A mão esquerda – Conto de Nelson Rodrigues

By | 01/06/2022

Uma coleguinha de escritório sugeriu a hipótese: “Vê lá se é casado, vê lá!” Estava fazendo uma verificação de contas na máquina de somar. Tomou um susto:

– Casado?

E a outra, coçando a cabeça com o lápis:

– Quem sabe? E tudo é possível, compreendeste? Sabe como é.

Até o fim do expediente, Aída ficou com aquilo na cabeça. Conhecera há quatro dias o seu novo namorado. Era uma menina afetiva, ou, como ela própria dizia, “romântica”. No fim do terceiro encontro, estava apaixonada. Mas nunca, em momento nenhum, lhe ocorrera a hipótese de que Lauro pudesse ter um compromisso. A sugestão da amiga apavorou-a. Depois do serviço, foi encontrar-se com o rapaz. E perguntava, de si para si: “Será?” Ele a esperava, como das vezes anteriores, na esquina da rua México com Araújo Porto Alegre. Saudou-a com alegre carinho:

– Como vai essa figurinha difícil?

A mão esquerda

Desceram a rua México, a caminho do bonde, que costumavam apanhar na Sete de Setembro. Caminhando ao lado de Lauro, tratava de verificar se ele usava ou não aliança. E até o momento de subir no bonde, continuava na mesma, porque o rapaz não tirava, do bolso, a mão esquerda. Fizeram a viagem conversando. Todavia, Aída parecia distraída, triste e inquieta. Dizia, de si para si: “Está escondendo a mão!” Na altura do Estácio, ela não resistiu. Vira-se para Lauro, põe a mão no seu braço e pergunta:

– Queres me fazer um favor?

– Dois.

Ela, baixo e sôfrega, pede:

– Mostra a tua mão esquerda, mostra! Admirou-se:

– Pra quê? Teimou:

– Eu quero! Mostra!

Pausa. De perfil para a pequena, atônito, ele estava de todas as cores. Por fim, respondeu:

– Não posso — mas logo retificou: — Agora, não. Depois te mostro. Quando a gente descer.

Aída balbucia:

– Ora veja!

Surpresa

A seu lado, em silêncio, ela pensava: “No mínimo é casado!” E não lhe ocorria o expediente, que tantos usam, de tirar a aliança, de embolsá-la ou, simplesmente, de não usar aliança. Fizeram o resto da viagem em silêncio. Quando saltaram, na Saens Peña, Aída cobrou a promessa. Atravessaram a rua em direção à praça. E, lá, a pequena exigiu: “Agora, mostra. Quero ver. Mostra.” Lauro continua com a mão no bolso. Durante alguns momentos, os dois se olham, calados e expectantes. Lauro baixa a cabeça:

– Sinto, mas não posso. Rápida, ela pergunta:

– És casado? Responde! És casado? Sim ou não? Balbucia:

– Não. Claro que não. Por que casado? Que ideia! Na sua angústia, ela insiste:

– Jura que não estás escondendo a aliança? E ele, respirando fundo:

– Juro.

O mistério

No dia seguinte, ao chegar no escritório, ela requisita a coleguinha. Conta-lhe o incidente da mão no bolso. A outra foi sumária: “Você bobeou, minha filha!” Espanto de Aída: “Eu?” A outra explica:

– Evidente. Isso é mais que suspeito. Você não vê que não tem cabimento?

Esconder a mão por quê?

Sim, raciocina: por quê? Admitiu:

– Sou uma errada.

Então, a outra inclina-se sobre a mesa; propõe: “Faz o seguinte: exige que ele te mostre a mão. É o golpe. Tu não és palhaça de ninguém, ora, bolas!” Pouco depois, as duas concordam num ponto: se ele fosse realmente casado, podia, já prevenido, retirar a aliança. A coleguinha teve um muxoxo: “Caso sério!” Após o expediente, Aída encaminha-se para o local do encontro. A distância, viu o rapaz, em pé, junto do poste, e com a mão esquerda no bolso: “Outra vez!” foi seu comentário interior. Na sua irritação, aproxima-se e, antes de qualquer cumprimento, diz-lhe:

– Das duas, uma: ou tu mostras tua mão, ou, já sabes, não falo mais contigo.

Não compreendo essa tua mania, francamente.

Lauro vacila, resiste: “Eu te mostrarei depois.” Ela agarra-se ao namorado: “Ou agora ou nunca.” Pausa. Agoniado, ele não entende: “Por que essa insistência? A troco de quê?” E numa angústia maior, pergunta:

– E se eu te disser que não te mostrarei a minha mão, nem agora, nem nunca? Aída o encarou, grave, irredutível: “Nesse caso, eu acabo com tudo. Escolhe.”

