e três anos de idade! Quando chegou aqui, há seis meses, você sabe disso, estava com uma doença horrível que comia os músculos das costas dele e deixava a espinha sem apoio, ocorpo cada vez caindo mais para os lados, chegava a dar medo. Disse para mim que estava ficando cada vez menor e mais torto, que os médicos não sabiam porra nenhuma, nem injeções nem massagens estavam dando jeito nele: teve nego aqui que ficou de boca aberta olhando para o seu peito pontudo feito chapéu de almirante, a corcunda saliente, todo torcido para a frente, para o lado, fazendo caretas, dava até vontade de vomitar só de olhar. Falei pro Corcundinha, te ponho bom, mas tem que fazer tudo que eu mandar, tudo, tudo, não vou fazer um Steve Reeves de você, mas daqui a seis meses será outro homem. Olha ele agora. Fiz um milagre? Ele fez o milagre, castigando, sofrendo, penando, suando: não há limite para a força humana!”. Deixei o João gritar essa história toda pra ver se sua chateação comigo passava.

Disse, pra deixar ele de bom humor, “teu peitoral está bárbaro”. João abriu os dois braços e fez os peitorais saltarem, duas massas enormes, cada peito devia pesar dez quilos: mas ele não era o mesmo das fotografias espalhadas pela parede. Ainda de braços abertos, João caminhou para o espelho grande da parede e ficou olhando lateralmente seu corpo. “É esse supino que eu quero que você faça; em três fases: sentado, deitado de cabeça para baixo na prancha e deitado no banco; no banco eu faço de três maneiras, vem ver.” Deitou-se no banco com a cara sob o peso apoiado no cavalete. “Assim, fechado, as mãos quase juntas; depois, uma abertura média; e, finalmente, as mãos bem abertas nos extremos da barra. Viu como é? Já botei na tua ficha nova. Você vai ver o teu peitoral dentro de um mês”, e dizendo isso me deu um soco forte no peito.

“Quem é esse crioulo?”, perguntou João olhando Waterloo, que sentado num banco batucava calmamente. “Esse é o Waterloo”, respondi, trouxe para fazer uns exercícios, mas ele não pode pagar.” “E você acha que eu vou dar aula de graça para qualquer vagabundo que aparece por aqui?” “Ele tem base, João, a modelagem deve ser uma sopa.” João fez uma careta de desprezo: “O que, o quê?, esse cara!, ah! manda embora, manda embora, você tá maluco”. “Mas você ainda não viu, João. A roupa dele não ajuda.” “Você viu?” “Vi”, menti, “vou arranjar uma sunga para ele.” Dei a sunga para o crioulo, dizendo: “Veste isso, lá dentro”. Eu ainda não tinha visto o crioulo sem roupa, mas fazia fé: a postura dele só seria possível com uma musculatura firme. Mas fiquei preocupado; e se ele só tivesse esqueleto? O esqueleto é importante, é a base de tudo, mas tirar um esqueleto do zero é duro como o diabo, exige tempo, comida, proteína e o João não ia querer trabalhar em cima de osso.

Waterloo de sunga saiu do vestiário. Veio andando normalmente: ainda nãoconhecia os truques dos veteranos, não sabia que mesmo numa aparente posição de repouso é possível retesar toda a musculatura, mas isso é um troço difícil de fazer, como por exemplo definir a asa e os tríceps ao mesmo tempo, e ainda simultaneamente os costureiros e os reto-abdominais, e os bíceps e o trapézio, e tudo harmoniosamente sem parecer que o cara está tendo um ataque epiléptico. Ele não sabia fazer isso, nem podia, é coisa de mestre, mas no entanto, vou dizer, aquele crioulo tinha o desenvolvimento muscular cru mais perfeito que já vi na minha vida. Atéo Corcundinha parou seu exercício e veio ver. Sob a pele fina de um negro profundo e brilhante, diferente do preto fosco de certos crioulos, seus músculos se distribuíam e se ligavam, dos pés à cabeça, num crochê perfeito.

“Te dependura aqui na barra”, disse o João. “Aqui?”, perguntou Waterloo, já debaixo da barra. “É. Quando a tua testa chegar na altura da barra, para.” Waterloo começou a suspender o corpo, mas no meio do caminho riu e pulou para o chão. “Não quero palhaçada aqui não, isso é coisa séria”, disse João, “vamos novamente.” Waterloo subiu e parou como o João tinha mandado. João ficou olhando. “Agora, lentamente, leva o queixo acima da barra. Lentamente. Agora desce, lentamente. Agora volta à posição inicial e pára.” João examinou o corpo de Waterloo. “Agora, sem mexer o tronco, levanta as duas pernas, retas e juntas.” E o crioulo começou a levantar as pernas, devagar, e com facilidade, e a musculatura do seu corpo parecia uma orquestra afinada, os músculos funcionando em conjunto, uma coisa bonita e poderosa. João devia estar impressionado, pois começou também a contrair os próprios músculos e então notei que eu e o próprio Corcundinha fazíamos o mesmo, como a cantar em coro uma música irresistível; e João disse, com voz amiga que não usava para aluno nenhum, “pode descer”, e o crioulo desceu e João continuou, “você já fez ginástica?” e Waterloo respondeu negativamente e João arrematou “é não fez mesmo não, eu sei que não fez; olha, vou contar para vocês, isso acontece uma vez em cem milhões; que cem milhões, um bilhão! Que idade você tem?”. “Vinte anos”, disse Waterloo. “Posso fazer você famoso, você quer ficar famoso?”, perguntou João. “Pra quê?”, perguntou Waterloo, realmente interessado em saber para quê. “Pra quê? Pra quê? Você é gozado, que pergunta mais besta”, disse João. Para que, eu fiquei pensando, é mesmo, para quê?

