A selva do asfalto – Crônica de Fernando Sabino

By | 20/09/2021

Desisti de tomar aquele ônibus ali na Avenida Rio Branco, e bem andei, pois eu não iria longe: logo ao arrancar, esbarrou no pára-choque de um fusca verde à sua frente. O trocador desceu para espiar. O dono do fusca verde, um homem já de cabelos brancos, saltou vermelho de raiva:

– Se é para arrebentar, arrebenta logo.

Como resposta, o motorista fez o ônibus avançar, empurrando o fusca.

– Você não faça isso de novo que eu lhe arrebento a cara! — ameaçou o outro, plantado em plena rua, junto à janela do ônibus.
– Cara que mamãe beijou? — e o motorista se abriu num sorriso de desafio; tornou a movimentar o ônibus.

Desta vez o fusca levou por trás uma boa traulitada, saiu rodando uns vinte metros. A jovem ia cruzando a rua e deu um pulo de susto ao ver que ia sendo atropelada por um carro sem chofer. O fusca se voltou para a calçada e a fila ao longo do meio-fio se espalhou em pânico. O dono do fusca ergueu o punho para o motorista:

– Desce daí se você é homem! Te levo já pro distrito.

– Então leva — respondeu o chofer, sem sair do lugar.

E o trânsito paralisado. O povo se juntava para assistir à cena, alguns rindo, outros dando palpites, outros protestando. O ambiente de modo geral era hostil ao chofer do ônibus, que achou mais prudente se mandar dali. Atirou seu carro blindado contra o povo, espalhando-o como formigueiro pisado, e acelerou — mas o fez tão rápido que deixou para trás o trocador.
O trocador resolveu comprar a briga: caiu em cima do homem aos socos e pescoções. O homem era valente, apesar dos cabelos brancos: agarrou o trocador numa violenta gravata, que quase o troca em miúdos.

A esta altura o motorista do ônibus dera por falta do seu trocador. Abandonando o carro superlotado no meio da Avenida, voltou como um gladiador, seguido de dois escudeiros, que, solidários, também haviam deixado os respectivos ônibus:

– Quede o homem?

– Vamos dar um ensino nele.

– Vamos é pro distrito! — insistia o dono do fusca. A multidão parecia prestigiá-lo:

– Prende!

– Pro distrito!

– Não respeitam nada.

Esta judiciosa observação foi feita por mim. O trocador, mal refeito da gravata
que sofrera e tentando endireitar a sua, não mais que um trapo negro dependurado ao pescoço, voltou-se pára mim:

– Ele me deu um pontapé.

– Quem? Ele te deu um pontapé, meu irmão? — um crioulo desenroscou-se à minha frente. Era um dos motoristas.

– Não… — falei, conciliador: — Eu estava dizendo…

Ele não parecia muito interessado em saber o que eu estava dizendo. Prudentemente resolvi recolher-me à minha insignificância, fui tratando de dar o fora. O povo se fechava ao redor dos ases do volante, já ameaçando linchá-los. Eles agora reconsideravam sua disposição, buscando uma saída digna:

– O homem não é de nada.

– Deixa pra lá.

– Viemos só buscar o trocador. Quede o trocador? O boné do trocador?

Recolheram o trocador, recolheram o boné do trocador e se afastaram, como uma patrulha inimiga depois de cumprida a missão, cada um para o seu ônibus. O povo foi-se dispersando, entre comentários. O homem de cabelos brancos voltou para o seu fusca verde.

Mas — ó bestas do tráfego! ó selva do asfalto! — havia um táxi à sua frente. Alguém lhe disse: “Pode ir. Pode ir que já dá.” Ele foi mesmo e não dava. Seu pára- choque enganchou-se no do táxi. Lá vem o chofer do táxi: “Que negócio é esse? É para arrebentar?” O homem saltou do carro. “Vai começar tudo de novo”, pensei. E fui-me embora a pé.

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