A missa de sangue – Crônica de Nelson Rodrigues

By | 20/04/2022

Em vida de sua primeira mulher, foi a pérola dos maridos e, sobretudo, um monstro de fidelidade. Saía do trabalho, digamos, às seis horas. Às vezes, parava um segundo, tomava um cafezinho em pé e era só. Pendurava-se no primeiro bonde, com a ideia fixa de chegar em casa. Estavam casados há seis anos. Pois se gostavam como na lua de mel; viviam num agarramento de meter inveja nos casais infelizes. O comentário geral era o seguinte:

– Parecem dois namorados!

De fato, pareciam. Namorados, noivos ou casadinhos de fresco. Ainda por cima, ciumentíssimos um do outro. Qualquer coisinha, Penteado rosnava:

– Modos!

Para evitar brigas não brincavam no carnaval. Se iam a uma festa, Clélia devia entrar mancando e espalhar, aos quatro ventos, com ar de mártir:

– Estou com o pé machucado.

Engraçadíssimo se um deles bocejava na presença do outro. Vinha o mundo abaixo. Ela, então, não perdoava, dava muxoxo, batia com o pé, fazia má-criação. Incluía o bocejo entre os sintomas clássicos, inconfundíveis, dos finais de amor. Estabelecia o seguinte raciocínio estapafúrdio: “Se ele tem sono ao meu lado, se abre a boca, é porque não gosta mais de mim.” Ou então, estava gostando menos. Penteado tinha que jurar por todos os santos que sua paixão era cada vez mais feroz, etc., etc. A briga acabava em beijo. Ele acompanhava com a ponta da língua o contorno de sua orelha pequena e sensível. Ela, morena, nortista, com propensão para engordar, terminava num dengue irresistível:

– Tu gosta muito dessa gatinha, gosta?

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