Para os outros verem a gente na rua e dizerem lá vai o famoso fulaneco? “Para que, João?”, perguntei. João me olhou como se eu tivesse xingado a mãe dele. “Ué, você também, que coisa! O que vocês têm na cabeça, hein? Ahn?” O João de vez em quando perdia a paciência. Acho que estava com uma vontade doida de ver um aluno ganhar ocampeonato. “O senhor não explicou pra que”, disse Waterloo respeitosamente. “Então explico. Em primeiro lugar, para não andar esfarrapado como um mendigo, e tomar banho quando quiser, e comer — peru, morango, você já comeu morango? —, e ter um lugar confortável para morar, e ter mulher, não uma nega fedorenta, uma loura, muitas mulheres andando atrás de você, brigando para ter você, entendeu? Vocês nem sabem o que é isso, vocês são uns bundas-sujas mesmo.” Waterloo olhou para João, mais surpreso que qualquer outra coisa, mas eu fiquei com raiva; me deu vontade de sair na mão com ele ali mesmo, não por causa do que havia dito de mim, eu quero que ele se foda, mas por estar sacaneando o crioulo; cheguei até a imaginar como seria a briga: ele é mais forte, mas eu sou mais ágil, eu ia ter que brigar em pé, na base da cutelada. Olhei para o seu pescoço grosso: tinha que ser ali no gogó, um pau seguro no gogó, mas para dar um cacete caprichado ali por dentro ia ter que me colocar meio lateral e a minha base não ficava tão firme se ele viesse com um passa-pé; e por dentro o bloqueio ia ser fácil, o João tinha reflexo, me lembrei dele treinando o Mauro para aquele vale-tudo com o Juarez em que o Mauro foi estraçalhado; reflexo ele tinha, estava gordo mas era um tigre; bater dos lados não adiantava, ali eram duas chapas de aço; eu podia ir para o chão tentar uma finalização limpa, uma chave de braço; duvidoso. “Vamos botar a roupa, vamos embora”, disse para Waterloo. “O que que há?”, perguntou João apreensivo, você está zangado comigo?” Bufei e disse: “Sei lá, estou com o saco cheio disso tudo, quase me embucetei contigo ainda agora, é bom você ficar sabendo”. João ficou tão nervoso que quase perdeu a pose, sua barriga chegou a estufar como se fosse uma fronha de travesseiro, mas não era medo da briga não, disso ele não tinha medo, ele estava era com medo de perder o campeonato. “Você ia fazer isso com o teu amigo”, cantou ele, “você é como um irmão para mim, e ia brigar comigo?” Então fingiu uma cara muito compungida, o artista, e sentou abatido num banco com o ar miserável de um sujeito que acaba de ter notícia que a mulher o anda corneando. “Acaba com isso, João, não adianta nada. Se você fosse homem, você pedia desculpa.” Ele engoliu em seco e disse “tá bem, desculpa, porra!, desculpa, você também (para o crioulo), desculpa; está bem assim?”. Tinha dado o máximo, se eu provocasse ele explodia, esquecia o campeonato, apelava para a ignorância, mas eu não ia fazer isso, não só porque a minha raiva já tinha passado depois que briguei com ele em pensamento, mas também porque João havia pedido desculpa e quando homem pede desculpa a gente desculpa. Apertei a mão dele, solenemente; ele apertou a mão de Waterloo. Também apertei a mão do crioulo. Ficamos sérios como três doutores.“Vou fazer uma série para você, tá?”, disse João, e Waterloo respondeu “sim senhor”. Eu peguei a minha ficha e disse para João: “Vou fazer a rosca direta com sessenta quilos e a inversa com quarenta, o que você acha?”. João sorriu satisfeito, “ótimo, ótimo Terminei minha série e fiquei olhando João ensinar ao Waterloo. No princípio a coisa é muito chata, mas o crioulo fazia os movimentos com prazer, e isso é raro: normalmente a gente demora a gostar do exercício. Não havia mistério para Waterloo, ele fazia tudo exatamente como João queria. Não sabia respirar direito, é verdade, o miolo da caixa ainda ia ter que abrir, mas, bolas, o homem estava começando!

