A humilhada – Conto de Nelson Rodrigues

By | 28/05/2022

No segundo dia do casamento, às três horas da tarde, o marido lia um jornal. E, de repente, boceja. Regina não pôde evitar a exclamação:

– Ih, meu filho!

– O quê? E ela:

– Tão feio o que você fez!

Teve um espanto honesto: “Mas o que foi que eu fiz?” Ela repreensiva, embora sem prejuízo de sua doçura habitual, observou:

– Bocejou, na minha frente!

– Ué! E não posso? Por quê? Todo mundo não boceja, inclusive você? O protesto veio imediato e irreprimível:

– Eu, não! Tenha a santíssima paciência, mas na sua frente nunca bocejei! É ou não é? É, sim!

E, com efeito, fina, educada, escrupulosa, Regina conseguira eliminar dos seus hábitos e modos tudo o que ela própria achava deselegante. Tinha horror de espirrar diante de terceiros. Acordava mais cedo do que o marido, para que ele não lhe visse a cara de sono; e se havia doença que a exasperasse eram os resfriados que dão as corizas. Idealizara para si e para o marido uma vida conjugal muito doce e perfeita. Houve um momento, durante o noivado, em que sugeriu quartos separados para quando se casassem. Alegava que assim preservariam melhor a ilusão amorosa. Mas Guilherme saltou como uma fera:

– Não senhora! Em absoluto!

– Por quê?

– Porque, sim, ora, bolas! Ou está me achando com cara de palhaço?

Dura realidade

Casaram-se, um dia. Ela, com 17 anos, criança e lírica; ele, com vinte anos, amigo da sinuca, torcedor do Flamengo, meio farrista. Esperava-se que mudasse com o casamento. Regina, que o adorava, punha a mão no fogo pelo seu amado: “Muda, sim! Há de mudar!” Reagia, bravamente, contra os venenos: “Guilherme é perfeito!” E o fato é que entrou na vida matrimonial pronta para ser a mais feliz das mulheres. Na primeira manhã da lua de mel, tomaram banhos juntos. No décimo quinto dia, sua mãe telefona, curiosíssima:

– Como é que vai o negócio?

Respondeu, com o fervor da esposa recente:

– Ah, mamãe. Nunca pensei que o casamento fosse tão bom! Sou tão feliz, mas tão!

– Antes assim, antes assim.

Mas certas coisas já a aborreciam. Antes de mais nada, o prosaísmo do marido. Após uma relativa e efêmera cerimônia, que durou de dois a três dias de lua de mel – ele relaxava, evidentemente. Por exemplo: ela pedira ao marido que não usasse gíria. A princípio, Guilherme controlou a linguagem. Mas era, por índole e educação, um desbocado. Acabou explodindo: “Sossega, leoa de chácara! Sou contra chiquê!” Regina gemeu: “Paciência!” E teve que suportar a gíria deslavada do marido. Por fim, ela se contagiou e já usava certas expressões, tais como “velhinho”, “de arder”, “araqueado”, etc., etc. Justificava: o hábito e a convivência são um caso sério. Mas o fato é que suas ilusões iam, rapidamente, desaparecendo. Não que se julgasse infeliz. Isso, não. Quanto mais não fosse, tinha certeza de uma coisa: da fidelidade do marido. Dizia:

– Enquanto ele não me passar pra trás, não me trair, vai tudo num mar de rosas.

Uma vizinha fez o veneno: “Mas olha que não há homem fiel. O homem fiel nasceu morto.” Regina insultou-se:

– Não sei se outros não são, nem me interessa. O meu é.

Romance

Não tardou a acusar os sintomas de gravidez. Quando o médico confirmou o estado, voltou para casa, comovidíssima. No ônibus, veio de pé, enquanto sujeitos fortes, atléticos, viajavam solidamente sentados. Pensou: “Se eles soubessem que eu estou grávida…” E só imaginava a surpresa maravilhosa do marido quando ela desse a notícia. À tardinha, chegou Guilherme. Deu-lhe um beijo frívolo na face. Já em mangas de camisa, sentou-se para ler, no jornal, a página de futebol. Então, nervosíssima, os olhos marejados. Regina diz:

– Eu estou!

– O quê? Baixa a cabeça:

– Vou ter neném!

Guilherme encostou o jornal, atônito: “No duro? Batata?” Na sua emoção, na sua candura. Regina suspira:

– Assim disse o médico. Garantiu.

Apanhou, de novo, o jornal; rosnou:

– Que espeto!

