A puberdade abstrata – Crônica de Paulo Mendes Campos

By | 10/07/2021

Sempre me encantou a liberdade dos cegos correndo para a morte. Música de redenção cobria-me de emoções praieiras. Flores altas, espontâneas, desmentiam a vida. Ondas que o mar brincava nas rochas informavam o sagrado, aventuras que se desatam de santa rebeldia. Galhos espiralados contra o céu, sabor de terra no meu sangue, tudo subornava em mim a fidelidade dos eleitos.

Deitei-me. Como os antigos, sobre a fonte da virgindade deitei-me. O amor orlava meu sigilo como um sussurro de mitos guerreiros.

Dentro de mim a solidão se povoa, o esplendor das vertentes.

Dos deuses movia-me o pensamento a crueldade nativa. Depois os grandes deuses deixavam de existir: sobre os descampados penetrava a chuva insidiosa dos desânimos.

Redescobria uma criança. Seus sonhos eram oblíquos. À noite os insetos devoravam-na. O instante basta para compreender a vida. Senti-la é o princípio de uma eternidade. A tessitura das amizades é nostálgica, e esse início de fogo consome nossa face. Gatos e coisas silenciosas recebem o melhor de nosso culto.

Ah, possivelmente nunca será demasiado tarde para quem pergunta. Não havíamos então recusado o escárnio da misericórdia? Sofremos. Tempo e beleza empolgam um único pêndulo, a vida e a morte. Na noite um símbolo recomeça: somos escravos das alegorias.

Não podemos perder.

O azul se distribui sem limites, as bocas vão bebê-lo. Por ele, os simples e os sábios morrem de morte mais lúcida e simpática. Na noite, os olhos ficam ainda abertos, vigilantes da estrela.

Deixai que eu fale. Permiti-me a ventura. O verbo copia a alma. Tudo que a alegria consente é bom. Deixai que eu fale. Calai a palpitação metálica da máquina.

Murmura no meu sono o vaivém dos desejos. Eu me aproximo e falo.

Somos mais ricos que o decantar da luz sobre a folhagem entreaberta. E estranhos à vida. Os códigos nos omitiram. Como um bando de garças superamos o episódico. Sobrevoamos o mistério algo simples da várzea.

Onde a emoção é maior do que a forma, aí está o enigma, sombra que não é sombra, carne miraculosa. Nela nos entrelaçamos: homens, pedras hirtas, grandes rios.

O amor é sempre o mesmo.

O indecifrável tange os mesmos homens.

Deus poreja de todas as vinganças.

Comungamos nas nascentes. Somos o inverso de um reino que acaba.

Unirei assim meu corpo às ideias que adivinho. Darei meu sangue às ribeiras. E

todas as vezes que sentir nos cegos o apelo da morte rezarei ao sol.

Uma relação principia. Estamos para o engano como os gnomos para a floresta: é preciso encantar.

Não como os desertos de amplitude saciada. Uma interpretação menos dolorosa… Vivemos!

Vivemos! – responde o vazio das vagas. Vivemos!

Sobre as cortinas pousa o primeiro pássaro de luz. Instala-se uma diversa harmonia.

De mim para o mundo há uma espera. Do mundo para as abstrações mais completas, a música.

A noite se encosta aos muros caiados procurando a aurora.

Nesse intervalo, toda poesia atende ao mesmo nome, qualquer…

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