Enquanto Waterloo tomava banho, João disse para mim: “Estou com vontade de preparar ele também para o campeonato, o que você acha?”. Eu disse que achava uma boa ideia. João continuou: “Com vocês dois em forma, é difícil a academia não ganhar.

O crioulo só precisa inchar um pouco, definição ele já tem”. Eu disse: “Também não é assim não, João; o Waterloo é bom, mas vai precisar malhar muito, ele só deve ter uns quarenta de braço”. “Tem quarenta e dois ou quarenta e três”, disse João. “Não sei, é melhor medir.” João disse que ia medir o braço, antebraço, peito, coxa, barriga da perna, pescoço. “E você quanto tem de braço?”, me perguntou astuto; ele sabia, mas eu disse, “quarenta e seis”. “Hum… é pouco, hein?, pro campeonato é pouco… faltam seis meses… e você, e você…” “Que que tem eu?” “Você está afrouxando…” A conversa estava chata e resolvi prometer, para encerrar: “Pode deixar, João, você vai ver, nesses seis meses eu vou pra cabeça”. João me deu um abraço, “você é um cara inteligente…

Puxa! com a pinta que você tem, sendo campeão!, já imaginou? Retrato no jornal… Você vai acabar no cinema, na América, na Itália, fazendo aqueles filmes coloridos, já imaginou?”. João colocou várias anilhas de dez quilos no pulley. “Teu pulley é de quanto?”, perguntou. “Oitenta.” “E essa garota que você tem, como é que vai ser?”

Falei seco: “Como é que vai ser o quê?”. Ele: “Sou teu amigo, lembre-se disso”. Eu: “Está certo, você é meu amigo, e daí?”. “Tudo que eu falo é para o teu bem.” “Tudo que você fala é para o meu bem, e daí?” “Sou como um irmão para você.” “Você é como um irmão para mim, e daí?” João agarrou a barra do pulley, ajoelhou-se e puxou a barra até o peito enquanto os oitenta quilos de anilhas subiam lentamente, oito vezes.

Depois: “Qual é o teu peso?”. “Noventa.” “Então faz o pulley com noventa. Mas olha, voltando ao assunto, sei que peso dá um tesão grande, tesão, fome, vontade de dormir — mas isso não quer dizer que a gente faça isso sem medida; a gente fica estourado, na ponta dos cascos, mas tem que se controlar, precisa disciplina; vê o Nelson, a comidaacabou com ele, fazia uma série de cavalo pra compensar, criou massa, isso criou, mas comia como um porco e acabou com um corpo de porco… coitado…” E João fez uma cara de pena. Não gosto de comer, e João sabe disso. Notei que o Corcundinha, deitado de costas, fazendo um crucifixo quebrado, prestava atenção na nossa conversa. “Acho que você anda fuçando demais”, disse João, “isso não é bom. Você chega aqui toda manhã marcado de chupão, arranhado no pescoço, no peito, nas costas, nas pernas. Isso nem fica bem, temos uma porção de garotos aqui na academia, é um mau exemplo. Por isso eu vou te dar um conselho”— e João olhou para mim com cara de amigos-amigosnegócios-à-parte, com cara de contar dinheiro; já se respaldava no crioulo? — “essa garota não serve, arranja uma que queira uma vez só por semana, ou duas, e assim mesmo maneirando.” Nesse instante Waterloo surgiu do vestiário e João disse para ele, “vamos sair que eu vou comprar umas roupas para você; mas é empréstimo, você vai trabalhar aqui na academia e depois me paga”. Para mim: “Você precisa de um ajudante. Guenta a mão aí, que eu já volto”.

Sentei-me, pensando. Daqui a pouco começam a chegar os alunos. Leninha, Leninha. Antes que fizesse uma luz, o Corcundinha falou: “Quer ver se eu estou puxando certo na barra?”. Fui ver. Não gosto de olhar o Corcundinha. Ele tem mais de seis tiques diferentes. “Você está melhorando dos tiques”, eu disse; mas que besteira, ele não estava, por que eu disse aquilo?