Passado o encanto da lua de mel, via na maternidade só os aspectos desagradáveis, sobretudo o problema econômico. Perdia muito dinheiro no jóquei, na sinuca e… Continuou a ler o jornal de cara amarrada.

O inferno

Dois, três meses depois, estava tão desenvolvida que uma vizinha arriscou a hipótese: “Vai ver que são gêmeos!” Aterrada, bateu na madeira: “Isola!” Deu para enjoar, tinha vertigens constantes. O pior, porém, não eram as atribulações naturais do estado. O pior era a conduta do marido. Ele mudara por completo. Chegava tarde e, quase sempre, com o hálito de álcool; era desatencioso, grosseiro mesmo. Ora, Regina era muito doce, muito amorosa, doida por um carinho. Tinha, porém, seu amor-próprio. Fechou-se em si mesma, com a reflexão: “Deus é grande!” No dia em que sentiu as dores do parto, o marido não estava em casa. Alguém foi, correndo, levar o aviso, na sinuca. Ele passava o giz no taco, para tentar uma bola difícil. Ouviu a notícia e, com toda a calma e segurança, fez a jogada; e mais: completou a partida. Só, então, veio para casa. Quando chegou, a filha já estava em cima da toalha felpuda, nuazinha e perfeita. Entrou no quarto e ia sair quando a mulher, exausta de tanto sofrer, perguntou:

– Você não me beija?

A filha

Chamou-se Sônia, a menina. E seu nascimento não mudou a vida do casal. Os anos se passaram, um a um. E, com o tempo, todos os escrúpulos do marido desapareceram. Não tinha hora de chegar em casa. Certa vez, Regina, desesperada, ia protestar. Ele, porém, cortou: “Não admito, ouviu? Não admito!” Regina ergueu o rosto, sem medo: “Está bem, está bem. Mas você fica avisado: no dia em que eu souber que você me traiu, já sabe.” Ele rosnou um “não amola” e encerraram, ali, o incidente.

Três anos mais tarde, ela encontrou, na camisa do marido, marca de batom. Fez a advertência sintomática: “Olha que eu ainda sou bonita!” Já naquela época, seu consolo único era a filha, que crescera, doce e linda, e muito agarrada à mãe. Com pouco mais, não houve dúvida possível: tinha a certeza, líquida, definitiva, de que ele a enganava de todas as maneiras possíveis e imagináveis. Recebeu cartas e telefonemas anônimos. Doía-se na carne e na alma; uma vez, teve a reflexão desesperada: “Ah, se eu tivesse coragem de trair, também!” Um primo, de segundo ou terceiro grau a cortejava, há algum tempo, com discrição, de uma maneira quase imperceptível. Essa ternura constante e suave lhe fazia um bem imenso. E quando, afinal, ele se declarou, Regina, chorando, foi muito clara:

– Eu sei que meu marido não presta, não vale nada, mas… É minha filha. Deus me livre que, um dia, minha filha me acuse…

O rapaz admitiu:

– Tem razão. Eu compreendo. Mas, assim mesmo, espero, esperarei sempre.

Decisão

Quando Soninha fez 13 anos, o pai andava com um caso mais complicado que os anteriores. Era um romance tenebroso com uma morena cheia de corpo, desbocada e agressiva. A Fulana vivia telefonando para Regina e a descompunha nos termos mais vis. Sônia, já mocinha, via e ouvia tudo, sem um comentário. Era um tipo fino, frágil, cujo olhar intenso fazia supor uma alma profunda. Regina vivia alarmada; dizia para a primo: “Imagina se Sônia desconfia que eu e você…” Não tinha havido, entre os dois, nada: era o que se chama um amor rigorosamente platônico. Todavia, no seu escrúpulo, Regina não queria que a menina desconfiasse nem do sentimento. Até que, um dia, o pai apareceu bêbado em casa. Viu a mulher e teve uma maldade gratuita e obtusa de irresponsável. Esbofeteou-a e, depois, riu ignobilmente, como se a bofetada despertasse não sei que sombria, que misteriosa crueldade nas profundezas do seu ser. Então, a filha, que aparecera na porta, atraída pelo barulho, caminhou para Regina. Agarrou-a pelos dois braços, sacudindo-a com inesperada energia:

– Larga esse homem agora! Larga! Sai desta casa! Agora, anda!…

Toda a sua doçura de menina se fundia em paixão, ódio. Então, subitamente serena, Regina compreendeu que certas esposas precisam trair para não apodrecer.

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