Novo silêncio. Afinal, ele diz a última palavra:

– Não mostro. Não devo mostrar.

A pequena respira fundo: “Então, paciência. Adeus.” Sem estender a mão, virou- lhe as costas e afastou-se, como se fugisse. Minutos após, estava na Sete de Setembro, esperando o bonde, quando Lauro reapareceu. Muito pálido, inclinou-se diante da garota: “Olha: ali, na esquina, tem um café. Vamos conversar, lá, um instantinho?” Aída deixou-se levar. Entraram, sentaram-se numa mesa do fundo. Sem uma palavra, ele põe em cima da mesa a mão esquerda:

– Querias ver, não querias? Eu te faço a vontade. Olha.

Aída espiou, maravilhada: nenhuma aliança! Num impulso de carinho, põe sua mão em cima da do rapaz. Com o lábio inferior tremendo, Lauro quer saber: “Não viste nada? Não reparaste?” A garota não entende: “O quê?” Lauro completou:

– Conta os dedos. Seis — e continua, num soluço estrangulado: — Eu sou o homem dos seis dedos!

Choque

Aída foi incapaz de um comentário. Naquele momento, teve uma dupla sensação de pena e náusea. Tomaram uma média simples, de café. E depois, já com a mão no bolso, ele saiu com a pequena, numa tristeza e numa humilhação absolutas. Ela queria dizer uma palavra, mesmo convencional, de carinho, de ternura. Mas seus lábios e seu coração estavam trancados. Foi ele quem falou. Durante toda a viagem, resumiu a sua história, a história daquele defeito físico, que o marcara para sempre. Desde garotinho, que os outros meninos o chamavam de “o seis dedos”. E, mesmo os irmãos, quando altercavam com ele, nas brigas infantis, atiravam-lhe na face aquele defeito. Ele teria preferido uma perna a menos do que um dedo a mais. Quando se fez rapaz, não namorava ninguém; fugia das mulheres. Achava que jamais seria amado, jamais. Baixou a voz, numa confidência sofrida:

– Tu és meu primeiro e último amor. Se eu brigar contigo, te juro que nunca mais gostarei de ninguém. Ouviste?

Num arrepio, ela admite:

– Ouvi.

E ele, com os olhos marejados:

– Agora, que viste minha mão; agora, que conheces o meu defeito, eu quero que me respondas: isso faz alguma diferença? Faz? Ou não?

– Eu direi quando descermos.

Última palavra

Chegaram ao poste do Metro. Atravessaram na direção do jardim. Ela quebrou o silêncio, que já era insuportável: “Você quer saber a verdade? Apenas a verdade?” Lauro teve medo; balbuciou: “Fala!” Ela torce e destorce as mãos:

– Eu pensei que gostasse mais de você… Mas sinto que me enganei e que… O outro interrompeu, brutalmente:

– Diz coisa com coisa! Estás me escorraçando? Isto é um bilhete azul? Diz!

Aída mergulhou o rosto nas duas mãos e explodiu em soluços. Ele a contemplou sem pena, sem amor, o rosto contraído de ódio. Agarrou-a pelos dois braços: “Escuta!” Trincando os dentes, perguntou:

– Se era para me chutar, por que me fizeste mostrar a mão, a mão dos seis dedos, por quê? Mas quero que saibas: tu pagarás por isso. Pagarás por essa humilhação. E só!

Abandonou-a no jardim público e afastou-se, em passadas largas e firmes, sempre com a mão no bolso.

Desenlace

Passou. Aída nunca mais viu Lauro, nem ele a ela. Uma vez por outra, porém, ela sonhava com a mão de seis dedos. Tempos depois, ela se enamora de um outro rapaz, o Cantuária. Houve um namoro de um ano, um noivado de sete meses; chegou, afinal, o dia do casamento. Às dez horas, uma coleguinha de Aída bate o telefone, em pânico; conta, que, na véspera, Lauro fora encontrado morto, no seu quarto. Aída sai do telefone com o estômago contraí-do, numa náusea medonha. Dez ou 15 minutos depois, chega um mensageiro, com uma encomenda para a noiva. Ainda impressionada, a garota desembrulha o presente; era uma caixa de sapato que, na sua normalíssima curiosidade, ela vai destampar. Súbito, começa a gritar. Todos acudiram. E viram o presente, que Aída atirara no chão: uma mão hedionda, de seis dedos ensanguentados. Quem a teria mandado, se um morto não pode amputar-se a si mesmo?

Aída não se casou nem naquele dia, nem nunca mais.

258 Visualizações