“Estou, não estou?”, disse ele satisfeito, piscando várias vezes com incrível rapidez o olho esquerdo. “Qual a puxada que você está fazendo?” “Por trás, pela frente, e de mãos juntas na ponta da barra. Três séries para cada exercício, com dez repetições. Noventa puxadas, no total, e não sinto nada.” “Devagar e sempre”, eu disse para ele. “Ouvi a tua conversa com o João”, disse o Corcundinha. Balancei a cabeça. “Esse negócio de mulher é fogo”, continuou ele, “eu briguei com a Elza.” Raios, quem era a Elza? Por via das dúvidas, disse “é”. Corcundinha: “Não era mulher para mim. Mas ocorre que estou agora com essa outra pequena e a Elza vive ligando lá para casa dizendo desaforos para ela, fazendo escândalos. Outro dia na saída do cinema foi de morte. Isso me prejudica, eu sou um homem de responsabilidade”. Corcundinha num ágil salto agarrou a barra com as duas mãos e balançou o corpo para a frente e para trás, sorrindo, e dizendo: “Essa garota que tenho agora é um estouro, um brotinho, trinta anos mais nova do que eu, trinta anos, mas eu ainda estou em forma — ela não precisa de outro homem”. Com puxadas rápidas Corcundinha içou o corpo várias vezes. Por trás, pela frente, rapidamente: uma dança; horrível; mas não despreguei olho. “Trintaanos mais nova?”, eu disse maravilhado. Corcundinha gritou do alto da barra: “Trinta anos! Trinta anos!”. E dizendo isso Corcundinha deu uma oitava na barra, uma subida de rim e após balançar-se pendularmente tentou girar como se fosse uma hélice, seu corpo completamente vermelho do esforço, com exceção da cabeça, que ficou mais branca. Segurei suas pernas; ele caiu pesadamente, em pé, no chão. “Estou em forma”, ofegou. Eu disse: “Corcundinha, você precisa tomar cuidado, você… você não é criança”. Ele: “Eu me cuido, me cuido, não me troco por nenhum garoto, estou melhor do que quando tinha vinte anos e bastava uma mulher roçar em mim para eu ficar maluco; é toda noite, meu camaradinha, toda noite!”. Os músculos do seu rosto, pálpebra, narina, lábio, testa começaram a contrair, vibrar, tremer, pulsar, estremecer, convulsar; os seis tiques ao mesmo tempo. “De vez em quando os tiques voltam?”, perguntei. Corcundinha respondeu: “É só quando fico distraído”. Fui para a janela pensando que a gente vive distraído. Embaixo, na rua, estava o montinho de gente em frente à loja e me deu vontade de correr para lá, mas eu não podia deixar a academia sem ninguém. Depois chegaram os alunos. Primeiro chegou um que queria ficar forte porque tinha espinhas no rosto e voz fina, depois chegou outro que queria ficar forte para bater nos outros, mas esse não ia bater em ninguém, pois um dia foi chamado para uma decisão e medrou; e chegaram os que gostam de olhar no espelho o tempo todo e usar camisa de manga curta apertada pro braço parecer mais forte; e chegaram os garotos de calças Lee, cujo objetivo é desfilar na praia; e chegaram os que só vêm no verão, perto do carnaval, e fazem uma série violenta para inchar rápido e eles vestirem suas fantasias de sarong, grego, qualquer coisa que ponha a musculatura à mostra; e chegaram os coroas cujo objetivo é queimar a banha da barriga, o que é muito difícil, e, depois de certo ponto, impossível; e chegaram os lutadores profissionais: Príncipe Valente, com sua barba, Testa de Ferro, Capitão Estrela, e a turma do vale-tudo: Mauro, Orlando, Samuel — estes não dão bola pra modelagem, só querem força para ganhar melhor sua vida no ringue: não se aglomeram na frente dos espelhos, não chateiam pedindo instruções; gosto deles, gosto de treinar com eles nas vésperas de uma luta, quando a academia está vazia; e vê-los sair de uma montada, escapar de um arm-lock ou então bater quando consigo um estrangulamento perfeito; ou ainda conversar sobre as lutas que ganharam ou perderam.

O João voltou, e com ele Waterloo de roupa nova. João encarregou o crioulo de arrumar as anilhas, colocar barras e alteres nos lugares certos, até você aprender para ensinar”.Já era de noite quando Leninha telefonou para mim, perguntando a que horas eu ia para casa, para casa dela, e eu disse que não podia passar lá pois ia para a minha casa. Ouvindo isso Leninha ficou calada: nos últimos trinta ou quarenta dias eu ia toda noite para a casa dela, onde já tinha chinelo, escova de dentes, pijama e uma porção de roupas; ela perguntou se eu estava doente e eu disse que não; e ela ficou outra vez calada, e eu também, parecia até que nós queríamos ver quem piscava primeiro; foi ela: “Então você não quer me ver hoje?”. “Não é nada disso”, eu disse, “até amanhã, telefona para mim amanhã, tá bem?”

Fui para o meu quarto, o quarto que eu alugava de dona Maria, a velha portuguesa que tinha catarata no olho e queria me tratar como se fosse um filho. Subi as escadas na ponta dos pés, segurando o corrimão de leve e abri a porta sem fazer barulho. Deitei imediatamente na cama, depois de tirar os sapatos. No seu quarto a velha ouvia novelas: “Não, não, Rodolfo, eu te imploro!”, ouvi do meu quarto, “Juras que me perdoas? Perdoar-te, como, se te amo mais que a mim mesmo… Em que pensas?

Oh! não me perguntes… Anda, responde… às vezes não sei se és mulher ou esfinge…”. Acordei com batidas na porta e dona Maria dizendo “já lhe disse que ele não está”, e Leninha: “A senhora me desculpe, mas ele disse que vinha para casa e eu tenho um assunto urgente”. Fiquei quieto: não queria ver ninguém. Não queria ver ninguém — nunca mais. Nunca mais. “Mas ele não está.” Silêncio. Deviam estar as duas frente a frente. Dona Maria tentando ver Leninha na fraca luz amarela da sala e a catarata atrapalhando, e Leninha… (é bom ficar dentro do quarto todo escuro). “… sar mais tarde?” “Ele não tem vindo, há mais de um mês que não dorme em casa, mas paga religiosamente, é um bom menino.

Leninha foi embora e a velha estava de novo no quarto: “Permiti-me contrariá-lo, perdoe-me a ousadia… mas há um amor que uma vez ferido só encontra sossego no esquecimento da morte… Ana Lúcia! Sim, sim, um amor irredutível que paira muito além de todo e qualquer sentimento, amor que por si resume a delícia do céu dentro do coração…”. Coitada da velha que vibrava com aquelas baboseiras. Coitada? Minha cabeça pesava no travesseiro, uma pedra em cima do meu peito… um menino? Como é que era ser menino? Nem isso sei, só me lembro que urinava com força, pra cima: ia alto. E também me lembro dos primeiros filmes que vi, de Carolina, mas aí eu já era grande, doze?, treze?, já era homem. Um homem. Homem… De manhã quando ia para o banheiro dona Maria me viu. “Tu dormiste aqui?”, ela me perguntou. “Dormi.” “Veio uma moça te procurar, estava muito inquieta, disse que era urgente.” “Sei quem é, voufalar com ela hoje”, e entrei no banheiro. Quando saí, dona Maria me perguntou, “não vais fazer a barba?”. Voltei e fiz a barba. “Agora sim, estás com cara de limpeza”, disse dona Maria, que não se desgrudava de mim. Tomei café, ovo quente, pão com manteiga, banana. Dona Maria cuidava de mim. Depois fui para a academia. Quando cheguei já encontrei Waterloo. “Como é? Está gostando?”, perguntei. “Por enquanto está bom.” “Você dormiu aqui?” “Dormi. O seu João disse para eu dormir aqui.” E não dissemos mais nada, até a chegada do João.

João foi logo dando instruções a Waterloo: “De manhã, braço e perna, de tarde, peito, costas e abdominal”; e foi vigiar o exercício do crioulo. Para mim não deu bola. Fiquei espiando. “De vez em quando você bebe suco de frutas”, dizia João, segurando um copo, “assim, ó”, João encheu a boca de líquido, bochechou e engoliu devagar, “viu como é?”, e deu o copo para Waterloo, que repetiu o que ele tinha feito.

A manhã toda João ficou paparicando o crioulo. Fiquei ensinando os alunos que chegaram. Arrumei os pesos que espalhavam pela sala. Waterloo só fez a série. Quando chegou o almoço — seis marmitas — João me disse: “Olha, não leve a mal, vou repartir a comida com o Waterloo, ele precisa mais do que você, não tem onde almoçar, está duro, e a comida só dá para dois”. Em seguida sentaram-se colocando as marmitas sobre a mesa de massagens forrada de jornais e começaram a comer. Com as marmitas vinham sempre dois pratos e talheres.

Me vesti e saí para comer, mas estava sem fome e comi dois pastéis num botequim. Quando voltei, João e Waterloo estavam esticados nas cadeiras de lona. João contando a história do duro que tinha dado para ser campeão. Um aluno me perguntou como é que fazia o pullover reto e fui mostrar para ele, outro ficou falando comigo sobre o jogo do Vasco e o tempo foi passando e chegou a hora da série da tarde — quatro horas — e Waterloo parou perto do leg-press e perguntou como funcionava e João deitou-se e mostrou dizendo que o crioulo ia fazer agachamento que era melhor. “Mas agora vamos pro supino”, disse ele, “de tarde, peito, costas e abdômen, não se esqueça.

Às seis horas mais ou menos o crioulo acabou a série dele. Eu não tinha feito nada. Até aquela hora João não tinha falado comigo. Mas aí disse: “Vou preparar o Waterloo, aluno igual a ele nunca vi, é o melhor que já tive , e me olhou, rápido e disfarçado; não quis saber onde queria chegar; saber, sabia, eu manjo os truques dele, mas não me interessei. João continuou: “Já viu coisa igual? Não acha que ele pode ser o campeão?”. Eu disse: “Talvez; ele tem quase tudo, só falta um pouco de força e demassa”. O crioulo, que estava ouvindo, perguntou: “Massa”? Eu disse: “Aumentar um pouco o braço, a perna, o ombro, o peito — o resto está…”, ia dizer ótimo mas disse “bom”. O crioulo: “E força?”. Eu: “Força é força, um negócio que tem dentro da gente”. Ele: “Como é que você sabe que eu não tenho?”. Eu ia dizer que era palpite, e palpite é palpite, mas ele me olhava de uma maneira que não gostei e por isso: “Você não tem”. “Acho que ele tem”, disse João, dentro do seu esquema. “Mas o garotão não acredita em mim”, disse o crioulo. Para que levar as coisas adiante?, pensei. Mas João perguntou: “Ele tem mais ou menos força do que você?”.

“Menos”, eu disse. “Isso só vendo”, disse o crioulo. O João era o seu João, eu era o garotão: o crioulo tinha que ser meu faixa, pelo direito, mas não era. Assim é a vida. “Como é que você quer ver?”, perguntei, azedo. “Tenho uma sugestão”, disse João, “que tal uma queda de braço?” “Qualquer coisa , eu disse. “Qualquer coisa”, repetiu o crioulo.

João riscou uma linha horizontal na mesa. Colocamos os antebraços em cima da linha de modo que meu dedo médio estendido tocasse o cotovelo de Waterloo, pois meu braço era mais curto. João disse: “Eu e o Gomalina seremos os juÍzes; a mão que não é da pegada pode ficar espalmada ou agarrada na mesa; os pulsos não poderão ser curvados em forma de gancho antes de iniciada a disputa”. Ajustamos os cotovelos.

Bem no centro da mesa nossas mãos se agarraram, os dedos cobrindo somente as falanges dos polegares do adversário, e envolvendo as costas das mãos, Waterloo indo mais longe pois seus dedos eram mais extensos e tocavam na aba do meu cutelo. João examinou a posição dos nossos braços. “Quando eu disser já vocês podem começar.” Gomalina se ajoelhou de um lado da mesa, João do outro. “Já”, disse João.

A gente pode iniciar uma queda de braço de duas maneiras: no ataque, mandando brasa logo, botando toda força no braço imediatamente, ou então ficando na retranca, aguentando a investida do outro e esperando o momento certo para virar. Escolhi a segunda. Waterloo deu um arranco tão forte que quase me liquidou; puta merda! Eu não esperava aquilo; meu braço cedeu até a metade do caminho, que burrice a minha, agora quem tinha que fazer força, que se gastar, era eu. Puxei lá do fundo, o máximo que era possível sem fazer careta, sem morder os dentes, sem mostrar que estava dando tudo, sem criar moral no adversário. Fui puxando, puxando, olhando o rosto de Waterloo.

Ele foi cedendo, cedendo, até que voltamos ao ponto de partida, e nossos braços se imobilizaram. Nossas respirações já estavam fundas, sentia o vento que saía do meu nariz bater no meu braço. Não posso esquecer a respiração, pensei, essa parada vai serganha pelo que respirar melhor. Nossos braços não se moviam um milímetro. Lembreime de um filme que vi, em que os dois camaradas, dois campeões, ficam um longo tempo sem levar vantagem um do outro, e enquanto isso um deles, o que ia ganhar, o mocinho, tomava whisky e tirava baforadas de um charuto. Mas ali não era cinema não; era uma luta de morte, vi que o meu braço e o meu ombro começavam a ficar vermelhos; um suor fino fazia o tórax de Waterloo brilhar; sua cara começou a se torcer e senti que ele vinha todo e o meu braço cedeu um pouco, e mais, raios!, mais ainda, e ao ver que podia perder isso me deu um desespero, e uma raiva! Trinquei os dentes! O crioulo respirava pela boca, sem ritmo, mas me levando, e então cometeu o grande erro: sua cara de gorila se abriu num sorriso e pior ainda, com a provocação grasnou uma gargalhada rouca de vitorioso, jogou fora aquele tostão de força que faltava para me ganhar. Um relâmpago cortou minha cabeça dizendo: agora!, e a arrancada que dei ninguém segurava, ele tentou mas a potência era muita; seu rosto ficou cinza, seu coração ficou na ponta da língua, seu braço amoleceu, sua vontade acabou — e de maldade, ao ver que entregava o jogo, bati com seu punho na mesa duas vezes. Ele ficou agarrando minha mão, como uma longa despedida sem palavras, seu braço vencido sem forças, escusante, caído como um cachorro morto na estrada.

Livrei minha mão. João, Gomalina queriam discutir o que tinha acontecido mas eu não os ouvia — aquilo estava terminado. João tentou mostrar o seu esquema, me chamou num canto. Não fui. Agora Leninha. Me vesti sem tomar banho, fui embora sem dizer palavra, seguindo o que meu corpo mandava, sem adeus: ninguém precisava de mim, eu não precisava de ninguém. É isso, é isso.

Eu tinha a chave do apartamento de Leninha. Deitei no sofá da sala, não quis ficar no quarto, a colcha cor-de-rosa, os espelhos, o abajur, a penteadeira cheia de vidrinhos, a boneca sobre a cama estavam me fazendo mal. A boneca sobre a cama: Leninha a penteava todos os dias, mudava sua roupa — calcinha, anágua, sutiã — e falava com ela, “minha filhinha linda, ficou com saudades da mamiquinha?”. Dormi no sofá.

Leninha com um beijo no rosto me acordou. “Você veio cedo, não foi na academia hoje?” “Fui”, disse sem abrir os olhos. “E ontem? Você foi cedo para a sua casa?” “Fui”, agora de olho aberto: Leninha mordia os lábios. “Não brinca comigo não, querido, por favor…” “Fui, não estou brincando.” Ela suspirava. “Sei que você foi lá em casa. A hora não sei; ouvi você falar com dona Maria, ela não sabia que eu estava no quarto.” “Fazer uma sujeira dessas comigo!”, disse Leninha, aliviada. “Não foi sujeira nenhuma”, eu disse. “Não se faz uma coisa dessas com… com os amigos.”“Não tenho amigos, podia ter, até príncipe, se quisesse.” “O quê?”, disse ela dando uma gargalhada, surpresa. “Não sou nenhum vagabundo, conheço príncipe, conde, fique sabendo.” Ela riu: “Príncipe?!, príncipe! No Brasil não tem príncipe, só tem príncipe na Inglaterra, você está pensando que sou boba”. Eu disse: “Você é burra, ignorante; e não tem príncipe na Itália? Esse príncipe era italiano”. “E você já foi na Itália?” Eu devia ter dito que já tinha comido uma condessa, que tinha andado com um príncipe italiano e, bolas, quando você anda com uma dona com quem outro cara também andou, isso não é uma forma de conhecer ele? Mas Leninha também não ia acreditar nessa história da condessa, que acabou tendo um fim triste como todas as histórias verdadeiras: mas isso não conto para ninguém. Fiquei de repente calado e sentindo a coisa que me dá de vez em quando, nas ocasiões em que os dias ficam compridos e isso começa de manhã quando acordo sentindo uma aporrinhação enorme e penso que depois de tomar banho passa, depois de tomar café passa, depois de fazer ginástica passa, depois do dia passar passa, mas não passa e chega a noite e estou na mesma, sem querer mulher ou cinema, e no dia seguinte também não acabou. Já fiquei uma semana assim, deixei crescer a barba e olhava as pessoas, não como se olha um automóvel, mas perguntando, quem é?, quem é?, quem-é-além-do-nome?, e as pessoas passando na minha frente, gente pra burro neste mundo, quem é?

Leninha, me vendo assim apagado como se fosse uma velha fotografia, sacudiu um pano na minha frente dizendo, “olha a camisa bacana que comprei para você; veste, veste para eu ver”. Vesti a camisa e ela disse: “Você está lindo, vamos na boate?”. “Fazer o que na boate?” “Quero me divertir, meu bem, trabalhei tanto o dia inteiro.” Ela trabalha de dia, só anda com homem casado e a maioria dos homens casados só faz essa coisa de dia. Chega cedo na casa da dona Cristina e às nove horas da manhã já tem freguês telefonando para ela. O movimento maior é na hora do almoço e no fim da tarde; Leninha não almoça nunca, não tem tempo.

Então fomos à boate. Acho que ela gosta de me mostrar, pois insistiu comigo para levar a camisa nova, escolheu a calça, o sapato e até quis pentear o meu cabelo, mas isso também era demais e não deixei. Ela é gozada, não se incomoda que as outras mulheres olhem para mim. Mas só olhar. Se alguma dona vier falar comigo fica uma fera.

O lugar era escuro, cheio de infelizes. Mal tínhamos acabado de sentar um sujeito passou pela nossa mesa e disse: “Como vai, Tânia?”. Leninha respondeu: “Bem obrigada, como vai o senhor?”. Ele também ia bem obrigado. Me olhou, fez um movimento com a cabeça como se estivesse me cumprimentando e foi para a mesa dele.“Tânia?”, perguntei. “Meu nome de guerra”, respondeu Leninha. “Mas o teu nome de guerra não é Betty?”, perguntei. “É, mas ele me conheceu na casa da dona Viviane, e lá o meu nome de guerra era Tânia.”

Nesse instante o cara voltou. Um coroa, meio careca, bem vestido, enxuto para a idade dele. Tirou Leninha para dançar. Eu disse: “Ela não vai dançar não, meu chapa”. Ele talvez tenha ficado vermelho, no escuro, disse: “Eu pensei…”. Não dei mais pelota pro idiota, ele estava ali, em pé, mas não existia. Disse para Leninha: “Esses caras vivem pensando, o mundo está cheio de pensadores”. O sujeito sumiu.

“Que coisa horrível isso que você fez”, disse Leninha, “ele é meu cliente antigo, advogado, um homem distinto, e você fazer uma coisa dessas com ele. Você foi muito grosseiro.” “Grosseiro foi ele, não viu que você estava acompanhada, por — um amigo, freguês, namorado, irmão, fosse o que fosse? Devia ter-lhe dado um pontapé na bunda. E que história é essa de Tânia, dona Viviane?” “Isso é uma casa antiga que frequentei.” “Casa antiga? Que casa antiga?” “Foi logo que me perdi, meu bem… no princípio… É de amargar. “Vamos embora”, eu disse. “Agora?” “Agora.”

Leninha saiu chateada, mas sem coragem de demonstrar. “Vamos pegar um táxi”, ela disse. “Por quê?”, perguntei, “não sou rico para andar de táxi.” Esperei que ela dissesse “o dinheiro é meu”, mas ela não disse; insisti: “Você é boa demais para andar de ônibus, não é?”; ela continuou calada; não desisti: “Você é uma mulher fina”; — “de classe; — “de categoria”. Então ela falou, calma, a voz certa, como se nada houvesse: “Vamos de ônibus”. Fomos de ônibus para a casa dela.

“O que que você quer ouvir?”, perguntou Leninha. “Nada”, respondi. Fiquei nu, enquanto Leninha ia ao banheiro. Com os pés na beira da cama e as mãos no chão fiz cinquenta mergulhos. Leninha voltou nua do banheiro. Ficamos os dois nus, parados dentro do quarto, como se fôssemos estátuas. No princípio, esse princípio era bom: nós ficávamos nus e fingíamos, sabendo que fingíamos, que estávamos à vontade. Ela fazia pequenas coisas, arrumava a cama, prendia os cabelos mostrando em todos os ângulos o corpo firme e saudável — os pés e os seios, a bunda e os joelhos, o ventre e o pescoço. Eu fazia uns mergulhos, depois um pouco de tensão de Charles Atlas, como quem não quer nada, mas mostrando o animal perfeito que eu também era, e sentindo, o que ela devia também sentir, um prazer enorme por saber que estava sendo observado com desejo, até que ela olhava sem rebuços para o lugar certo e dizia com uma voz funda e arrepiada, como se estivesse sentindo o medo de quem vai se atirar num abismo, “meu bem”, e então a representação terminava e partíamos um para o outro como duascrianças aprendendo a andar, e nos fundíamos e fazíamos loucuras, e não sabíamos de que garganta os gritos saíam, e implorávamos um ao outro que parasse mas não parávamos, e redobrávamos a nossa fúria, como se quiséssemos morrer naquele momento de força, e subíamos e explodíamos, girando em rodas roxas e amarelas de fogo que saíam dos nossos olhos e dos nossos ventres e dos nossos músculos e dos nossos líquidos e dos nossos espíritos e da nossa dor pulverizada. Depois a paz: ouvíamos alternadamente o bater forte dos nossos corações sem sobressalto; eu botava o meu ouvido no seu seio e em seguida ela, por entre os lábios exaustos, ela soprava de leve o meu peito, aplacando; e sobre nós descia um vazio que era como se a gente tivesse perdido a memória.

Mas naquele dia ficamos parados como se fôssemos duas estátuas. Então me envolvi no primeiro pano que encontrei, e ela fez o mesmo e sentou-se na cama e disse “eu sabia que ia acontecer”, e foi isso, e portanto ela, que eu considerava uma idiota, que me fez entender o que tinha acontecido. Vi então que as mulheres têm dentro delas uma coisa que as faz entender o que não é dito. “Meu bem, o que que eu fiz?”, ela perguntou, e eu fiquei com uma pena danada dela; com tanta pena que deitei ao seu lado, arranquei a roupa que a envolvia, beijei seus seios, me excitei pensando em antigamente, e comecei a amá-la, como um operário no seu ofício, e inventei gemidos, e apertei-a com força calculada. Seu rosto começou a ficar úmido, primeiro em torno dos olhos, depois a face toda. Ela disse: “O que que vai ser de você sem mim?”, e com a voz saíram também os soluços.

Botei minha roupa, enquanto ela ficava na cama, com um braço sobre os olhos. “Que horas são?”, ela perguntou. Eu disse: “Três e quinze”. “Três e quinze… quero marcar a última hora que estou te vendo…”, disse Leninha. E não adiantava eu dizer nada e por isso saí, fechando a porta da rua cuidadosamente.

Fiquei andando pelas ruas vazias e quando o dia raiou eu estava na porta da loja de discos louco que ela abrisse. Primeiro chegou um cara que abriu a porta de aço, depois outro que lavou a calçada e outros, que arrumaram a loja, puseram os alto-falantes para fora, até que afinal o primeiro disco foi colocado e com a música eles começaram a surgir de suas covas, e se postaram ali comigo, mais quietos do que numa igreja. Exato: como numa igreja, e me deu uma vontade de rezar, e de ter amigos, o pai vivo, e um automóvel. E fui rezando lá por dentro e imaginando coisas, se tivesse pai ia beijar ele no rosto, e na mão tomando bênção, e seria seu amigo e seríamos ambos pessoas diferentes.

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